Banco Master

Cunhado de Gilmar Mendes era um agente de Daniel Vorcaro

Banqueiro custeou viagem de Chiquinho Feitosa às vésperas de julgamento no STF; ex-senador recebia para acompanhar seus interesses

Daniel Vorcaro pagou a hospedagem de Francisco “Chiquinho” Feitosa em São Paulo às vésperas de um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre cursos de medicina. O então cunhado de Gilmar Mendes acompanhava causas do dono do Banco Master e organizava contatos com o gabinete do ministro. Chiquinho trabalhava como um agente do banqueiro.

Segundo o Estado de S. Paulo, o advogado Ciro Soares pediu em 22 de maio de 2024 uma alteração na reserva de Chiquinho no hotel Rosewood. Vorcaro enviou o comprovante ao hóspede. Foram três noites. Ao sair, Feitosa escreveu: “Saindo agora do hotel, foi tudo ótimo! Obrigado e bom fim de semana”. Em outubro, a diária custava R$ 31.552; o preço pago em 2024 não foi divulgado. Ciro mandou ao banqueiro uma foto dos dois na viagem.

Dois dias depois do pedido sobre o hotel, começou no STF o julgamento virtual das regras para abrir cursos de medicina. Um fundo ligado ao Master investia no ensino superior. No dia 30, Ciro avisou a Vorcaro: “Vencemos”. Acrescentou que era o assunto das faculdades que estava com Gilmar, relator dos processos. A decisão exigiu autorização do Ministério da Educação, mas deixou prosseguir pedidos já avançados, como os de interesse do grupo de Vorcaro. Gilmar diz que votou contra a abertura indiscriminada de cursos e nega ter discutido o julgamento com Chiquinho ou Ciro. Feitosa também nega essa conversa.

A ligação de Feitosa com o banco não se resumia à viagem. Ele negociou um contrato com a Super Empreendimentos, empresa ligada a Vorcaro, que previa R$ 500 mil líquidos mensais e R$ 800 mil adicionais na primeira parcela. Uma relação enviada a Vorcaro em outubro de 2024 registrou a mensalidade. Feitosa, que não é advogado, admitiu uma breve consultoria. Sua irmã Guiomar só se divorciou de Gilmar em novembro de 2025.

Em abril de 2024, Chiquinho passou a Vorcaro o contato da secretária de Gilmar e os dados de uma audiência no STF. Gilmar recebeu o banqueiro e advogados do Master para discutir créditos da Destilaria Alcídia contra a União. Fundos ligados ao banco haviam comprado precatórios de usinas. Na semana seguinte, Feitosa contou a Vorcaro que a conversa do advogado Bruno Bianco com o ministro havia ficado “perfeita”. Chiquinho acompanhava também créditos da Usina Tabu e a disputa sobre os cursos de medicina. Gilmar nega que ele tenha intermediado a audiência.

O ex-senador tratava ainda da presença do banco em eventos ligados ao ministro. Ao discutir um convite para um coquetel paralelo a um seminário do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), sugeriu suprimir o nome do Master: “Ganhamos uma partida, mas ainda não ganhamos o campeonato. De modo que não é bom se expor!”.

Em janeiro de 2024, Ciro soube que Vorcaro estaria num almoço em homenagem ao procurador-geral Paulo Gonet, com Gilmar entre os convidados. Escreveu ao banqueiro: “Procure ele. No meu nome e do Chiquinho Feitosa. GM já está ciente da sua ida”. Em junho, relatou encontros com Gilmar e tentou levar Vorcaro para jantar na casa do ministro. Gilmar nega o convite, e o jantar não ocorreu. A audiência no gabinete está confirmada.

Gonet está ligado a Gilmar há décadas. Fundaram o IDP com Inocêncio Mártires Coelho e assinam juntos um livro de direito constitucional. Gonet foi sócio por 19 anos; Gilmar apoiou sua indicação à Procuradoria-Geral da República (PGR). O instituto organiza em Lisboa um fórum que reúne magistrados, advogados e empresários. Ciro relatou a Vorcaro seus contatos com Gilmar durante esses encontros.

O procurador-geral também entrou nas conversas de Ciro com o banqueiro. O advogado enviou fotos com Gonet, repassou seu endereço residencial e relatou um jantar na casa dele em que falaram de Vorcaro. Gonet confirma que recebeu Ciro num encontro social, mas nega amizade com Vorcaro; sustenta que só encontrou o banqueiro uma vez, em Londres. Em setembro, o Conselho Superior do Ministério Público Federal rejeitou, por cinco votos a quatro, um pedido de investigação criminal sobre sua atuação no caso.

Quando o relatório da Polícia Federal trouxe à tona menções a Gonet e a Alexandre de Moraes no material extraído do telefone de Vorcaro, Gilmar saiu em defesa do antigo sócio. Chamou de injusta a exposição do procurador-geral e atacou André Mendonça, relator do caso Master no STF. Gonet, embora citado nos documentos, requereu a anulação do relatório.

Na sessão de 15 de setembro, convocada para discutir uma investigação sobre Moraes, Gilmar quis reunir esse caso a um procedimento sobre Mendonça. Moraes votou na discussão que dizia respeito à sua própria conduta e acompanhou Gilmar, assim como Cristiano Zanin. Quando a maioria se formava contra a manobra, Flávio Dino pediu vista e suspendeu a decisão. O Bando dos Quatro impediu o exame dos encontros e mensagens de Moraes com Vorcaro e do contrato milionário do Master com o escritório da mulher do ministro, Viviane Barci.

Gilmar tem motivo próprio para tentar melar a apuração. O banqueiro pagava seu então cunhado, discutia processos do STF com ele e foi recebido no gabinete de Gilmar. Gonet, a quem o ministro protege, também aparece nas mensagens de Ciro. Uma apuração dos contatos de Vorcaro no Supremo obrigaria Gilmar a responder pelo papel de Chiquinho. O Bando dos Quatro tenta impedi-la.

Um parente de ministro contratado pelo banqueiro, causas discutidas com o relator e ministros manobrando para impedir a investigação de um colega: é essa a pocilga do STF. O tribunal não passa de um balcão de negócios e um antro de proteção mútua. Deve ser extinto, com uma reforma democrática do Judiciário que institua a eleição popular de juízes, promotores e procuradores e permita revogar seus mandatos.

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