Luiz Inácio Lula da Silva passou a tentar separar sua imagem da de Alexandre de Moraes justamente quando a crise do Supremo Tribunal Federal começou a pesar sobre a eleição. O problema é que, ao mesmo tempo em que procura distância, o presidente continua defendendo politicamente o ministro.
Nesta quarta-feira (16), Lula lembrou que Moraes foi indicado ao Supremo em 2017, durante o governo Michel Temer.
“Eu não era presidente quando o ministro Alexandre de Moraes foi indicado para a Suprema Corte.”
Pouco depois, porém, fez questão de elogiar sua atuação.
“Eu acho que o Moraes prestou um serviço à democracia.”
As duas declarações resumem a dificuldade enfrentada pelo PT. O partido percebe que a associação com Moraes produz desgaste eleitoral, mas não consegue romper com ele porque continua considerando sua atuação arbitrária contra o bolsonarismo um elemento positivo da política dos últimos anos.
Esse movimento aparece também na conduta da campanha. O g1 informou que Lula vinha evitando comentários mais fortes sobre a crise do Supremo para impedir que ela atingisse sua candidatura. O Estadão registrou a mesma preocupação e apontou que o presidente passou a responder aos ataques tentando deslocar o foco para as relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro.
Não há, portanto, apenas uma disputa sobre quem indicou Moraes à Corte. Há uma tentativa de apagar uma associação política muito mais recente.
Moraes não foi indicado por Lula. Isso é fato. Esse meliante político foi filiado ao PSDB por décadas, chefiou a PM paulista como secretário de Segurança Pública de Geraldo Alckmin, foi ministro de Michel Temer e indicado pelo governo golpista ao STF. Sempre foi, portanto, um personagem de direita, e de uma direita reacionária.
Mas o vínculo político entre o ministro, o PT e a esquerda foi construído posteriormente, sobretudo após os acontecimentos de 8 de Janeiro. Aí ele se metamorfoseou, de repente. Como o inimigo do momento da burguesia era o bolsonarismo, na tentativa de estabilizar o regime e tentar ressuscitar a direita tradicional, atropelada pelo fenômeno Bolsonaro, Moraes passou a caçar os bolsonaristas com mão de ferro, rasgando toda a legislação nacional. E, como o bolsonarismo é atualmente o principal rival eleitoral do PT, este apoiou todas as ilegalidades de Moraes pensando em colher frutos eleitorais para manter os carguinhos de seus políticos profissionais.
Lula acaba de reiterar essa posição ao elogiar Moraes por sua atuação no Tribunal Superior Eleitoral em 2022 e por medidas tomadas contra Bolsonaro e seus apoiadores.
É por isso que a frase “eu não era presidente quando ele foi indicado” não engana ninguém.
O problema eleitoral que o PT enfrenta não nasceu da nomeação de Moraes por Temer. Nasceu da identificação política que se formou depois.
A tentativa de afastamento também esbarra na atuação de Flávio Dino.
Indicado por Lula ao STF, Dino pediu vista na sessão de terça-feira (15) e interrompeu a discussão antes que o tribunal decidisse sobre a abertura de investigação envolvendo Moraes e Daniel Vorcaro.
Não é necessário atribuir uma motivação ao pedido para perceber o efeito político do episódio.
Enquanto Lula tenta dizer que Moraes não é responsabilidade sua, um ministro escolhido por seu governo e aliado político nos últimos anos deixa claro para todo o País que é um capanga de Moraes.
A oposição passou imediatamente a explorar essa situação e a preocupação do PT com o efeito eleitoral já aparece publicamente.
O Estadão informou que a crise do STF passou a dificultar a campanha de Lula. O g1 registrou que o presidente vinha procurando evitar a associação com Moraes. O próprio Lula cobrou de Edson Fachin uma atuação que impeça a crise do tribunal de interferir no processo eleitoral.
Na Folha de S.Paulo, Mariliz Pereira Jorge escreveu que o apoio petista a Moraes poderá custar caro eleitoralmente e criticou a incapacidade da base governista de perceber a insatisfação existente com o Supremo.
A situação atual é consequência de uma política que este diário critica há anos.
Depois de sofrer com as ilegalidades do Judiciário no Mensalão, na Lava Jato e na prisão de Lula, o PT passou a apoiar o fortalecimento do Supremo quando os mesmos instrumentos passaram a atingir seus adversários eleitorais.
A justificativa foi a necessidade de formar uma ampla unidade contra o bolsonarismo.
Essa política transformou instituições da burguesia em supostas garantidoras da “democracia” e levou a esquerda a defender poderes cada vez maiores para uma camarilha burocrática que ora se revela integralmente o que é: um antro de corrupção a serviço dos banqueiros.
Moraes tornou-se uma das figuras centrais desse processo. Enquanto suas decisões atingiam Bolsonaro e seus apoiadores, recebeu elogios e apoio. Agora, quando o ministro é pego na cama com Daniel Vorcaro, a direção petista tenta estabelecer uma distância que nunca procurou manter antes.
Lula ainda reforça essa dificuldade quando lembra que foi preso pelo próprio Supremo e, na mesma entrevista, elogia Moraes.
A contradição não é apenas retórica. Ela revela o impasse produzido pela política de confiar no aparelho de Estado para enfrentar a direita.
O PT gostaria agora de separar sua candidatura da imagem de Moraes.
Depois de anos defendendo sua atuação, não é uma operação simples.
E a crise do Banco Master começou justamente quando já não há muito tempo para tentar fazê-la.





