O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) a deputado federal por São Paulo, Paulo Lago, apresentou em entrevista à 94 FM, de Bauru, algumas das principais propostas de sua campanha. O militante, que atua no movimento operário desde os anos 1980, defendeu salário mínimo de R$ 8 mil, jornada semanal de 35 horas, revogação integral da reforma trabalhista e manutenção das grandes empresas nacionais sob controle estatal.
Logo no início, os entrevistadores perguntaram sobre a situação do registro de sua candidatura. Lago explicou que o problema teve origem em uma prestação de contas partidária de 2016 e relacionou o processo às sucessivas disputas entre o PCO e o Judiciário. Segundo ele, o Partido recorreu da decisão e continua participando das eleições.
“Eu sou militante do PCO, o nosso candidato nacional é o companheiro Rui Costa Pimenta, e durante muito tempo nós temos feito muitas críticas à atuação do Judiciário aqui no Brasil, em especial ao ministro Alexandre de Moraes. A gente entende que eles instalaram uma verdadeira ditadura do Judiciário aqui no País e o Judiciário tem respondido com perseguição direta ao nosso Partido. […] Nós recorremos no TSE e o TSE deliberou que nós podemos concorrer, sim. Agora, para ser bem sincero, risco sempre tem, porque é uma perseguição política. A gente vê outros candidatos perseguidos, colocados para fora da eleição.”
Ao ser questionado sobre o objetivo de sua candidatura, Lago rejeitou a ideia de que a participação eleitoral do PCO serviria apenas para divulgar suas posições políticas. Disse que concorre para conquistar uma cadeira na Câmara, mas destacou a enorme desigualdade existente entre os grandes partidos e as organizações que recebem uma parcela muito menor dos recursos e do tempo de propaganda.
“Nós nos candidatamos com o objetivo de ganhar. Só que, pelo sistema eleitoral brasileiro, que destina aí centenas de milhões de reais para o PT, para o PL, dá tempo na televisão, tempo no rádio, toda essa conjuntura faz nossa campanha ficar muito desproporcional em relação a esses grandes partidos. A gente entra para tentar ganhar, porque seria muito importante ter um deputado do estilo dos candidatos do PCO. […] Só que a gente tem clareza de que é muito difícil nesse quadro atual.”
Para Lago, o sistema eleitoral favorece os grandes partidos e reduz drasticamente as possibilidades de organizações menores apresentarem seus candidatos ao conjunto da população. Ele defendeu uma reforma política que alterasse essas condições.
A primeira proposta econômica apresentada pelo candidato foi o aumento do salário mínimo para R$ 8 mil, uma proposta do conjunto do Partido. Lago argumentou que o valor deve ser calculado a partir das necessidades reais de uma família trabalhadora, lembrando que a Constituição estabelece que o salário mínimo deve permitir despesas como moradia, alimentação, saúde, educação e lazer.
“A principal luta é, em primeiro lugar, a questão dos salários. A luta pelo salário mínimo de R$ 8 mil, que muita gente fala: ‘isso é absurdo, o Brasil não tem condições’. O Brasil tem condições, o Brasil já tem um certo desenvolvimento industrial que teria a capacidade de pagar isso daí. Inclusive, na Constituição Federal, está colocado que o salário mínimo deve atender às necessidades básicas de uma família trabalhadora, tais como alimentação, saúde, aluguel, lazer e educação. Para uma família, vamos colocar um casal e dois filhos, por exemplo, com menos de R$ 8 mil hoje em dia é muito difícil sustentar a casa.”
Lago relacionou os baixos salários ao endividamento das famílias brasileiras e acrescentou que a campanha do PCO também pretende tratar dos juros e do peso da dívida pública sobre o orçamento federal. Na entrevista, criticou a parcela dos recursos públicos destinada ao sistema financeiro, em contraste com os gastos com saúde e educação.
A trajetória política do candidato também entrou na entrevista. Lago militou no PT e foi expulso do partido no final da década de 1980, junto com toda a corrente Causa Operária, depois dos conflitos com a direção petista. Naquele momento a Causa Operária já denunciava uma transformação do PT em instrumento para carreiras parlamentares e acordos com setores da burguesia.
“Eu fui fundador do PT também, mas já no final da década de 1980 nós fomos expulsos do PT. Por que nós fomos expulsos? Porque já naquela época a gente denunciava essa bandalheira que uma parte do PT estava querendo fazer com o partido: usar os trabalhadores para se eleger, fazer carreira política, se enriquecer e largar os trabalhadores para trás. Infelizmente, o PT se deteriorou e mostrou que a nossa posição de quase 40 anos atrás estava correta. A gente continuou a defender o mesmo programa.”
Ao explicar por que disputa neste ano uma cadeira de deputado federal, Lago disse que a escolha não resultou de uma decisão individual. As candidaturas foram definidas coletivamente pelo Partido, levando em consideração as tarefas da campanha e a trajetória de seus militantes.
“Na realidade, não é uma escolha minha. Nós atuamos dentro do PCO de acordo com as condições que existem e a gente define os candidatos. Nesse momento foi feita uma plenária, uma convenção dentro do PCO, e discutimos quais candidatos seriam ideais. […] Para deputado federal, quem poderia desempenhar bem a candidatura? Aí escolhemos dez federais, dez estaduais e o meu nome foi considerado como candidato a deputado federal.”
Outro tema tratado foi a privatização das empresas públicas. Lago se declarou contrário à venda de companhias que considera fundamentais para a economia nacional e citou a Vale do Rio Doce, a Petrobrás e os Correios. Para ele, os serviços essenciais devem permanecer sob controle estatal.
“Principalmente as grandes empresas nacionais, que cumprem papel fundamental na economia, como, por exemplo, privatizar a Vale do Rio Doce, parte da Petrobrás, tentar privatizar a Petrobrás inteira, os Correios, principalmente essas, de jeito nenhum. […] Nós somos contra as privatizações por princípio. Eu acho que os serviços essenciais têm que estar na mão do Estado; é a melhor forma de gestão em favor da população.”
A crítica foi estendida às parcerias público-privadas. Lago classificou as PPPs como outra modalidade de privatização, na qual estruturas construídas com recursos públicos são entregues para exploração empresarial.
“Eu acho que teria que acabar esse negócio de parcerias público-privadas. É um tipo de privatização. Entrega uma coisa que é do Estado, que é da Nação, que foi construída com dinheiro do povo, para capitalistas faturarem em cima. […] A Petrobrás foi construída com dinheiro de quem? Dinheiro do povo, dos trabalhadores. Para que entregar isso na mão de meia dúzia para faturar em cima?”
Na parte dedicada às relações de trabalho, Lago defendeu a revogação integral da reforma trabalhista de 2017. Segundo ele, as alterações facilitaram a expansão de formas de trabalho sem as garantias vinculadas ao emprego formal, problema particularmente visível entre trabalhadores de aplicativos.
“A reforma trabalhista deveria ser totalmente revogada. Agora nós temos aí dezenas de milhões de trabalhadores sem registro em carteira, trabalhando por aplicativo, motoboy. São trabalhadores de fato, mas não têm direitos sociais. Se o cara cai com a moto dele e se machuca, ele não tem como se cuidar, não vai ter aposentadoria, não tem nada. Então essa reforma piorou muito as condições de trabalho, e isso é um dos fatores que ajudam a empobrecer o País.”
Sobre a redução da jornada, Lago diferenciou o programa defendido pelo PCO da discussão parlamentar sobre a escala 6×1. Ele apresentou a jornada de sete horas por dia durante cinco dias por semana, totalizando 35 horas, como uma reivindicação histórica do movimento operário.
“A reivindicação tradicional dos trabalhadores, do movimento operário, já vem desde os anos 1950 e 1960: que haja uma jornada de trabalho de sete horas diárias, no máximo cinco dias por semana. Então daria 35 horas semanais. Essa é a reivindicação tradicional do movimento que nós defendemos. […] Nós defendemos que a CUT e as organizações sindicais mobilizem os trabalhadores por uma conquista da redução mesmo.”
Nos segundos finais da entrevista, Lago voltou a apresentar a campanha do PCO e relacionou sua candidatura à defesa das reivindicações dos trabalhadores. O candidato pediu atenção dos eleitores às propostas apresentadas pelo Partido e encerrou defendendo que a organização política independente dos trabalhadores não seja substituída por promessas eleitorais dos grandes partidos.




