Escândalo do Banco Master

Até onde a esquerda pequeno-burguesa vai para defender Moraes?

Jornalista atribui a André Mendonça uma operação eleitoral, especula sobre suas motivações e reduz a “fofoca” fatos que exigem investigação

Em artigo O golpe falhou, mas resta saber o que os ministros vão dizer em casa, publicado no Brasil 247 no domingo (21), a jornalista Denise Assis começa pela conclusão. O título anuncia que “o golpe falhou” e o primeiro parágrafo afirma que as revelações feitas a partir do material apreendido pela Polícia Federal fariam parte de alguma operação planejada. O problema é que o texto não demonstra a existência desse golpe. Não identifica quem o teria organizado, qual seria o plano nem quais fatos comprovariam sua execução. Limita-se a dizer que tudo ocorreu “na proporção do que eles devem ter planejado”. Quem são “eles” e o que planejaram fica sem resposta.

Esse é um problemas, pois aquilo que desencadeou a crise no Supremo Tribunal Federal não foi produzido por André Mendonça. O material veio do celular do banqueiro Daniel Vorcaro e foi analisado pela Polícia Federal. Há mensagens, informações sobre encontros, contratos e referências a integrantes do STF e outras autoridades. Mendonça retirou o sigilo e isso é diferente de apresentar o conteúdo encontrado pela PF como uma fabricação eleitoral do ministro.

Denise Assis afirma que Mendonça “resolveu colocar os nomes dos colegas de Corte a nu” mesmo sem ter “as provas todas em mãos”. Mas uma investigação existe justamente para verificar indícios e produzir provas. E o material que chegou à Corte não é constituído simplesmente de acusações feitas por Mendonça.

No caso de Alexandre de Moraes, a PF encontrou mensagens de Vorcaro, referências a encontros e documentos relacionados ao contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes. Segundo a análise dos metadados, Moraes realizou alterações no contrato de R$ 131 milhões.

Também apareceu uma proposta de R$ 50 milhões, que previa inclusive cotas de aeronaves como parte do pagamento. O escritório afirma que ela nunca foi aceita ou assinada. Mais recentemente, um vídeo mostrou Moraes e sua mulher desembarcando de uma aeronave da Prime Aviation, empresa que foi ligada a Vorcaro. A banca confirmou que utilizou serviços da companhia, alegando tratar-se de táxi aéreo regularmente contratado e afirmando que Vorcaro não participou dos voos.

A jornalista abandona os fatos e passa à especulação pessoal. Depois de lembrar que Mendonça foi chamado por Bolsonaro de “terrivelmente evangélico”, atribui sua atuação ao ressentimento porque Moraes teria demonstrado maior “grau de superioridade em tecnicidade”. Adiante, escreve que até “podemos imaginar o quanto de ressentimento isso provocou em sua alma temente a Deus, mas ávida por ir à forra”.

Que tipo de jornalismo é esse o de apresentar uma suposição psicológica como explicação dos acontecimentos. Denise Assis não apresenta elemento algum demonstrando que Mendonça tenha agido por ressentimento. Ela própria admite que está “imaginando”. A repetida referência à religião também não esclarece uma única mensagem, contrato ou relação de Vorcaro com integrantes do Supremo.

O mesmo ocorre quando afirma que Mendonça esperava encontrar “cadáveres boiando” na margem esquerda, mas os estaria encontrando na direita. Talvez a jornalista tenha esquecido, mas o próprio Moraes é de direita, uma indicação do golpista Michel Temer.

A própria autora menciona contratos, processos de centenas de milhões de reais e suspeitas envolvendo familiares de ministros. Mas mistura esse material com fotografias de nudez e festas e chama a repercussão de “moralismo hipócrita”. Fotos íntimas de adultos podem até não possuir nenhuma relevância institucional. Agora, contratos milionários, relações de autoridades com um banqueiro investigado, pagamentos e possíveis conflitos de interesse são outra coisa. Reportagens recentes mostram que o caso atingiu vários ministros e familiares, com diferentes graus de envolvimento e diferentes explicações apresentadas pelos citados.

Misturar tudo tem a função de transformar o conjunto em fofoca. Denise escreve que, nesse “Fla x Flu da Corte”, há ótimos assuntos para uma “boa fofoca”. Depois afirma que crimes envolvendo dinheiro e provas contundentes ainda carecem de comprovação.

Temos aí um grave problema no texto, pois para sustentar que existe uma operação destinada a interferir nas eleições, a jornalista deveria demonstrá-la. Em vez disso, parte dessa conclusão. A publicação dos documentos vira “missão”, os indícios aparecem entre aspas, a religião de Mendonça serve para explicar suas decisões e possíveis irregularidades envolvendo o Supremo terminam reduzidas a assunto para revista masculina.

É curiosa a frase segundo a qual os ministros do STF trabalham julgando processos “à luz da Constituição”. Estamos no país do julgamento do Mensalão, onde uma ministra do Supremo condena admitindo não ter provas. Aqui é o país onde o principal candidato a vencer as eleições presidenciais é preso e impedido de participar do pleito, mesmo não tendo o trânsito em julgado. Vivemos em um país onde uma mulher é condenada a 14 anos de prisão por pichar uma estátua com batom. Quem anda julgando à luz da Constituição? Virou mania da esquerda pequeno-burguesa defender essa instituição ultrarreacionária.

Há uma diferença entre criticar André Mendonça e procurar esvaziar o conteúdo do material revelado. O pior é que essa operação tem a intenção de proteger Alexandre de Moraes, que foi transformado em herói da “democracia”.

O fato é que a crise está instalada e é muito grave. O caso continua atingindo vários integrantes do Supremo, e pesquisa Datafolha divulgada na semana passada mostrou que 47% dos entrevistados acreditavam que a crise da Corte teria alguma influência em seu voto presidencial — 36% disseram que a influência seria grande. Lula não conseguiu desvencilhar sua imagem da de Alexandre de Moraes, por isso a esquerda pequeno-burguesa tem tentado minimizar a gravidade da situação.

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