Segundo turno

PT fortalece a direita apelando para os preconceitos das massas

Na tentativa de conquistar eleitores de Flávio Bolsonaro, a campanha de Lula recorre ao moralismo religioso, à vida privada do adversário e ao discurso policial

O PT diz que precisa conquistar votos de eleitores conservadores para derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno. Logo, decidiu procurá-los falando como a direita. A campanha explora a devoção religiosa, transforma a vida sexual do adversário em escândalo e promete mais repressão policial. Em cada caso, tenta aproveitar preconceitos difundidos pela burguesia e pelo bolsonarismo em vez de combatê-la.

Na reta final do primeiro turno, espalhou-se que Flávio pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. Era falso. O projeto apontado como prova fora apresentado pelo deputado Professor Victório Galli em 2007 e arquivado no ano seguinte. Flávio não tinha relação com a proposta. Mesmo assim, Janja, Geraldo Alckmin e outros aliados de Lula exploraram o boato. No dia 12 de outubro, Lula celebrou missa no Palácio da Alvorada; Alckmin foi à Basílica de Aparecida.

Os trabalhadores têm direito à sua fé. O problema é fazer dela uma arma eleitoral. A campanha apresentou uma suposta ameaça à santa para assustar os fiéis, embora soubesse que a história atribuída a Flávio não correspondia aos fatos. Ficaram de lado as posições do candidato sobre salários, privatizações e serviços públicos. Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, criticou a exploração da devoção das pessoas humildes para obter votos. O PT passou anos denunciando o uso político da religião pelos bolsonaristas e agora recorre ao mesmo expediente.

A religião, como toda superstição, tem uma origem muito antiga, motivada pela ignorância do ser humano a respeito da sua relação com a natureza. Quando sequer dominava a arte de ler e escrever, quando não possuía basicamente nenhum conhecimento sobre o mundo, todos os fenômenos naturais eram um enigma para o homem antigo. Como não tinha uma explicação racional para aquilo, ele criou fantasias que pudessem lhe dar algum sentido às manifestações da natureza. Com o passar dos milênios, as classes dominantes souberam explorar os temores do homem para mantê-lo na ignorância, mesmo após o desenvolvimento da filosofia, da alquimia e, finalmente, da ciência.

O reforço dos preconceitos religiosos, portanto, é uma arma das classes dominantes para manter o povo subjugado, pois continua vivendo na ignorância. É por isso que a direita, representante tradicional da classe dominante, sempre apelou para os preconceitos religiosos da população. A esquerda, ao longo da história da humanidade, sempre esteve à frente das tentativas de iluminar a mente dos oprimidos para libertá-la e permitir que eles lutassem contra a opressão.

De tão degenerada e adaptada à burguesia, a esquerda brasileira atual passa a adotar a mesma política da direita: reforçar os preconceitos e a ignorância do povo, o que só pode dificultar a sua libertação em relação à opressão.

As acusações sobre supostas festas privadas de Flávio foram aproveitadas de maneira semelhante. O perfil oficial do PT divulgou notícias sobre prostitutas e orgias, apostando na reprovação sexual do eleitor conservador. Possíveis negócios ilícitos, favores recebidos de empresários e uso de dinheiro público são assuntos políticos e devem ser apurados. A vida íntima de um candidato, porém, não informa se ele governará para os trabalhadores ou para os bancos. Ao transformar esse tema em propaganda, o PT dá razão ao moralismo tradicionalmente propagado pela direita.

Na segurança pública, a concessão tem consequências ainda mais graves. “Bandido preso e trabalhador protegido” tornou-se lema da campanha petista. A frase promete proteção a quem sofre com a violência, mas apresenta a ampliação da repressão como resposta. Nas periferias, são os trabalhadores e seus filhos que conhecem as invasões policiais, as abordagens e as mortes. O PT não explica por que esse aparato, que já atua diariamente nos bairros pobres, passaria a proteger seus moradores se recebesse mais poder. Reproduz a resposta da direita e espera colher seus votos. Reforça a propaganda bolsonarista de que só o fortalecimento do aparelho repressivo do Estado poderá proteger o povo, sempre que é este aparelho mesmo que oprime o povo.

O governo também escolheu a proximidade da eleição para anunciar o reajuste do Bolsa Família. Em 17 de setembro, comunicou a elevação de 15,04% no piso, que passaria a R$ 691 em outubro. A reposição era necessária: o benefício permanecera sem correção pela inflação desde 2023. As famílias esperaram mais de três anos para receber um aumento anunciado justamente quando Lula precisava de votos. Um direito que deveria ter sido assegurado antes ganhou a aparência de favor concedido pelo governante.

Além de compra de votos, isso é clientelismo. Mantêm o povo refém do governante de turno. Lula age como um coronel e o PT trata o povo como gado. O PT está dizendo para essas famílias miseráveis que Lula é o “painho” salvador e quem sem ele elas não são nada.

Boato religioso, escândalo sexual, promessa de cadeia e benefício anunciado às vésperas da votação têm algo em comum. Todos procuram provocar uma reação imediata do eleitor. Nenhum exige que o PT explique por que a política defendida por Flávio prejudica quem trabalha. A direção petista parece considerar mais fácil alimentar opiniões conservadoras do que tentar modificá-las: o trabalhador continuaria pensando como antes e trocaria apenas o nome escolhido na urna.

O cálculo dificilmente tira a direita de seu terreno. Se mais polícia é a solução para a violência, Flávio pode dizer que sempre defendeu essa política. Se a devoção religiosa e a moral sexual devem decidir o voto, seus partidários podem fazer a mesma disputa sem precisar imitar ninguém. O PT confere autoridade aos argumentos do adversário e ainda os leva a setores populares sobre os quais mantém influência. Uma campanha assim pode até disputar algum eleitor; deixa intactas as ideias que o conduziram ao bolsonarismo.

O primeiro turno deveria ter provocado outro balanço. Lula recebeu menos votos do que em 2022 e terminou atrás de Flávio, depois de quatro anos de governo com Alckmin e de colaboração com a burguesia. A aproximação com a direita não conteve o bolsonarismo. Muitos dos que votaram em Flávio vivem de salário, pagam aluguel e devem aos bancos. Continuam tendo interesses de classe, qualquer que seja sua escolha eleitoral. É sobre esses interesses que uma campanha de esquerda poderia discutir com eles. 

Isso significaria mostrar quem ganha com os juros cobrados dos trabalhadores, quem se beneficia das privatizações e contra quem se volta a violência policial. Significaria defender aumento salarial, redução da jornada sem corte de vencimentos e organização independente da classe operária. O trabalhador que hoje segue a direita pode ser convencido numa luta por suas próprias necessidades. Ao invés de procurar elevar a consciência dos oprimidos, o PT prefere buscar a frase capaz de mudar seu voto sem mudar sua opinião.

Essa política alcança também a base petista. Quem apoiou Lula esperando uma saída de esquerda ouve agora do próprio partido o mesmo mantra da direita: polícia, religião e os “bons costumes”.

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