No artigo Evitar o abismo, publicado no sítio A Terra é Redonda, Thiago Toledo Leite Ferreira da Rocha parte de da avaliação de que a esquerda chega às eleições de 2026 despolitizada e sem apresentar uma alternativa capaz de mobilizar os trabalhadores. O próprio autor reconhece o esgotamento da conciliação promovida pelo lulismo, mas o problema é que, adiante, retorna à política que ajudou a produzir a situação.
Rocha afirma que “nossa eleição mais decisiva e perigosa tem a campanha mais despolitizada de que temos notícia.” A conclusão é que, diante da excepcionalidade, tornam-se aceitáveis acordos com a direita, abandono de reivindicações e a postergação de uma política independente dos trabalhadores.
Foi com esse argumento que se chegou, em 2022, à chapa de Lula com o tucano Geraldo Alckmin, antigo dirigente do PSDB e inimigo histórico do PT e da classe trabalhadora. Além disso, outros setores da direita foram incorporados à aliança e, depois, ao governo.
Quatro anos depois, Rocha reconhece o resultado: “o espírito do lulismo de conciliação e despolitização prevaleceu. Mas, infelizmente, o resultado das pesquisas tem indicado que a estratégia se esgotou. Ser o ‘menos pior’ não deverá mais funcionar, como ocorreu em 2022.”
Sendo assim, se a política do “menos pior” se esgotou, por que a população deveria novamente ser mobilizada fundamentalmente pelo medo de algo pior?
O desastre está sempre no futuro
O artigo apresenta uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro como algo próximo do fim do País, sustentando que “uma vitória de Flávio Bolsonaro representa, portanto, o desmantelamento do Brasil.” Mais adiante, fala em “um verdadeiro retorno ao modelo colonial”.
E o que dizer do golpe de 2016, que retirou Dilma Rousseff da Presidência e colocou seu vice, Michel Temer, em seu lugar?
A partir daí, desenvolveu-se uma ofensiva política e econômica que prosseguiu nos anos seguintes. Perdas de direitos trabalhistas, privatização dos principais setores da Petrobrás, quase destruição dos sindicatos, fome e desemprego generalizado.
Apresentar a destruição nacional apenas como ameaça futura ajuda a apagar o que ocorreu na última década e quem participou desse processo.
E o golpe de 2016?
O autor escreve que “quando se tentou um golpe de estado em 2022, era Joe Biden quem ocupava a presidência norte-americana.” Uma visão predominante na maioria da esquerda. Mas o 8 de janeiro não foi uma tentativa de golpe e o processo contra Jair Bolsonaro foi um julgamento-farsa, usado para retirá-lo da disputa eleitoral.
Como este Diário já demonstrou, o golpe que reorganizou o regime ocorreu em 2016 e teve continuidade na Lava Jato. A prisão de Jair Bolsonaro nada mais é que outra etapa do golpe.
O mesmo STF
O STF que posteriormente condenou Bolsonaro é o mesmo tribunal que deu sustentação institucional à Lava Jato em momentos decisivos de sua ofensiva contra Lula.
Em abril de 2018, o Supremo rejeitou o habeas corpus que buscava impedir a execução da pena de Lula antes do esgotamento dos recursos. A maioria acompanhou a jurisprudência então vigente, que permitia a prisão após condenação em segunda instância.
Preso, Lula teve depois seu registro de candidatura recusado ilegalmente pelo TSE por 6 votos a 1. A retirada do candidato que liderava a disputa alterou completamente o cenário eleitoral, e com essa manipulação Jair Bolsonaro acabou eleito.
Três anos depois, tentando limpar a própria imagem, o STF declarou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar as ações contra Lula e anulou as decisões correspondentes. No mesmo ano, confirmou a suspeição de Sérgio Moro no processo do tríplex, reconhecendo sua parcialidade e anulando seus atos naquele caso.
A direita escolhe até o que a esquerda deve defender
Rocha escreve que “nesse meio tempo, as instituições brasileiras desmoronam, com a ligação de ministros do STF ao Banco Master, desvelando o apodrecimento derradeiro da democracia liberal burguesa”. Mas se o próprio autor considera que o regime está se decompondo, por que a esquerda deveria aparecer diante da população como defensora de suas instituições?
Em vez de possuir uma posição própria diante do STF, a maioria da esquerda fica a reboque da direita. Se Bolsonaro ataca o Supremo, defendem o Supremo. Se a direita denuncia os poderes acumulados por Alexandre de Moraes, quem faz crítica passa a ser tratado como bolsonarista.
A direita acaba escolhendo não apenas aquilo contra o qual a esquerda luta, mas também aquilo que ela deve defender.
O próprio Rocha escreve que “a extrema direita, por sua vez, tem sido capaz de dar respostas mais convincentes – embora catastróficas – às questões que nos assolam”. E uma dessas respostas é justamente a crítica ao STF. Apesar de ela ser demagógica e interessada, isso não transforma o Supremo numa instituição que a esquerda deva defender.
Ao abandonar uma crítica própria ao Judiciário, a esquerda pequeno-burguesa entrega essa bandeira à direita. Quando o STF entra em crise, ela aparece identificada com o regime, enquanto seus adversários procuram apresentar-se como antissistema.
Após reconhecer que a conciliação fracassou e que o “menos pior” perdeu força, Rocha conclui que “é plenamente possível vencer as eleições. Será necessário tentá-lo com todas as forças. Mas, depois de consegui-lo, que possamos aprender com toda essa angústia”.
Se a conciliação e a despolitização são realmente responsáveis pelo enfraquecimento da esquerda, não podem ser combatidas apenas depois da eleição. Aliás, se a eleição soluciona os problemas, por que estamos nessa situação se Lula já venceu três eleições e Dilma Rousseff venceu duas?
A classe trabalhadora não deve ter ilusões nas eleições. A única maneira de se conquistar alguma coisa é demonstrando força, e isso ela tem de sobra, o que falta é a organização, os trabalhadores se alinharem atrás de um programa próprio e com sua luta impor uma derrota à burguesia.





