Polêmica

O pacifismo abstrato favorece sempre o opressor

Tratando a violência como problema moral abstrato, Boff dilui a diferença entre opressão e resistência e termina substituindo a ação humana por uma espécie de providência histórica

Guernica

No artigo A violência terá fim?, publicado em A Terra é Redonda nesta quarta-feira (23), Leonardo Boff parte de uma questão real para chegar a uma resposta essencialmente moral. Condena guerras, repressão, desigualdade, escravidão, violência colonial e a situação dos palestinos. Porém, em vez de determinar quem exerce a violência, contra quem e para defender quais interesses, transforma “a violência” numa categoria quase universal, que começaria no próprio nascimento do Universo e atravessaria toda a existência.

O artigo vai do Big Bang ao choque entre matéria e antimatéria, das estrelas à psicologia humana, daí à escravidão, às facções criminosas, à polícia, às guerras e às revoltas populares. Tudo passa a ser manifestação de uma mesma realidade chamada “violência”.

Uma colisão entre corpos celestes, porém, não é violência no mesmo sentido em que são a escravidão, uma ocupação militar ou a repressão de uma greve. Na natureza não existem classes sociais, Estados, proprietários, escravos ou povos ocupados. Na sociedade é necessário perguntar quais forças estão em luta e quais relações cada uma procura preservar ou destruir.

O moralismo aqui está condenado a fracassar. A humanidade não pode simplesmente prescindir da violência porque há situações nas quais ela não se apresenta como uma escolha. Um povo ocupado não recebe diante de si duas alternativas — paz ou violência — para escolher livremente. A violência já lhe foi imposta.

O caso palestino, citado pelo próprio Boff, deixa isso evidente. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha considera Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Gaza territórios palestinos ocupados; em setembro de 2026, a entidade também registrava a continuidade da violência em Gaza e, na Cisjordânia, expansão dos assentamentos, violência de colonos e restrições à circulação.

Dizer simplesmente ao povo palestino que renuncie à violência não acaba, portanto, com a violência existente. A potência ocupante continua dispondo de tropas, armamento, prisões e demais instrumentos da força estatal. Uma renúncia unilateral pode significar apenas entregar ao opressor o monopólio da força.

Leonardo Boff percebe parcialmente o problema. Em determinado momento, escreve que existe uma violência que seria, na verdade, uma “anti-violência”, produzida pela revolta contra uma sociedade na qual uma minoria vive na opulência enquanto milhões permanecem na miséria.

Se existe uma “anti-violência”, ele já admitiu que não é possível colocar todas as formas de força na mesma categoria. A violência de quem escraviza e a resistência do escravizado não possuem o mesmo conteúdo. A ocupação e a resistência contra ela não cumprem a mesma função. Uma procura conservar uma relação de dominação; a outra pode procurar destruí-la.

Boff, porém, recua diante dessa conclusão. Quando aparece a possibilidade de uma “rebelião das massas”, passa imediatamente a advertir que ela poderia conduzir à “barbárie”. A revolta deixa de ser examinada como fenômeno político e reaparece principalmente como perigo.

É contra esse modo de colocar o problema que Friedrich Engels polemizou no Anti-Dühring. Engels criticava Eugen Dühring por apresentar a força como “maldade absoluta” e transformar a história numa espécie de sermão contra a violência. Em oposição, afirmava que a força também desempenhara historicamente um papel revolucionário e retomava a expressão de Marx segundo a qual ela poderia ser a “parteira” de uma sociedade nova.

Não existe uma essência moral da violência que permita julgá-la independentemente das relações sociais nas quais aparece. Uma força pode esmagar uma revolução; outra pode derrubar um regime de exploração. Colocá-las no mesmo plano apenas porque ambas utilizam força elimina aquilo que precisa ser explicado.

Lênin desenvolveu o mesmo problema ao analisar o Estado. Em O Estado e a Revolução, retomou de Engels a definição do poder estatal como uma estrutura dotada de “destacamentos especiais de homens armados”, prisões e outros instrumentos de coerção. Para essa concepção, a violência não começa quando os explorados se revoltam. A coerção já está organizada no próprio Estado que mantém as relações existentes.

Esse ponto expõe outra limitação do artigo. Boff imagina que, se as classes privilegiadas e os Estados gastassem menos com polícia, segurança privada, armas e guerras e transferissem esses recursos para saúde, educação, moradia e emprego, grande parte do problema estaria resolvida.

Mas por que as classes que controlam essa riqueza fariam isso? Por que um Estado organizado sobre determinadas relações sociais abandonaria espontaneamente os mecanismos necessários para preservá-las? A questão política desaparece e dá lugar ao apelo para que os poderosos tenham “um mínimo de sentimento” e sejam “um pouco mais racionais”.

É uma pregação moral, não uma explicação sobre como as relações que produzem a opressão seriam eliminadas.

Isso aparece com ainda mais nitidez no último parágrafo. Boff escreve: “virá o tempo em que a justiça prevalecerá porque o que deve ser tem força e a causa é invencível”.

Por que virá? Não há na história uma lei segundo a qual aquilo que é justo necessariamente vence. Povos podem ser escravizados. Revoluções podem ser esmagadas. Movimentos de massa  podem ser derrotados. Países podem permanecer sob dominação estrangeira durante décadas. Uma causa não adquire força material simplesmente porque possui razão moral.

Nesse ponto, Boff aproxima-se de uma concepção providencial da história. Haveria um devir que conduziria a humanidade à justiça; aquilo que “deve ser” acabaria impondo-se porque possuiria uma força própria.

A concepção de Marx é diferente. Logo no início de O 18 Brumário de Luís Bonaparte, escreve que “os homens fazem a sua própria história”, acrescentando que não a fazem segundo sua livre vontade, mas nas circunstâncias legadas pelo passado.

As duas partes da frase são indispensáveis. Os homens encontram relações econômicas, Estados, exércitos, classes sociais e forças políticas que não foram criadas por sua vontade individual. Mas nenhuma dessas determinações transforma a história numa máquina que marcha automaticamente em direção à justiça.

A diferença para a fórmula de Boff é decisiva. Se “a causa é invencível”, pode-se esperar. Se aquilo que “deve ser” possui por si mesmo força para triunfar, a ação consciente passa para segundo plano. A história acabaria realizando aquilo que a huanidade não realizou.

Mas a escravidão não desaparece porque é moralmente abominável. Uma ocupação não termina simplesmente porque é injusta. Uma classe dominante não entrega o poder porque percebeu a irracionalidade da desigualdade. Entre a possibilidade de uma transformação e sua realização existem organização, consciência, luta e força material.

É nesse sentido que a humanidade não pode prescindir abstratamente da violência, pois muitas vezes já está dada antes que os oprimidos possam escolher qualquer coisa. Nessas situações, exigir que renunciem antecipadamente a toda força não elimina a violência existente: pode apenas desarmar um dos lados.

Engels recusou transformar a violência num “pecado original” da humanidade. Para Marx, não existe uma justiça histórica encarregada de agir pelos homens. São eles que fazem a história, isso nas condições que encontraram e com as forças que forem capazes de organizar.

Se o objetivo de Boff é a paz, seu raciocínio tampouco mostra um caminho para alcançá-la. A paz não pode ser produzida por uma recomendação moral dirigida simultaneamente a opressores e oprimidos. Quando a violência está inscrita numa relação de ocupação, exploração ou dominação, sua superação depende de modificar essa relação. Trata-se, portanto, de um problema político.

A esquerda, nesses sentido, tem que apoiar os povos oprimidos pelo imperialismo, seja na Palestina, no Irã, etc. A violência, se for vista por um prisma meramente moral, fará com que a classe trabalhadora acabe condenando não apenas quem oprime, mas quem também sofre a opressão.

Gostou do artigo? Faça uma doação!

Rolar para cima

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Diferentemente de outros portais , mesmo os progressistas, você não verá anúncios de empresas aqui. Não temos financiamento ou qualquer patrocínio dos grandes capitalistas. Isso porque entre nós e eles existe uma incompatibilidade absoluta — são os nossos inimigos. 

Estamos comprometidos incondicionalmente com a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo pobre e oprimido. Somos um jornal classista, aberto e gratuito, e queremos continuar assim. Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.

Quero saber mais antes de contribuir

 

Apoie um jornal vermelho, revolucionário e independente

Em tempos em que a burguesia tenta apagar as linhas que separam a direita da esquerda, os golpistas dos lutadores contra o golpe; em tempos em que a burguesia tenta substituir o vermelho pelo verde e amarelo nas ruas e infiltrar verdadeiros inimigos do povo dentro do movimento popular, o Diário Causa Operária se coloca na linha de frente do enfrentamento contra tudo isso. 

Se já houve um momento para contribuir com o DCO, este momento é agora. ; Qualquer contribuição, grande ou pequena, faz tremenda diferença. Apoie o DCO com doações a partir de R$ 20,00 . Obrigado.