Lula acaba de indicar que seu compromisso não é com o povo trabalhador, é com os banqueiros. Faltando cerca de uma semana para o primeiro turno, o candidato do PT jantou ontem com cerca de 500 empresários e banqueiros no hotel Tivoli Mofarrej, em São Paulo. O objetivo é deixar os capitalistas tranquilos: se reeleito, governará para a burguesia.
O discurso foi uma peça sob medida para a plateia: defesa enfática do “equilíbrio fiscal”, promessa de “responsabilidade fiscal”, “segurança jurídica” e “previsibilidade para os negócios” em um quarto mandato. Responsabilidade fiscal é o nome que a burguesia dá ao neoliberalismo: diminuição de gastos públicos, redução dos gastos do Estado com o povo, corte de despesas, enxugamento do Estado, redução dos programas sociais e dos serviços públicos.
O compromisso não é retórico. Está escrito no orçamento. Na previsão orçamentária para 2027, o governo autorizou corte de até R$16,6 bilhões na saúde e na educação. É esse o ajuste que os banqueiros exigem — retirar dinheiro do povo para entregar aos bancos. Não por acaso, o semanário inglês The Economist, no artigo “Brasil vira as costas para o futuro”, publicado nessa sexta pelo O Estado de S. Paulo, defende que qualquer governo eleito precisa fazer cortes profundos nos gastos públicos para manter a dívida e os juros sob controle.
De um lado, acenos eleitoreiros: a liberação do Mounjaro, o fim da taxa das blusinhas e o aumento no Bolsa Família. De outro, as garantias aos capitalistas de que o verdadeiro programa do governo é o ajuste fiscal.
E as medidas “populistas” são, na verdade, inócuas. O Bolsa Família recebeu aumento irrisório depois de três anos congelado pelo próprio governo — e o reajuste sai do BPC e das aposentadorias. Quanto à taxa das blusinhas, o tributo foi criado pelo próprio Lula, que agora se apresenta como seu algoz. Não é grande serviço à população: é maquiagem de fim de campanha.
O encontro com os capitalistas, ao contrário, fecha um acordo de verdade. Há menos de um mês, no dia 31 de agosto, Lula já havia jantado com 16 empresários e banqueiros no Palácio da Alvorada, sem dizer nada de concreto sobre a economia. Desta vez, os organizadores esperavam 320 convidados e confirmaram cerca de 500. A procura obrigou a trocar o hotel — o jantar saiu do Hilton para o Tivoli Mofarrej — e o GSI, o órgão de segurança da Presidência, chegou a fechar as inscrições. Lula precisa dar a direção que a burguesia exige de um próximo governo.
E mesmo assim a burguesia deixa claro que não apoia o PT. A presença dos 500 não é aval à candidatura de Lula: os empresários foram ao jantar para cobrar um programa econômico claro, tema ausente da campanha. O colunista Lauro Jardim, do O Globo, revelou que a maioria esmagadora dos presentes no jantar não votará no presidente. Os capitalistas nunca confiaram em Lula.
A pressa do PT se explica pela crise em sua campanha. Lula e o partido estão percebem o cerco representado pelos ataques da imprensa golpista, o comprometimento do governo com o ministro-bandido Alexandre de Moraes e o crescimento de Flávio Bolsonaro, que já aparece na frente em algumas pesquisas. A saída encontrada é velha conhecida: distribuir migalhas ao povo em busca de votos e jantar com os donos do dinheiro para receber o apoio deles à sua reeleição, prometendo em troca seguir à risca os seus desígnios.
É a fórmula do PT nos últimos 25 anos: discurso para os trabalhadores, governo para os banqueiros. Resta saber se os banqueiros confiam mesmo em Lula. Até agora, tudo indica que não.





