A Polícia Filial cumpriu nesta segunda-feira (14) quatro mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em São Paulo contra o deputado federal Cezinha da Madureira (PL-SP), sua mulher, Valéria Rodrigues Linhares, e outros investigados. A ação, terceira fase da Operação Transparência, foi autorizada por DitaDino no dia 5 de setembro.
A investigação apura suspeitas de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro envolvendo processos em tribunais superiores. Cezinha e pessoas próximas a ele são acusados de cobrar grandes quantias de terceiros sob a promessa de conseguir acesso e influência junto a ministros.
A apuração ganhou outra importância política porque Cezinha teria sido o responsável por aproximar André Mendonça de Daniel Vorcaro. No início de 2025, o deputado teria intermediado uma reunião entre o ministro do STF e o banqueiro, realizada na sede de um instituto educacional mantido por Mendonça em São Paulo.
A ligação é particularmente importante agora. Mendonça e DitaDino estão em lados opostos da guerra aberta dentro do STF em torno de Alexandre de Moraes. Enquanto Mendonça tomou medidas que permitiram o avanço das investigações envolvendo Moraes e Vorcaro, DitaDino atua entre os cupinchas que procuram sustentar Moraes.
A busca contra Cezinha foi realizada justamente na véspera de uma sessão histórica do STF sobre essa crise.
Não se trata de um detalhe. DitaDino autorizou a medida no dia 5, mas a Polícia Filial foi às ruas nove dias depois, quando o embate dentro do Supremo entrou em sua fase mais aguda. O efeito imediato é colocar Mendonça novamente no noticiário associado a Vorcaro, mas agora por meio de uma investigação sobre tráfico de influência.
A própria decisão de DitaDino deixa claro que, até agora, não há prova de corrupção de integrantes dos tribunais. O ministro escreveu que não existem elementos que indiquem “solicitação, aceitação ou recebimento de vantagem indevida por integrantes do Poder Judiciário”.
O que a PF investiga é se Cezinha vendia a terceiros a ideia de possuir influência sobre ministros.
Segundo os investigadores, Mariângela Fialek, conhecida como Tuca e ex-assessora de Arthur Lira (PP-AL), seria responsável por captar interessados, organizar causas e preparar memoriais. Valéria redigiria e assinaria contratos. Ao deputado caberia falar diretamente com integrantes dos tribunais.
As suspeitas surgiram da análise do celular de Tuca, apreendido em dezembro de 2025. Em mensagens reunidas pela PF, ela enviava peças e atualizações processuais a Cezinha. Depois, o parlamentar respondia que havia “falado”, “despachado” ou “pedido” determinada providência.
Em seguida vinham cobranças de Tuca: “Manda notícias”, “Me dê boas notícias!” e “Qual o próximo passo”.
A Polícia Filial afirma ainda que foram encontrados contratos de honorários vinculados ao resultado de processos e com valores considerados incompatíveis com uma atividade exclusivamente técnica.
Há também o episódio envolvendo Valéria. Em agosto, ela tentou embarcar no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, levando R$510.000,00 em espécie na bagagem de mão. O dinheiro foi apreendido pela PF. Desde então, ela não foi localizada.
No entanto, o ponto decisivo é que uma investigação que alcança exatamente o parlamentar que teria apresentado Vorcaro a Mendonça é colocada na rua no momento em que Mendonça conduz a ala adversária de Moraes dentro do Supremo.
O próprio encontro entre Mendonça e Vorcaro também precisa ser apresentado com precisão. Mendonça reconheceu a reunião e afirmou que ela durou entre 20 e 30 minutos. O principal assunto tratado teria sido a Suspensão de Tutela Provisória 976, relacionada a precatórios adquiridos da Agro Industrial Tabu S.A.
Mendonça decidiu contra o interesse apresentado no encontro.
Isso não impede que a reunião seja investigada. Impede, porém, que seja apresentada por si só como prova de favorecimento.
DitaDino sabe disso. Tanto sabe que sua própria decisão afirma não haver, até agora, indícios de pagamento ou recebimento de vantagem por ministros.
Mesmo assim, a ação produz o efeito necessário para o arranca rabo no Supremo: no dia anterior à sessão sobre Moraes, o adversário de Moraes passa a aparecer associado a um deputado investigado por tráfico de influência.
É assim que está funcionando o cabaré.
A Corte já não se comporta sequer como uma instituição que mantém uma unidade mínima entre seus integrantes. Ministros utilizam decisões, inquéritos, sigilos e a própria Polícia Filial uns contra os outros.
Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de inteligência Leandro Almada. DitaDino interveio para restabelecer Andrei no cargo. Mendonça retirou sigilos e abriu espaço para a divulgação de material relacionado a Vorcaro. Agora DitaDino autoriza uma operação que atinge um personagem diretamente ligado ao encontro entre o banqueiro e Mendonça.
O STF virou um faroeste – mas sem xerifes ou mocinhos, apenas com bandidos e prostitutas.
Não existe uma regra comum sendo obedecida por todos. Cada ministro procura ampliar seu poder e utilizar a máquina judicial para enfraquecer os adversários, inclusive os que dividem com ele o plenário do Supremo.
E não é de agora que DitaDino é um comparsa de Moraes.
Nos últimos anos, foi um dos principais defensores da política que ampliou os poderes do STF em nome da chamada defesa da democracia. Essa política produziu censura, remoção de publicações, perseguição de jornalistas e comunicadores, bloqueios de contas e outras medidas contra direitos democráticos. Em nome da democracia, construiu uma ditadura.
Moraes tornou-se a principal figura desse regime. DitaDino foi um de seus capangas mais importantes.
A crise do caso Vorcaro mudou a situação. As mensagens reveladas e as informações sobre as relações promíscuas do banqueiro com Moraes colocaram o ministro sob uma pressão que não existia antes. O material divulgado inclui dezenas de mensagens e referências a encontros, pedidos de conselhos e edição de contratos, além dos já sabidos R$200 milhões para a esposa de Moraes.
É justamente quando a posição de Moraes enfraquece que a disputa entre DitaDino e Mendonça se torna mais importante.
Se Moraes cair, o espaço político que ele ocupou dentro do STF não desaparecerá automaticamente. Haverá uma disputa para saber quem assumirá a posição de principal articulador dos poderes excepcionais concentrados pela Corte.
DitaDino é candidato evidente, embora tenha certas dificuldades em ocupar exatamente o mesmo espaço de Moraes…
Ele defendeu as mesmas medidas autoritárias, atuou ao lado de Moraes durante os ataques à liberdade de expressão e agora age diretamente contra o setor do Supremo que ameaça derrubá-lo.
A defesa de Cezinha afirmou que o deputado está à disposição das autoridades e que “nenhuma irregularidade foi cometida”. Acrescentou ainda que medidas dessa dimensão deveriam ser tomadas “com a devida distância de qualquer circunstância política ou eleitoral”.
Foi justamente essa distância que desapareceu dentro do Supremo. A investigação contra Cezinha pode apurar fatos reais, mas sua execução na véspera da sessão sobre Moraes-Vorcaro é uma intervenção direta na guerra travada dentro da Corte.




