No artigo Entre dois mundos, publicado pela Revista Movimento em 24 de setembro, Israel Dutra, dirigente do MES-PSOL, apresenta a situação internacional como uma disputa entre dois campos. De um lado, Donald Trump e a extrema direita; do outro, Lula, a democracia, a soberania e as liberdades. A eleição brasileira seria, nas palavras do autor, um “plebiscito de alcance mundial”, algo como ‘ou Lula, ou Flávio Bolsonaro como agente de Trump’.
Essa divisão simplifica problemas que não começaram com Trump. As chamadas democracias ocidentais participaram das principais guerras imperialistas das últimas décadas, sustentaram “Israel” durante a destruição da Faixa de Gaza e, em 2026, os Estados Unidos entraram em guerra contra o Irã apoiado por diversas “democracias”. Essa gente não fica devendo nada para a extrema direita.
Quando a eleição brasileira entra em cena, a análise das relações entre Estados, dos interesses econômicos e das guerras é substituída por uma divisão na qual Trump concentra a reação internacional e Lula representa o campo da soberania e da democracia.
Em 21 de agosto, no entanto, os dois presidentes conversaram para reabrir negociações comerciais. Dez dias depois, o governo brasileiro informou oficialmente que representantes dos dois países retomavam as conversas “como consequência das conversas mantidas pelos Presidentes Lula e Donald Trump”. Ali, a maioria da esquerda parou de criticar o norte-americano.
Dutra acrescenta a Inteligência Artificial às questões que provariam a existência desses “dois mundos”. Mas qual é a relação entre a IA e a disputa Lula-Flávio? O artigo não explica.
A contradição fica mais visível quando Dutra fala das redes sociais. Acusa a Meta de retirar temporariamente do ar um perfil de Fábio Porchat sobre o Banco Master.
O problema é que setores dessa mesma esquerda defenderam que as plataformas retirassem conteúdos considerados ilegais e que o Estado ampliasse os mecanismos de controle das redes. Em 2023, a própria Revista Movimento defendeu o PL 2630 e apresentou como positiva a imposição de obrigações às plataformas para a retirada de contas e conteúdos considerados criminosos.
Quando se concede a empresas, órgãos administrativos ou tribunais um poder cada vez maior para decidir o que pode circular, é o que acontece. O episódio envolvendo a Meta mostra o resultado de se entregar a agentes privados ou estatais a faculdade de agir sobre a liberdade de expressão.
O mesmo vale para a mentira. Se uma afirmação é falsa, ela pode ser confrontada com fatos e argumentos. O problema começa quando o “combate à mentira” vira justificativa para aumentar poderes de censura e transferir a empresas ou juízes a decisão sobre aquilo que pode ser dito.
O texto finge que não existe o crescimento dos poderes do Supremo Tribunal Federal. O chamado inquérito das fake news foi aberto pelo próprio STF em março de 2019. Em setembro de 2026, ainda existia. A crise aberta obrigou Edson Fachin a dizer que está entre as metas o fim do inquérito.
A concentração de poderes no Judiciário, portanto, não surgiu com a atual crise. O avanço do STF sobre questões políticas, sobre a liberdade de expressão e sobre atribuições de outras instituições foi se desenvolvendo durante anos e com apoio da esquerda pequeno-burguesa. Chamar toda crítica a esse processo de ofensiva da extrema direita evita a discussão dos limites de um tribunal não eleito que passou a ocupar posição cada vez mais decisiva na vida nacional.
A crise do Banco Master tornou a questão ainda mais evidente. Em 3 de setembro, Fachin abriu procedimento para apurar supostas irregularidades em investigações da PF envolvendo autoridades com foro no Supremo e determinou que Alexandre de Moraes, André Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, prestassem esclarecimentos. A disputa atingiu, portanto, o interior das próprias instituições, apresentadas durante anos como anteparo contra a extrema direita.
Há interesse eleitoral de Flávio Bolsonaro e outros candidatos em explorar o caso. Isso não elimina os fatos que deram origem ao escândalo.
Há uma contradição semelhante quando Dutra apresenta o discurso de Lula sobre Gaza como prova da existência de um campo da soberania. O governo brasileiro fez críticas a “Israel”, mas não rompeu as relações diplomáticas e comerciais. A página oficial do Itamaraty, atualizada em maio deste ano, continuava registrando uma ampla gama de acordos em vigor e um intercâmbio comercial de US$ 1,9 bilhão em 2025.
Condenar a ofensiva “israelense” em discurso é uma coisa; romper relações políticas e econômicas é outra. O próprio Israel Dutra já defendeu que o Brasil rompesse relações com “Israel”. Em Entre dois mundos, entretanto, isso desaparece para que o discurso brasileiro na ONU seja apresentado como demonstração de uma oposição real entre dois campos mundiais.
O problema reaparece quando se fala em soberania econômica. O MES defende explicitamente uma política de abandono gradual da extração, do refino e do uso de combustíveis fósseis e se coloca contra a expansão da exploração de petróleo no País, especialmente na Margem Equatorial. Mas como um país amplia sua soberania se restringe a exploração, sob controle nacional, de uma riqueza estratégica?
O autor faz referência no texto a uma certa “esquerda renovada”. No entanto, não dá para chamar de renovada uma esquerda concentrada em reformas institucionais e ecologia.
No fim, a função da teoria dos “dois mundos” aparece de maneira acabada. Depois de passar por Trump, ONU, Irã, Palestina, IA, soberania, Alemanha e redes sociais, Dutra chega aos objetivos imediatos da campanha: aumentar a rejeição a Flávio Bolsonaro, garantir presença no segundo turno nos maiores colégios eleitorais, eleger a bancada do PSOL, superar a cláusula de barreira e mobilizar ativistas. São objetivos declarados no próprio artigo e também na resolução política recente do MES.
Toda a discussão internacional termina subordinada às necessidades eleitorais do PSOL. Guerras, imperialismo, crise do Judiciário, censura, recursos naturais e dependência econômica são colocados no mesmo balaio e organizados de modo a dar sentido à tese eleitoral do texto de que o mundo estaria dividido entre democracia de um lado, extrema direita do outro.
No entanto, lutar pela democracia burguesa não é lutar contra o fascismo. Não existe uma contradição fundamental entre a extrema direita e a democracia burguesa. E isso a história ja demonstrou.


