O artigo Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, publicado pelo Esquerda Online nesta terça-feira (29), começa falando de vacinas, crise climática e terraplanismo. Pouco depois, chega ao seu verdadeiro alvo, os setores da esquerda que não aceitam retirar suas candidaturas e apoiar Lula. Mauro Puerro chama essa divergência de “negacionismo na política” e pergunta a UP, PCB, PSTU e PCO se não deveriam abandonar suas candidaturas para chamar voto em Lula. A operação é até simplória, apresenta-se uma conclusão política como se fosse um fato objetivo e, a partir daí, quem discorda passa a “negar” a realidade.
Negar que a Terra seja redonda não é a mesma coisa que discordar sobre uma tática eleitoral. Uma afirmação científica pode ser submetida à demonstração. A decisão de lançar candidatura própria, apoiar outro partido ou defender voto nulo é uma questão política. Pode ser criticada, mas não vira “negacionismo” porque um articulista decidiu que sua própria tática é obrigatória.
O termo “negacionismo” não surgiu durante a pandemia. Foi inventado para estigmatizar as pessoas que questionavam a existência do Holocausto, ou do número de mortos. Daí passou para as mudanças climáticas e fatos científicos estabelecidos. Foi durante a Covid-19, porém, que ganhou enorme força política e entrou no vocabulário cotidiano. Estudos sobre a cobertura brasileira mostram que, nos primeiros anos da pandemia, o “negacionismo científico” se tornou um enquadramento recorrente para decisões do governo Bolsonaro.
Houve mentiras em torno da doença. Mas o problema foi transformar a palavra em instrumento para liquidar a discussão. Alguns diziam que a doença não existia; havia também quem perguntasse legitimamente sobre efeitos adversos, vacinação obrigatória, eficácia de doses e medidas excepcionais do Estado.
Dúvida e negação não são sinônimos. O CDC (Centros de Controle e Prevenção de Doenças ) reconhece que pode haver uma associação causal entre vacinas de RNA mensageiro e casos de miocardite e pericardite, especialmente entre adolescentes e homens jovens, ao mesmo tempo em que sustenta os benefícios da vacinação contra formas graves da Covid-19. Perguntas sobre segurança não podem ser respondidas apenas com o rótulo de “negacionista”.
Este Diário combate desde o início o uso político do “negacionismo”. Em 2022, criticamos o passaporte vacinal e denunciamos que a expressão “luta contra o negacionismo” vinha sendo usada para justificar censura de opinião. Destacamos também a tentativa de se responsabilizar os não vacinados pelo avanço da doença. A posição não consistia em negar a epidemia nem a utilidade das vacinas, mas em rejeitar que uma emergência sanitária desse ao Estado licença para determinar quais opiniões poderiam circular.
Agora a mesma fórmula reaparece em versão eleitoral. O Esquerda Online afirma que há setores da esquerda radical contaminados pelo “vírus” do negacionismo, acusa-os de minimizar o perigo do neofascismo e pergunta a UP, PCB, PSTU e PCO por que não retiram suas candidaturas para chamar voto em Lula. E sustenta que a eleição seria excepcional e que a retirada poderia ser decisiva. Isto é uma posição política. Não é um fato científico.
Lênin jamais tratou eleições como um tribunal diante do qual os revolucionários deveriam provar sua responsabilidade apoiando o candidato considerado menos perigoso. Ao discutir acordos eleitorais em 1906, partiu da independência política do partido operário. A regra geral era preservar essa independência; exceções exigiam “extrema necessidade” e condições limitadas.
Também em Esquerdismo, doença infantil do comunismo, Lênin combateu a recusa abstrata em participar dos parlamentos burgueses. Não porque acreditasse que a transformação social viria das urnas, mas porque, enquanto grandes setores dos trabalhadores mantivessem ilusões nessas instituições, os comunistas deveriam atuar nelas para alcançá-los politicamente. A eleição era um terreno de luta, não o princípio ordenador de toda a política revolucionária.
Frente única, apoio crítico, candidatura própria ou retirada eleitoral são problemas que se apresentam na luta política. Transformar uma dessas táticas em dever permanente é substituir a análise concreta política por uma regra eleitoral engessada.
A palavra “fascismo” também é deformada no artigo. Flávio Bolsonaro é apresentado como a variante neofascista e, a partir dessa classificação, todo o restante da tática é deduzido. Se o adversário é fascista, a eleição deixa de ser normal; se não é normal, as candidaturas menores devem ser retiradas; se elas não são retiradas, seus partidos estão minimizando o fascismo. É a típica conclusão que aparece embutida na premissa.
Trótski não usava a palavra dessa maneira. Em uma carta publicada que publicamos em 2020, rejeitou chamar de fascista toda ditadura contrarrevolucionária e distinguiu a ditadura de Primo de Rivera do fascismo italiano. Para ele, a base genuína do fascismo estava na pequena burguesia mobilizada como movimento de massas, dirigida e financiada por grandes interesses capitalistas.
Em 1932, ao analisar a Alemanha, foi ainda mais preciso: o fascismo mobilizava setores da pequena burguesia e outros estratos desesperados, com o apoio do capital financeiro, para destruir as organizações do proletariado. Não era simplesmente repressão policial nem qualquer governo de direita. Sua função era esmagar sindicatos, partidos e demais organizações independentes da classe operária.
Quando “fascismo” passa a designar toda força reacionária que disputa uma eleição, a palavra perde capacidade de distinguir fenômenos diferentes. Sem essa distinção, desaparece também a possibilidade de formular uma política correspondente a cada situação.
A democracia burguesa não deixa de ser burguesa porque realiza eleições. Seus tribunais reprimem, seus governos fazem guerras, suas polícias atacam trabalhadores e suas instituições defendem a propriedade capitalista. Isso não torna democracia parlamentar e fascismo a mesma coisa. Trótski assinalava que ambos preservam a dominação burguesa, mas se apoiam em relações diferentes entre as classes e oferecem condições muito diferentes para a organização do proletariado.
O artigo realiza, assim, duas operações diferentes. De um lado, trata a política eleitoral proposta pelo autor como se fosse conclusão objetiva e chama de “negacionismo” a recusa em aceitá-la. De outro, usa “fascismo” de maneira tão ampla que a categoria passa a funcionar também como instrumento de pressão sobre a própria esquerda.
O Esquerda Online defende que a ameaça representada pela direita exige a retirada das candidaturas da esquerda radical em favor de Lula. Essa é uma posição política identificável no próprio artigo e que o autor utiliza como chantagem.
Faltou ao texto faze a crítica do próprio governo Lula, que pouco fez para trazer para si o apoio da classe trabalhadora. Se o petista fracassar nestas eleições, não será por culpa de nenhum partido que lançou candidaturas próprias, mas de sua política de Frente Ampla.




