Liszt Vieira publicou terça-feira (29) no sítio A Terra é Redonda o artigo Reta final – corrupção e voto, procurando explicar por que as denúncias envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ainda não produziram a queda eleitoral que parte da esquerda esperava. O texto reconhece o dado incômodo de que apesar de toda a repercussão do caso Master, Flávio não caiu nas pesquisas de setembro.
A pergunta revela mais do que o autor parece perceber. Se a principal esperança para melhorar a situação eleitoral de Lula é que apareçam novas denúncias contra seu adversário, alguma coisa já deu errado muito antes do escândalo.
Apostar em corrupção é uma política essencialmente negativa. Em vez de pedir apoio pelo que o governo realizou em benefício dos trabalhadores, a candidatura passa a depender dos defeitos, escândalos e crimes atribuídos ao adversário. Em vez de dizer “veja o que fizemos”, passa a dizer “veja como o outro é pior”. Quanto maior a dificuldade de apresentar conquistas capazes de mobilizar a população, maior se torna a expectativa depositada numa investigação, num áudio, num documento vazado ou numa denúncia policial.
No fundo, essa política funciona como uma confissão involuntária. Quatro anos de governo deveriam, supostamente, permitir que uma candidatura à reeleição chegasse à disputa apoiada em seus feitos. Como avanço nos salários, empregos, moradia, saúde, educação, transporte e condições de trabalho, etc. No entanto, pouco ou nada foi apresentado.
Os números mostram que não existe esse entusiasmo generalizado. Pesquisa Datafolha realizada em 22 e 23 de setembro apontou 40% de avaliação negativa do governo Lula, diante de 34% de avaliação positiva e 24% regular. Na pesquisa eleitoral divulgada dias depois, Lula aparecia com 40% e Flávio Bolsonaro com 36%, diferença dentro da margem de erro. A poucos dias da eleição, portanto, um presidente em exercício disputava uma corrida apertada com o candidato do bolsonarismo.
O artigo de Liszt Vieira dedica boa parte de seu espaço a investigar por que o caso Flávio-Vorcaro ainda não retirou votos suficientes. Apresenta dados sobre eleitores decididos e indecisos, identifica os grupos teoricamente mais suscetíveis a novas informações e termina prevendo que, num eventual segundo turno, as denúncias poderiam exercer papel maior.
Mas a própria pesquisa utilizada demonstra o limite dessa esperança. Entre os eleitores de Lula, 84% afirmavam estar totalmente decididos; entre os de Flávio, eram 82%. Entre os eleitores que não se identificavam nem com nenhum dos dois, 46% diziam que poderiam mudar de escolha. Isso mostra volatilidade nesse terceiro setor; não demonstra que uma denúncia de corrupção necessariamente o empurrará para Lula.
A razão disso é que o caso Master não está sendo percebido pela população como um escândalo exclusivamente ligado à direita. Segundo o Datafolha, 34% associavam majoritariamente os políticos envolvidos no caso à esquerda e 27% à direita. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, 58% diziam que os envolvidos eram sobretudo de esquerda; entre os eleitores de Lula, 48% apontavam principalmente a direita. Mais revelador ainda: 38% citavam espontaneamente Lula como candidato prejudicado pela crise do STF e pelo Banco Master, contra 31% que mencionavam Flávio.
A tentativa de transformar o escândalo em arma eleitoral simples esbarra, portanto, no próprio caráter do caso. O Master envolve banqueiros, ministros, empresários e políticos de diferentes setores. A população recebe cada nova revelação no meio de disputas políticas. E nada demonstra que exista um mecanismo automático pelo qual mais denúncias contra Flávio se convertam em mais votos para Lula.
Este Diário já mostrou outro problema dessa política: a esquerda conhece perfeitamente o método da campanha anticorrupção. Durante anos, ele foi utilizado contra Lula e o PT. A Lava Jato é o maior exemplo do resultado dessa transformação da política em processo criminal. Mudar o acusado não muda o método.
As suspeitas de corrupção envolvendo Flávio Bolsonaro devem ser apuradas. O problema é depositar nisso a esperança de vitória política. Esses setores da esquerda esperam que a polícia, não o trabalhador, eleja Lula.
Uma das evidências da crise da campanha Lula aparece em outras bandeiras levantadas na reta final.
A proibição das bets foi apresentada como grande iniciativa política, mas não engaja o trabalhador que enfrenta salário baixo, aluguel, juros e endividamento. A divisão abstrata entre “democracia” e “fascismo” cumpre a mesma função. Em vez de apresentar um programa conceto capaz de mobilizar a classe trabalhadora, procura-se mostrar que o adversário representa uma ameaça tão excepcional que todas as demais questões deveriam ser subordinadas à necessidade de derrotá-lo. É a velha política do “mal menor”.
Corrupção, fascismo, bets, erros de campanha, declarações absurdas, até podem produzir efeitos políticos. Nada disso, no entanto, pode substituir aquilo que o governo deveria ter realizado.
Muito do voto em Flávio Bolsonaro se deve ao fato deste ser percebido como antissistema. Ele sabe quanto recebe, quanto paga no supermercado, quanto deve ao banco, o tempo gasta no transporte, a duração de sua jornada, se consegue atendimento médico e quais perspectivas possui para os filhos, etc.
Quando esse terreno está fraco, surge a tentação de encontrar uma causa lateral para explicar todos os problemas: o eleitor estaria desinformado, estaria enganado pelo fascismo, não teria compreendido a corrupção do adversário ou precisaria ser protegido das bets.
No caso do artigo de Liszt Vieira, a expectativa recai sobre o escândalo. A corrupção ainda não teria produzido seus efeitos, mas poderia alcançar os indecisos, diminuir a convicção dos eleitores e pesar mais num segundo turno.
Uma campanha que depende do próximo escândalo do adversário já admite, mesmo sem dizer, que seus próprios feitos não são suficientes.




