O artigo A Anatomia do Caos: como se fabrica a percepção política nas eleições brasileiras, de Reynaldo José Aragon Gonçalves, publicado nesta terça-feira (22) no Brasil 247, diz que os algoritmos selecionam o que aparece nas redes. O próprio autor, ao menos, toma cuidado para não afirmar que algoritmos determinam automaticamente uma eleição.
O problema, no entanto, aparece no sentido geral da explicação. O indivíduo surge principalmente como alvo de uma máquina que seleciona aquilo que ele vê, repete conteúdos, produz medo e interfere na maneira como percebe seus adversários. O texto chega a dizer que repetição, emoção e identidade se reforçam até formar previamente um mapa de confiança e ameaça.
As pessoas, porém, não são folhas em branco sobre as quais uma rede social escreve uma opinião política. Elas chegam às redes com sua experiência pessoal.. Uma mesma mensagem provoca reações diferentes dependendo de quem a vê. Apesar do poder da propaganda, não existe uma relação mecânica.
Há outro aspecto pouco explorado no artigo: a Internet não apenas criou novos meios para manipular informação. Ela também destruiu parte do antigo monopólio material da publicação, o que é muito benéfico.
Durante décadas, alcançar milhões de pessoas dependia de possuir compromisso com o regime, um jornal de grande circulação, uma emissora de rádio ou uma rede de televisão. As redes alteraram essa relação. Um trabalhador com um telefone celular pode registrar um acontecimento e colocá-lo diante de milhões de pessoas sem pedir autorização a um editor.
Nas manifestações de 2013, por exemplo, vídeos feitos por manifestantes e pela imprensa alternativa mostraram cenas de violência policial e chegaram a disputar com os grandes veículos a apresentação dos acontecimentos. Isso causou um problema, pois enquanto a grande imprensa tentava manipular os fatos, os vídeos de pessoas comuns relatavam o que acontecia na realidade. Isso acendeu uma luz vermelha para a burguesia, que tratou de buscar desculpas para censurar a internet.
A mesma estrutura que permite colocar em circulação uma mentira também permite publicar uma verdade que uma grande emissora nunca irá mostrar.
O caso de 2018 merece ainda mais cuidado. Gonçalves não chega a afimar que mensagens de WhatsApp elegeram Jair Bolsonaro. O texto, no entanto, apresenta uma pesquisa sobre 194.710 mensagens de grupos bolsonaristas e procura mostrar como diferentes plataformas formavam um circuito de circulação política.
Mas a ideia de que as redes e as chamadas fake news exerceram papel extraordinário na eleição de Bolsonaro tornou-se muito difundida e essa interpretação passou a ser usada também como argumento para defender maior controle das plataformas, que na prática significa controlar os usuários.
A discussão sobre 2018 fica incompleta, porém, quando se atribui enorme importância à tecnologia sem dar peso equivalente aos acontecimentos políticos que antecederam a eleição. Lula liderava as pesquisas, foi preso e posteriormente impedido de disputar. Sua retirada da eleição foi um acontecimento político decisivo. Tratar WhatsApp, algoritmos e desinformação como explicação privilegiada, deixando esse fato em segundo plano é inverter a importância dos acontecimentos.
O combate às chamadas fake news passou também a servir de fundamento para a ampliação da atuação do Judiciário sobre aquilo que circula na internet e para a censura. O exemplo gritante é o Inquérito 4.781, aberto em março de 2019 pelo então presidente do STF, Dias Toffoli, para supostamente investigar notícias fraudulentas, ameaças e outros ataques contra ministros e seus familiares. Alexandre de Moraes foi designado para conduzi-lo. Como o Supremo faz o que quer, posteriormente declarou constitucional a abertura do procedimento claramente abusivo.
O inquérito atravessou mais de sete anos, ampliou seu objeto e concentrou durante longo período enorme poder nas mãos de um único ministro, que acabou se tornando um verdadeiro monarca absolutista.
Historicamente, a liberdade de expressão sempre foi uma reivindicação fundamental do movimento operário. A imprensa dos trabalhadores sempre enfrentou fechamento de redações, censura, prisões e legislação dirigida contra sua capacidade de divulgar suas ideias. Durante a ditadura militar, jornais alternativos de esquerda estiveram entre os principais alvos da censura.
Depois de 2018, entretanto, difundiu-se em setores da esquerda a ideia de que uma defesa ampla da liberdade de expressão seria sobretudo uma bandeira da direita ou do bolsonarismo. Ao mesmo tempo, remoção de conteúdos, bloqueio de contas e ampliação dos poderes das instituições sobre as redes passaram a ser apresentados como instrumentos de proteção da “democracia”.
A inversão é completa, pois, a liberdade de expressão, que historicamente serviu à esquerda contra a censura do Estado e dos grandes monopólios de comunicação, passou a ser vista com suspeita justamente quando a internet permitiu que setores antes excluídos desses meios alcançassem diretamente um grande público.
O artigo de Gonçalves termina perguntando quem organiza o ambiente dentro do qual milhões de pessoas procuram compreender a realidade. A pergunta precisa ser levada até o fim. É preciso perguntar quem controlava esse ambiente quando poucas redes de televisão e grandes jornais determinavam quase sozinhos aquilo que poderia alcançar milhões de brasileiros; e quem controlará a informação quando o Estado burguês ou seus tribunais reivindicam para si o poder de decidir quais manifestações podem permanecer em circulação.





