O artigo Eleições: como enfrentar os dramas humanos da Amazônia?, publicado pela Revista Movimento nesta quarta-feira (30), parte de um dado grave. Segundo tabulação dos autores, André Luiz de Souza e Francisco Diétima da Silva Bezerra, a partir da PNAD Contínua de 2024, 43,7% dos domicílios rurais da Região Norte viviam algum grau de insegurança alimentar; em 8,8%, a situação era grave.
A questão é se discutir como tirar milhões de pessoas dessa situação com uma esquerda infiltrada pelo ecossocialismo. Surgem programas, mecanismos de participação, compras públicas e “bioeconomia”, enquanto o desenvolvimento material da região fica em segundo plano. O artigo até pergunta como distribuir os benefícios da riqueza amazônica, mas se esquece de perguntar como ampliar essa riqueza em escala suficiente para sustentar hospitais, escolas, saneamento, transporte, indústria e empregos.
Apenas produzir alimentos, como o texto reconhece, não basta. É preciso renda, transporte, água, equipamentos e acesso a serviços. Mais adiante, o artigo cobra energia confiável, estruturas de saúde e educação, manutenção, profissionais e custeio. Mas tudo isso depende de uma base material enorme, pois hospitais não funcionam com boas intenções. Saneamento exige obra e o transporte numa região continental exige infraestrutura. Produção exige energia.
A questão energética é um dos nós do problema, pois é alvo constante dos ecossocialistas. A Empresa de Pesquisa Energética calcula que quase 2 milhões de pessoas vivem em 160 localidades atendidas por Sistemas Isolados. São áreas que enfrentam dificuldades de logística, custo e segurança de abastecimento.
Energias eólica e solar têm papel importante, mas também têm impactos ambientais, como toda produção de energia. Documentos do próprio governo registram colisões de aves e morcegos, perda e fragmentação de habitat, supressão de vegetação e interferências sobre mamíferos terrestres em áreas de parques eólicos. A análise socioambiental do Plano Decenal de Expansão de Energia chega a registrar interferências sobre áreas e condições de vida de onças na Caatinga.
Não existe produção de energia sem consequências materiais. A expressão “energia verde” omite que se necessita de estradas de acesso, linhas de transmissão, supressão de vegetação, ruído, equipamentos e alteração do ambiente. Se todo impacto ambiental fosse motivo suficiente para impedir uma fonte energética, também as fontes apresentadas como modelo pela esquerda ambientalista teriam de ser abandonadas.
Aqui é preciso denunciar a ação de ONGs e políticos oportunistas que tentaram impedir a construção da hidrelétrica de Belo Monte. É impossível discutir o desenvolvimento amazônico ignorando o potencial de seus rios e a necessidade de energia confiável. Os sabotadores da Amazônia transformam qualquer grande obra em suspeita, e ao mesmo tempo denunciam que faltam hospitais, escolas, transporte, saneamento e emprego. São eles que criam uma barreira política contra a infraestrutura necessária para manter tudo isso funcionando.
Outro dado relevante é sobre o petróleo da Margem Equatorial. Em 2023, com a pressão da esquerda ecossocialista, políticos e ONGs financiadas pelo imperialismo, o Ibama negou a licença para perfuração exploratória do bloco FZA-M-59. Depois de novas exigências e testes de emergência, a Petrobrás recebeu autorização para perfurar em outubro de 2025. Em agosto deste ano, encontrou hidrocarbonetos no poço Morpho, a cerca de 175 quilômetros da costa do Amapá e quase 500 quilômetros da foz do rio Amazonas. A quantidade e a viabilidade comercial da descoberta ainda estão sendo avaliadas.
O nome “Foz do Amazonas”, usado para a bacia sedimentar, produz uma confusão conveniente. O poço não está na boca do rio nem no meio da floresta, mas em águas ultraprofundas, com lâmina d’água de 2.886 metros.
A Margem Equatorial mostrou até onde chega essa política. Durante anos, Marina Silva e o ambientalismo ligado às grandes fundações estrangeiras fizeram pressão contra a pesquisa de petróleo na região. A Petrobrás finalmente perfurou e encontrou hidrocarbonetos no poço Morpho. Ainda não se sabe a dimensão comercial da descoberta, mas já ficou demonstrado o absurdo de impedir até mesmo a pesquisa de uma riqueza que pode ter enorme importância para o País.
Para se ter uma ideia da ingerência dessas entidades do imperialismo na região, a Fundação Ford registra, por exemplo, US$ 1,36 milhão destinados à COICA para atividades relacionadas aos direitos dos povos da Bacia Amazônica e mantém diversos outros financiamentos relacionados a território, clima e organizações da região.
Marina Silva reuniu-se em Davos, em 2023, com Alexander Soros e Mark Malloch-Brown, então presidente da Open Society Foundations, e discutiu com eles o Fundo Amazônia. A própria reunião foi divulgada publicamente. Grandes fundações estrangeiras, fachadas da CIA, possuem dinheiro, organizações, relações políticas e interesses declarados na Amazônia.
O artigo fala em combinação de proteção de renda, programas de compra de alimentos, mecanismos de participação, fortalecimento de pequenos produtores e “sociobiodiversidade”. E acaba pedindo transporte, armazenamento, assistência técnica, água, saneamento, energia, saúde e educação. Ou seja, chega à porta do problema, mas não entra.
Políticas de assistência podem aliviar a pobreza. Uma cooperativa pode melhorar a renda de determinado grupo e compra pública pode favorecer agricultores. Mas nada disso substitui a questão de como uma região de dimensões continentais amplia sua produção de energia, sua capacidade industrial, suas vias de transporte e sua infraestrutura.
A discussão não pode ser reduzida a uma escolha abstrata entre “desenvolvimento” e “preservação”. O desenvolvimento das forças produtivas cria a base material para ampliar a produção social e sustentar serviços públicos em grande escala. A questão para a esquerda é lutar pelo controle popular dessa produção e pela distribuição da riqueza.
A Amazônia possui uma quantidade extraordinária de recursos naturais e possibilidades produtivas e, ao mesmo tempo, concentra enormes carências sociais. É justamente essa contradição que precisa ser explicada e enfrentada. Falar de pobreza sem colocar no centro a energia, a infraestrutura, a produção é deixar de fora uma parte decisiva do problema.
É uma enorma contradição denunciar a fome e, ao mesmo tempo, tratar com desconfiança aquilo que amplia a capacidade produtiva da região. O pior é que o ambientalismo de esquerda, na maioria das vezes ligado a ONGs estrangeiras, tem sido um dos grandes obstáculos para o desenvolvimento da Amazônia.





