No Datafolha de 17 de setembro, Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro, com 36%. Uma semana antes, os números eram 39% e 35%. A distância, que chegara a dez pontos em maio, caiu para três. No segundo turno, o instituto aponta empate técnico, com 46% para Lula e 44% para Flávio. A Quaest divulgada em 14 de setembro também registrou empate técnico, embora com Flávio numericamente à frente: 42% a 40%. É uma situação muito diferente da vantagem com que Lula iniciou a disputa.
Não é preciso atribuir aos institutos o poder de fabricar votos (embora eles tenham esse poder) para perceber o uso político de seus resultados. A sequência de levantamentos apertados diz ao PT que sua candidatura pode ser derrotada. Ao mesmo tempo, o Partido da Imprensa Golpista (PIG) não pode deixar de destacar o escândalo Moraes-Vorcaro que levou o STF à sua maior crise histórica, bem como promove uma forte campanha sobre negócios de Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
O STF não se tornou um problema eleitoral para Lula por acaso. O presidente e o PT se identificaram durante anos com Alexandre de Moraes e defenderam as arbitrariedades do tribunal como se fossem a última palavra em democracia. Agora que Moraes está no centro da crise envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, querem se afastar do desgaste. Um levantamento Datafolha indica que 38% dos eleitores veem Lula como prejudicado pela crise no Supremo, contra 31% que apontam Flávio; 47% dizem que ela terá alguma influência em seu voto. A associação política feita pelo próprio PT cobra seu preço.
Nesta semana, as manchetes trouxeram novas acusações ligadas a Roberta Luchsinger. Na segunda-feira (21), o Estadão publicou mensagens nas quais ela dizia ter estado no gabinete de Lula e viajado em avião da FAB. A Presidência negou que a lobista tenha viajado com Lula ou se reunido com ele. Nesta quarta-feira (23), a Folha de S. Paulo noticiou mensagens que, segundo a Polícia Filial, apontam pagamentos ordenados por ela a funcionários do Ministério do Desenvolvimento Social. Meses depois, a pasta contratou uma empresa de tecnologia representada pela lobista.
O Estadão havia informado em agosto que essa empresa firmou mais de R$81 milhões em contratos e aditivos com órgãos federais, incluindo um contrato anterior à posse de Lula. Roberta e Lulinha são investigados sob suspeita de tráfico de influência. A defesa do filho do presidente nega que ele tenha relação com os pagamentos, e a empresa afirma que os contratos foram obtidos legalmente. As acusações ainda precisam ser provadas.
Os primeiros relatos saíram em agosto. A nova rodada, com notícias nos dias 21 e 23, chega quando a distância entre Lula e Flávio diminui e Moraes se tornou um problema para o PT. Por que essa sucessão de vazamentos agora? O momento em que documentos de uma investigação sigilosa chegam aos jornais é parte da disputa eleitoral. Não é necessário que uma denúncia seja falsa para que sua divulgação seja usada contra uma candidatura.
A burguesia nunca teve a reeleição de Lula como primeira escolha. Tampouco parece ter em Flávio seu candidato preferido. As duas candidaturas, porém, concentram quase todos os votos e deixam pouco espaço para a terceira via. As denúncias dirigidas a Flávio não o tiraram da disputa pelo segundo turno. Agora, o peso de Moraes e a cobertura sobre Lulinha caem sobre Lula. A tentativa de desgastar os dois candidatos principais é uma forma de abrir caminho para outro nome.
A operação ainda não produziu um terceiro candidato competitivo. Augusto Cury marcou 6% nas rodadas Datafolha de 8 a 10 e de 15 a 17 de setembro; em 3 de setembro, tinha 8%. Não cresceu nas pesquisas das últimas duas semanas. Sua utilidade para esse setor aparece em outra pergunta: numa disputa direta com Lula, Cury registra empate de 44% a 44% no levantamento de 17 de setembro. Isso não significa que tenha condições de chegar ao segundo turno.
Se a disputa final for entre Lula e Flávio, o eleitorado da terceira via deve favorecer o bolsonarista. Entre os que declaram voto em Zema, Renan Santos, Caiado ou Cury no primeiro turno, 43% dizem que votariam em Flávio no segundo e 30%, em Lula, segundo o Datafolha. Isso não significa que Flávio já venceria: no conjunto dos eleitores, a mesma pesquisa ainda registra 46% para Lula e 44% para ele, dentro da margem de erro. Indica, porém, que uma parcela importante dos votos da chamada terceira via iria naturalmente para a direita bolsonarista e não para o PT.
Se não conseguir emplacar a terceira via, a burguesia pode aceitar até Flávio no governo. Se Lula vencer, terá recebido um aviso sobre as cartas que poderão ser lançadas contra ele caso tente governar com um mínimo de independência. O PT facilitou o cerco ao se associar à ditadura judicial de Moraes e do STF e ao governar para os banqueiros. E há um limite para atribuir tudo às manobras eleitorais: muitos trabalhadores já não veem em Lula uma candidatura disposta a enfrentar os capitalistas.





