Falta apenas uma semana para o primeiro turno das eleições presidenciais e Lula chega ao momento decisivo da campanha cercado por dificuldades. O presidente tenta recuperar terreno com uma sequência de medidas de grande impacto, enfrenta uma disputa apertada com Flávio Bolsonaro, convive com a deterioração das instituições que sustentaram sua chamada frente ampla e, ao mesmo tempo, procura tranquilizar banqueiros e empresários sobre a política econômica de um eventual novo mandato.
As pesquisas nacionais mais recentes não apontam uma situação confortável. Uma compilação de dez levantamentos realizados entre 9 e 23 de setembro mostra Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula em cinco cenários de segundo turno, Lula à frente em quatro e empate num deles. As diferenças variam bastante entre os institutos, mas o quadro geral é de disputa acirrada.
Foi só nesse cenário que o governo resolveu agir. Em poucos dias, anunciou reajuste do Bolsa Família, lançou uma terceira etapa do Desenrola e proibiu as apostas eletrônicas. As medidas, segundo cálculos divulgados neste fim de semana, terão impacto de dezenas de bilhões de reais sobre o Orçamento de 2027.
O reajuste do Bolsa Família pode ser necessário. Renegociar dívidas de trabalhadores também. O que chama atenção é que decisões dessa dimensão aparecem concentradas justamente na reta final de uma eleição extremamente apertada.
A sequência de anúncios é expressão da fraqueza do governo, e não de sua força. Se o governo considerava essas políticas essenciais, teria tido quatro anos para realizá-las.
“Se você chega na eleição e uma semana antes você tem que distribuir dinheiro para ganhar a eleição, é um fracasso”, afirmou.
A proibição das bets é talvez o exemplo mais explícito da mudança de rumo. O próprio governo Lula havia regulamentado o mercado. Agora, a poucos dias da votação, decidiu bani-lo. A medida foi anunciada no dia 25 de setembro e passou imediatamente a ser interpretada também pelo seu possível impacto eleitoral.
Para o PCO, há ainda um problema de princípio. O Estado não deveria tratar a população como incapaz de decidir o que fazer com o próprio dinheiro. O vício em jogos existe e pode provocar tragédias, mas a proibição não elimina necessariamente a atividade — pode apenas empurrá-la para a clandestinidade.
A situação eleitoral, porém, é apenas uma parte do problema. A frente institucional que sustentou politicamente Lula durante seu terceiro mandato atravessa uma crise profunda. O escândalo do Banco Master atingiu o Supremo, a Procuradoria-Geral da República, a Polícia Federal e figuras importantes do Congresso.
Na sexta-feira (25), o Conselho Superior do Ministério Público Federal decidiu, por apenas cinco votos a quatro, não abrir investigação contra o procurador-geral Paulo Gonet por sua atuação no caso Master. Por unanimidade, o colegiado também rejeitou seu afastamento da investigação. Gonet foi citado em mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro e apareceu em fotografia com o banqueiro durante uma viagem a Londres, mas nega qualquer irregularidade ou relação de amizade íntima.
A crise é particularmente incômoda para o PT porque, durante quatro anos, boa parte da esquerda apresentou STF, TSE, Ministério Público e Polícia Federal como pilares da defesa da democracia contra o bolsonarismo. Agora, essas mesmas instituições aparecem envolvidas em denúncias, suspeitas e disputas internas.
A política externa tampouco fornece a saída apresentada pela propaganda governista.
Lula denunciou novamente o genocídio contra os palestinos na ONU, o que representa uma posição melhor que o apoio aberto dado por governos aliados de “Israel”. Mas o discurso não se traduz em enfrentamento efetivo à política sionista dentro do Brasil, enquanto militantes e dirigentes de esquerda respondem judicialmente por manifestações em defesa da Palestina.
No plano econômico, outra contradição se apresenta. Ao mesmo tempo em que anuncia medidas populares perto das urnas, Lula precisa demonstrar ao grande capital que não pretende romper com a política fiscal.
É justamente aí que está o problema para um eventual novo governo. As medidas adotadas na reta final não alteram a estrutura econômica construída nos últimos quatro anos. O arcabouço fiscal continua de pé, os juros permanecem elevados e a dívida pública continua determinando parte fundamental da política econômica. Ao mesmo tempo, qualquer governo eleito enfrentará forte pressão para ampliar o ajuste das contas públicas.
Lula chegaria a um novo mandato ainda mais fragilizado que em 2023. Teria de enfrentar um Congresso provavelmente ainda mais hostil, a pressão do capital financeiro, o crescimento da direita e uma crise das instituições que anteriormente funcionavam como sua principal retaguarda.
A campanha do “Lula ou apocalipse” procura esconder justamente esse quadro. A disputa eleitoral pode decidir quem ocupará o Palácio do Planalto, mas não elimina os problemas que produziram a situação atual: salários baixos, crise econômica, endividamento, domínio do capital financeiro, enfraquecimento dos sindicatos, autoritarismo crescente das instituições e desmoralização dos principais partidos.





