As Forças Armadas do Iêmen, dirigidas pelo Ansar Alá, impuseram uma derrota de grandes proporções às tropas apoiadas pela Arábia Saudita na costa oeste do país. Em poucos dias, os combatentes de Saná tomaram o porto estratégico de Al-Mokha, a ilha de Perim e outras posições próximas ao estreito de Babelmândebe.
A dimensão do revés foi reconhecida por fontes ligadas às próprias milícias sustentadas por Riade. Uma delas definiu o ocorrido como um fracasso saudita e norte-americano de “proporções épicas”, segundo informações divulgadas pela CNN e repercutidas pelo The Cradle.
Durante o avanço sobre Al-Mokha, comandantes das forças pró-sauditas pediram repetidamente cobertura aérea. Segundo uma fonte militar ligada a essas tropas, o Comando Central dos Estados Unidos chegou a informar que aviões sauditas prestariam apoio.
O ataque aéreo, porém, não veio.
“E Al-Mokha agora caiu”, afirmou a fonte.
A perda da cidade tem grande importância militar. Al-Mokha está diante do Mar Vermelho e próxima de Babelmândebe, passagem fundamental para a navegação internacional. No dia seguinte, as tropas de Saná conquistaram também Perim, ilha localizada na entrada do estreito.
Além do território, os iemenitas capturaram equipamentos de vigilância marítima e radares costeiros instalados na região. Parte desse material integrava a estrutura de comando montada pelas forças adversárias em Babelmândebe.
Vídeos publicados pela imprensa militar do Iêmen mostram veículos destruídos, posições abandonadas e combatentes apoiados pelos sauditas em retirada. Dezenas de veículos militares foram inutilizados nos combates.
Parte dos equipamentos pertencia às chamadas Brigadas dos Gigantes, grupo armado sustentado pelos Emirados Árabes Unidos. As imagens mostram também prisioneiros capturados e tropas adversárias abandonando posições enquanto os combatentes de Saná avançavam.
A velocidade da derrota expôs a situação das milícias mantidas pela coalizão. Uma fonte citada pela CNN afirmou que determinados batalhões dispunham de apenas cerca de 20% do efetivo registrado oficialmente. As folhas de pagamento continham numerosos “soldados fantasmas”, combatentes registrados apenas para justificar o recebimento de recursos.
Outro problema surgiu depois da retirada das últimas tropas dos Emirados Árabes Unidos, no início do ano. A Arábia Saudita não conseguiu preencher adequadamente as posições deixadas pelos emiradenses, deixando bases importantes com efetivos reduzidos.
A atual operação começou após vários dias de combates na costa oeste. No dia 10 de setembro, o exército iemenita avançou sobre ilhas do Mar Vermelho e outras posições da região.
Também foram tomadas prisões utilizadas para manter soldados e integrantes da resistência iemenita. Os detidos foram libertados durante a operação. Saná definiu a ação como uma “operação nacional no marco da afirmação da soberania iemenita”.
A retomada dos combates em grande escala ocorreu depois do ataque saudita contra o Aeroporto Internacional de Saná, em julho. Riade mantém há mais de uma década o bloqueio de portos e aeroportos do país, iniciado juntamente com a guerra lançada em 2015.
As negociações iniciadas em 2023 chegaram perto de produzir um acordo entre as partes e impediram temporariamente uma escalada maior. A Arábia Saudita, entretanto, manteve o bloqueio e prosseguiu com ataques contra território iemenita.
Somente nas últimas 24 horas, segundo as Forças Armadas do Iêmen, aviões sauditas realizaram 58 ataques contra as províncias de Taiz, Lahj, al-Jawf, Hajjah, al-Bayda e Saada. Os bombardeios foram realizados por caças F-15 que partiram da base de Khamis Mushait. Saná respondeu levando a guerra para instalações militares dentro da própria Arábia Saudita.
O porta-voz militar Iahia Saré anunciou um ataque contra depósitos de armas e centros de comando da base de Sharurá. A operação empregou uma grande quantidade de mísseis balísticos e drones, que, de acordo com o comando iemenita, atingiram diretamente os alvos.
Iahia Saré advertiu que a continuação dos ataques contra o Iêmen será respondida com operações “mais severas e maiores” em território saudita.
A imprensa de Riade acusou ainda o Iêmen de atingir uma mesquita. Uma fonte militar iemenita rejeitou a versão e afirmou à agência Saba que os danos foram provocados por mísseis interceptadores sauditas que falharam e caíram sobre cidades do próprio reino.
Ao mesmo tempo, a artilharia saudita voltou a bombardear aldeias no distrito de Shada, no oeste da província de Saada, junto à fronteira.
A Casa Branca também ampliou sua participação. Mais de 100 militares norte-americanos foram enviados recentemente à Arábia Saudita para fornecer informações de inteligência e auxílio na escolha de alvos.
Nem esse apoio impediu a queda das posições na costa oeste. A tomada de Al-Mokha e Perim deu a Saná novas posições junto ao Mar Vermelho e mostrou a deterioração das forças mantidas por Riade depois de mais de 10 anos de guerra contra o Iêmen.





