Alexandre de Moraes aparentemente viu um passarinho verde. Tomado de inusitado ataque de bondade, decidiu aliviar a pena da Débora do Batom com uma autorização para progressão de regime. Aproveitando o embalo, também arquivou investigação contra o senador Marcos do Val, os blogueiros Allan dos Santos e Oswaldo Eustáquio e o influenciador Ednardo Raposo. O mesmo passarinho pousou na janela do gabinete do “decano” Gilmar Mendes, que, numa canetada, determinou o arquivamento do pedido de investigação sobre estupro de vulnerável contra o deputado federal Alfredo Gaspar, que é candidato a vice-presidente na chapa do senador Flávio Bolsonaro. O STF sentiu o baque do resultado do primeiro turno da eleição, com Flávio à frente de Lula e o aumento da bancada de senadores do bloco bolsonarista, favoráveis ao impeachment de juízes.
Quanto à Débora do Batom, na prática, nada mudou, pois ela já cumpre em prisão domiciliar os 14 anos a que foi condenada por rabiscar a estátua da Justiça na Praça dos Três Poderes. À época, o algoz não se condoeu nem mesmo diante do pedido de perdão da moça, acompanhado de promessa de que nunca mais faria nada parecido. A cabeleireira foi acusada de participar de uma tentativa de golpe de Estado e de estar armada, entre outros crimes, que justificariam punição tão severa. Moraes foi irredutível, e Débora já cumpriu quase quatro anos por nada. Não à toa, ela se tornou um símbolo da politização do STF, cuja credibilidade está em franco declínio – não só pelo envolvimento de vários de seus membros no escândalo do Banco Master como pelo conjunto da obra.
Para tentar se salvar, Moraes fará qualquer coisa – e já está dando sinais. O mesmo vale para os demais integrantes do STF Futebol Clube, que, vendo a inutilidade de suas manobras para favorecer Lula na reta final da corrida eleitoral, já se preparam para pular fora do barco. Moraes oferece bondades aos bolsonaristas, mostrando que já soltou a mão de Lula. O presidente não conseguiu se desvencilhar de Moraes, o que muito contribuiu para o indigesto resultado eleitoral, mas Moraes está pensando no próprio futuro.
A situação do presidente Lula está longe de ser confortável. Seus “amigos” do STF já acenam para Flávio, vários de seus supostos apoiadores correram sozinhos, caso de Eduardo Paes e Simone Tebet, e Eduardo Leite, a quem Lula apoiou no passado, recusou-se a retribuir a gentileza, avisando que prefere a “neutralidade”. Até por ser esta, provavelmente, a última eleição de Lula, ninguém parece interessado em dar uma forcinha para virar o resultado no segundo turno.
A militância petista, por sua vez, está visivelmente equivocada, como se pode aferir nas redes sociais. São incontáveis as publicações em que destilam ódio de supostos eleitores de Flávio: é o entregador de pizza que não merece mais uma gorjeta, a empregada a quem se recusa um adiantamento de salário – e por aí vai. A esquerda de salão está disposta a dar uma lição de moral no povo, que “não sabe votar”. Queriam, talvez, que a população pobre se identificasse com as vagas reivindicações do mercado identitário, que serve para cobrir a classe média de um lustro moral de rede social. Enquanto isso, é o povo que dá uma lição no governo.
Pode ser que Lula consiga virar o jogo. Não estamos aqui a torcer pelo contrário, mas, a mensurar a situação pelo que diz a imprensa burguesa, estaria mesmo decretado o “fim da era do PT”. A Folha de S. Paulo publicou em editorial que um indulto de Flávio a seu pai, no caso de se confirmar no segundo turno o resultado do primeiro, seria uma “decisão moralmente infame diante da tentativa de golpe, ainda que juridicamente amparada por se tratar de prerrogativa constitucional do presidente da República”. Que a frase lapidar sirva de lição aos nossos amigos da mídia dita progressista, que mergulharam de cabeça na defesa apaixonada de Alexandre de Moraes e do mito da proteção da “democracia”, argumento último para condenar Bolsonaro a uma espécie de ostracismo. A imprensa que criou e propalou essa versão do espantalho bolsonarista, agora, muda de tom e se prepara para os “novos tempos”.
Antes, a condenação por tentativa de golpe era explicada com requintes de juridiquês, como se o processo tivesse corrido totalmente de acordo com a Constituição, sem parcialidade política, e agora seu possível cancelamento pela palavra do presidente é uma prerrogativa “juridicamente amparada”. A Folha nem mesmo esperou o resultado do segundo turno para oferecer o argumento. A estratégia retórica é atribuir “legalidade” àquilo que se pretende defender, de tal modo que o discurso sempre pareça racional. Dada a correlação de forças, o indulto, que de fato é legal, já é posto sobre a mesa de negociações.
A burguesia faz isso com imensa facilidade, enquanto a esquerda pequeno-burguesa, que acredita nos seus heróis de ocasião, fica sem discurso. Tanta gente na imprensa “progressista” gastou o verbo para defender as condenações dos “golpistas” do 8 de janeiro e as relações de Alexandre de Moraes e sua digníssima esposa com o Banco Master, fazendo papel ridículo, mas nem o próprio Moraes acredita nessas coisas. A esta altura, está bastante claro para que serviam suas demonstrações de força no tribunal, que aumentaram exponencialmente os honorários do escritório da mulher…
A moça do batom foi condenada não pelo golpe que não houve nem pela arma que não tinha, mas pela frase que escreveu na estátua: “Perdeu, mané” é o símbolo da desmoralização do STF. Foi o seu então presidente, Luís Roberto Barroso, que a usou para responder a um eleitor que o interpelou com um pedido de liberação do código-fonte da urna eletrônica. Embora fosse um eleitor bolsonarista, o “mané” não desrespeitou o ministro – e filmou a cena, que se propagaria pela internet. O eleitor não praticou uma ação condenável, mas o ministro se comprometeu, mostrando que o STF tem lado. De lá para cá, muita coisa aconteceu: Barroso rasgou a carteirinha do clube e foi cuidar de seus negócios, Moraes enfiou o pé na areia movediça, puxando Lula, e os coleguinhas mostraram que também pisaram na lama.
Há quatro anos, Lula subiu a rampa do Planalto com a Janja e sua cadelinha, Geraldo Alckmin, uma índia de ONG e um grupo de identitários. Deu no que deu. Flávio quer fazer o trajeto ao lado do pai, o que pode ser a moeda de troca para salvar o STF. Aguardemos.





