No artigo América Latina: chave para decifrar o mundo contemporâneo publicado nesta terça-feira (22), no Brasil 247, Emir Sader procura apresentar a América Latina como a principal chave para compreender a política mundial contemporânea. Para ele, a região teria passado pelo “desenvolvimentismo”, pelas ditaduras militares, pelo neoliberalismo e, finalmente, por governos “antineoliberais” ou “pós-neoliberais”, entre os quais situa os de Lula, Hugo Chávez, Néstor e Cristina Kirchner, Evo Morales, Rafael Correa e López Obrador.
O problema começa justamente na categoria que organiza todo o artigo. O que seria um governo pós-neoliberal? Não se demonstra qual estrutura econômica foi destruída, ou que poder perdeu o capital financeiro. Sader afirma que esses governos promoveram “transformações fundamentais”, mas não mostra quais transformações permitiriam falar propriamente em superação do neoliberalismo.
O problema só aumenta porque o próprio Sader já apresentou uma caracterização bastante diferente.
Em 2008, num artigo publicado pela New Left Review, ele separava nitidamente dois grupos. De um lado estavam Venezuela, Bolívia e Equador, que poderiam ser chamados de pós-neoliberais. De outro estavam os governos de Lula, Néstor Kirchner, Tabaré Vázquez e Daniel Ortega. Sobre estes últimos, Sader escreveu diretamente que “mantêm o modelo neoliberal”, embora adotassem políticas sociais mais flexíveis e uma política externa favorável à integração regional.
É uma diferença enorme em relação ao artigo atual. O Lula que em 2008 governava um País no qual, segundo Sader, o neoliberalismo continuava prevalecendo aparece agora como uma das grandes figuras da reação antineoliberal latino-americana, sem que o artigo explique quais transformações estruturais do Brasil justificariam essa mudança.
O atual governo evidencia o problema, pois o piso de R$ 600 do Bolsa Família permaneceu sem reajuste pela inflação desde a recriação do programa em 2023. Somente em setembro de 2026 o governo anunciou sua atualização para R$691 a partir de outubro, correspondente ao INPC acumulado desde março de 2023.
Ao mesmo tempo, a economia brasileira continua submetida a juros extraordinariamente elevados. A Selic chegou a 15% ao ano em 2025 e, mesmo depois dos cortes, ainda estava em 13,75% em setembro de 2026.
Sader já utilizou justamente esse problema para estabelecer a diferença entre “antineoliberalismo” e “pós-neoliberalismo”. Num texto de 2024, publicado pela Fundação Perseu Abramo, reconheceu que permanecia a hegemonia econômica do capital especulativo, sustentada pelas altas taxas de juros, e afirmou que uma ruptura com esse mecanismo seria necessária para chegar ao “pós-neoliberalismo”.
Se esse era o critério, a classificação apresentada agora exige explicação. O capital financeiro não deixou de ocupar essa posição no Brasil? As taxas de juros deixaram de desempenhar o papel denunciado por Sader?
Há ainda outro problema em sua reconstrução histórica. Sader afirma que o neoliberalismo teria “nascido do fim da URSS”. No entanto, o Chile de Pinochet começou a aplicar sistematicamente o programa dos chamados Chicago Boys nos anos 1970. Margaret Thatcher chegou ao governo britânico em 1979 e Ronald Reagan à Presidência dos Estados Unidos em 1981. A União Soviética somente foi dissolvida em 1991.
A dissolução da URSS modificou profundamente a relação de forças internacional e facilitou uma expansão ainda maior das políticas neoliberais nos anos 1990. Mas não pode ser apresentada como origem de um movimento que já estava em marcha havia mais de uma década.
Também é muita simplificação tratar a história latino-americana apenas como uma sucessão de modelos políticos internos. A região esteve submetida a enorme pressão dos Estados Unidos durante todo esse período. Depois da Segunda Guerra Mundial, essa intervenção ganhou instrumentos definidos. Em 1946 foi criado na Zona do Canal do Panamá o centro militar que posteriormente receberia o nome de Escola das Américas. Em 1947 foi firmado o TIAR e, no ano seguinte, criada a OEA.
As ditaduras latino-americanas, as experiências neoliberais e as crises posteriores não podem ser analisadas sem que se considere a pressão do imperialismo.
Há também uma generalização excessiva quando Chávez, Lula, Kirchner, Morales, Correa e López Obrador aparecem como partes de um mesmo fenômeno. Chávez surgiu depois da profunda crise do sistema político venezuelano e do desgaste provocado pelas medidas de Carlos Andrés Pérez; Morales chegou ao governo depois de enormes mobilizações populares na Bolívia. Segundo a classificação do próprio Sader, esses processos haviam avançado muito mais no confronto com o neoliberalismo do que o governo brasileiro.
O texto também utiliza a expressão de Lênin sobre o “elo mais fraco” para caracterizar a América Latina. Em Lênin, porém, a expressão estava relacionada à ruptura revolucionária da cadeia imperialista. No artigo de Sader, passa a designar principalmente governos que chegaram ao poder pelas eleições e que, em vários casos, conservaram elementos fundamentais da estrutura econômica anterior.
Não basta afirmar que Lula, Kirchner ou outros governos realizaram políticas sociais diferentes daquelas aplicadas por governos neoliberais ortodoxos, pois daí não se define um novo regime econômico.
O próprio caso brasileiro mostra o problema. Após da derrubada de Dilma Rousseff, em 2016, Michel Temer realizou um amplo ataque à legislação trabalhista. Arrasou em pouco tempo o que se produziu em mais de uma década de governos petistas. O que coloca em xeque a profundidade das alterações realizadas no período anterior.
Também por isso a acusação de Sader contra a chamada “ultraesquerda” é insuficiente. Ele fala em “dogmatismo sectário”, mas não identifica qual corrente está criticando, não expõe sua interpretação e não demonstra onde estaria o erro. Prefere substituir a polêmica por uma classificação genérica.
Governos latino-americanos implementaram o que conseguiram em políticas neoliberais. Alguns foram obrigado a ampliar programas sociais e, em alguns casos, entraram em confrontos importantes com o imperialismo e setores da burguesia. Isso, porém, não resolve a questão colocada pelo conceito de Sader.
Em 2024, ele afirmava que, enquanto permanecesse a hegemonia do capital especulativo e das taxas de juros elevadas, não se poderia falar plenamente em pós-neoliberalismo. Dois anos depois, apresenta Lula como parte desse ciclo sem explicar de que maneira esse obstáculo teria sido superado.
Antes de transformar a América Latina na chave para “decifrar o mundo contemporâneo”, temos uma pergunta mais imediata: se o poder do capital financeiro continua intacto, os juros nas alturas e o próprio Sader reconhecia que vários desses governos mantinham o modelo neoliberal, onde exatamente começa o “pós” do pós-neoliberalismo?



