Na reta final da campanha eleitoral, o presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, avaliou que a disputa presidencial está expondo não apenas o desgaste do PT, mas uma crise mais ampla do regime político brasileiro. No programa Análise da 3ª, da Rádio Causa Operária, ele fez um balanço da campanha do Partido, comentou a política contra as chamadas fake news, a proibição das apostas eletrônicas e a censura nas redes sociais.
Rui classificou a campanha do PCO como a melhor já realizada pelo Partido. Apesar das dificuldades para a liberação dos recursos do fundo eleitoral, afirmou que a candidatura conseguiu atingir um público mais amplo, colocar questões políticas em discussão e, principalmente, diferenciar o PCO das demais organizações da esquerda.
“A campanha presidencial e a campanha do PCO, em geral, foi uma campanha exitosa. Eu acho que todos os companheiros que estão participando da campanha têm a mesma impressão. Nós conseguimos causar um impacto num círculo de pessoas mais amplo do que o Partido. Conseguimos discutir ideias, conseguimos introduzir de maneira proveitosa uma série de polêmicas que despertam a atenção do pessoal. Na minha avaliação, essa é a melhor campanha eleitoral que nós fizemos.”
Para o dirigente, essa diferenciação ficou mais clara diante da política da esquerda ligada à frente ampla. Na avaliação apresentada no programa, esse setor entrou na eleição acreditando que Lula teria uma disputa relativamente fácil, subestimou Flávio Bolsonaro e não levou em conta o desgaste acumulado do próprio PT.
Rui afirmou que parte considerável do eleitorado petista vota em Lula mais para impedir uma vitória bolsonarista do que por enxergar no PT uma perspectiva política capaz de resolver os problemas do País. A dificuldade, segundo ele, não terminaria com o resultado das urnas.
“As crises políticas tiveram um impacto muito grande sobre o PT, a crise do STF. E esse impacto vai além da eleição, não vai ficar só na eleição. Nós estamos diante de um regime político que está naufragando. E vai se abrir uma crise, vai se abrir uma crise muito grande, vai se abrir um debate político também muito grande sobre o futuro do regime. Então, eu acho que nós temos aí uma situação muito particular, muito importante, de transição, de virada, e a eleição, conforme nós falamos desde o começo, não vai ser a solução dos problemas que estão colocados para o Brasil.”
A reta final da campanha petista recebeu críticas duras de Rui. Ele mencionou o aumento do Bolsa Família e medidas envolvendo as dívidas da população anunciadas às vésperas da votação e afirmou que o momento escolhido para essas iniciativas dava a elas um caráter diretamente eleitoral.
“As medidas do PT são, nitidamente, uma tentativa de compra de votos. Até estranhei que nenhum candidato da direita classificou o que foi feito como compra de votos, porque é nítido. Você tomar medidas como, por exemplo, anunciar um programa de compra das dívidas da população uns sete dias antes da eleição é compra de voto. Anunciar o aumento do Bolsa Família dez dias antes da eleição é compra de votos.”
Na análise de Rui, esse tipo de medida demonstra o temor da campanha petista diante da possibilidade de derrota. O problema, porém, não estaria simplesmente na preocupação com o resultado, mas na escolha dos métodos utilizados para tentar reverter a situação.
Um dos exemplos citados foi a divulgação da história de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de padroeira do Brasil. Rui classificou a informação como falsa e criticou também a utilização da religião como instrumento de campanha.
A contradição, segundo ele, estaria no fato de que o PT passou os últimos anos denunciando seus adversários por disseminação de fake news e apoiando medidas judiciais contra pessoas acusadas de divulgar informações falsas.
“Na eleição anterior, o Lula falou inúmeras vezes que o Bolsonaro era mentiroso, mente o tempo todo, que só mente, que tinha que acabar com mentira e que tinha que prender as pessoas que mentem. […] E agora o PT está lançando mão daquilo que ele condenou nas últimas duas eleições de um modo geral. Mas não é só isso. As chamadas fake news deram lugar no País a uma onda repressiva do STF.”
Rui recordou que o próprio PCO foi incluído no chamado inquérito das fake news depois de defender publicamente a dissolução do Supremo Tribunal Federal. As redes sociais do Partido permaneceram bloqueadas durante meses.
“Nós, por exemplo, fomos incluídos no processo das fake news e não contamos nenhuma mentira. Nós simplesmente expusemos a nossa posição política. Aí não tem mentira. É o que a gente pensa. Nós falamos que o STF deveria ser dissolvido e, por essa declaração, as nossas redes sociais foram cassadas durante quase um ano. Nós fomos parar no processo, estamos no processo até hoje, uma arbitrariedade, uma verdadeira ditadura do Judiciário.”
A crítica ao PT não levou Rui a defender que a Justiça proibisse a circulação da informação contra Flávio Bolsonaro. Ele se colocou também contra o pedido da campanha bolsonarista para retirar o conteúdo do ar. Para o presidente do PCO, uma mentira eleitoral deve ser combatida politicamente, com denúncia e esclarecimento, sem transformar juízes em árbitros do que pode ser dito durante uma eleição.
Nesse ponto, Rui criticou tanto o PT quanto o bolsonarismo. O primeiro, segundo ele, apoiou medidas de censura quando eram dirigidas contra seus adversários e agora protesta ao ser atingido pelo mesmo mecanismo. O segundo denuncia a censura, mas procura o Judiciário quando quer retirar publicações de seus adversários.
A proibição das apostas eletrônicas também foi discutida longamente. Rui rejeitou a identificação entre defender o direito de apostar e defender os interesses das empresas que exploram o setor. Uma coisa, afirmou, é regulamentar, tributar ou mesmo estatizar a atividade; outra é proibir o cidadão de apostar.
“Nós deixamos absolutamente claro o nosso ponto de vista. Nós somos contra proibir o cidadão de apostar. Nós não dissemos que você tem que ter uma empresa de aposta assim ou assado. Você não tem aí, por exemplo, a Loteria Federal da Caixa Econômica? Isso é aposta. É estatal. O dinheiro vai para fora do País? No Brasil já teve, acho que não tem mais, a loteria esportiva. Na loteria esportiva era parecido com esse negócio das bets.”
Rui lembrou que o jogo do bicho, cassinos clandestinos e outras modalidades de apostas continuam existindo apesar das proibições. Para ele, a medida não elimina a procura pelo jogo e pode apenas empurrar os apostadores para operações clandestinas ou empresas instaladas fora do País.
Também contestou o argumento de que a existência de pessoas viciadas justificaria impedir toda a população de apostar.
“Tem gente que se vicia? Tem, sempre teve. É a história do mundo isso. Tem viciado em um monte de coisa. Tem gente que é viciada em sexo. Agora, não dá para você culpar a atividade pelo vício dos outros, não tem sentido. Está cheio de gente alcoólatra. Mas eu, por exemplo, bebo muito pouco, nunca nem cheguei perto de ser alcoólatra. A pessoa vai me proibir de beber?”
A discussão levou a uma pergunta sobre as drogas. Rui afirmou que o PCO não considera o consumo algo positivo, mas defende sua legalização por entender que a proibição não impede que as pessoas consumam drogas e amplia o poder repressivo do Estado.
“É uma coisa, na nossa opinião, absolutamente nociva. […] Além disso, tem o problema de que é uma fuga da realidade. Nós não pregamos a fuga da realidade. Agora, nós entendemos que, embora isso seja uma coisa ruim, proibir não melhora nada. Uma coisa que eu acho que o debate é mal compreendido é que o pessoal acha que, se você proibir alguma coisa, pronto, está resolvido o problema. Não é verdade isso. Essa é uma solução falsa.”
Para Rui, existe aí uma contradição recorrente em setores da esquerda: reconhecem formalmente o caráter capitalista do Estado, mas diante de problemas sociais defendem ampliar seus poderes policiais e judiciais.
O dirigente também diferenciou regulamentação das grandes empresas de tecnologia de censura aos usuários. Como exemplos de regulamentação, citou limites às taxas cobradas pelas plataformas, medidas contra monopólios, proteção dos dados dos usuários e restrições à transferência de recursos para o exterior.
“Quando a gente fala de regular as plataformas, é muito diferente de regular os usuários. […] Tem países que exigem regras de combate a monopólios, por exemplo, obrigar que o WhatsApp seja interoperável com outros aplicativos de mensagem para impedir que o WhatsApp tenha um monopólio total sobre a comunicação. […] Nenhuma dessas coisas aqui está sendo discutida no Brasil. As redes sociais não estão sendo reguladas. O que está acontecendo é que a regulamentação obriga a rede social a extrapolar os limites da lei e censurar os usuários.”
Segundo Rui, o problema brasileiro não estaria em impor regras às grandes empresas estrangeiras, mas em obrigá-las a retirar publicações e bloquear contas, transformando a chamada regulamentação em instrumento de censura política.
O programa tratou ainda de uma denúncia apresentada por Jairo Palheta, candidato do PCO ao governo do Amapá. Palheta afirmou que sua candidata a vice teria sido intimidada, ameaçada e alvo de tentativa de suborno depois de um debate no qual fez acusações contra o governador Clécio Luís e suas relações políticas.
Rui destacou que Palheta é trabalhador sem terra e afirmou que episódios desse tipo ajudam a explicar por que o PCO encontra dificuldades para participar dos debates eleitorais. Quando seus candidatos conseguem espaço, disse, apresentam denúncias contra políticos e grupos que normalmente não são questionados pelos grandes partidos.
A situação política europeia também apareceu no programa. Ao comentar as dificuldades de formação de governo na Suécia, Rui avaliou que a polarização política vem enfraquecendo a estabilidade dos partidos tradicionais e tende a produzir choques cada vez maiores dentro dos regimes europeus.
No fim do programa, uma pergunta procurou antecipar qual seria a posição do PCO em um eventual segundo turno. Rui recusou-se a especular sobre a decisão.
“Eu não quero falar do segundo turno, porque nós vamos definir a política do PCO numa conferência. Então, não vou me antecipar em nada. Eu não tenho nem o direito de dizer o que o Partido vai definir no segundo turno.”




