Análise Internacional

Frente ampla fracassa diante da extrema direita, afirma Rui Costa Pimenta

Presidente nacional do PCO analisou eleições na Alemanha e França, Venezuela, Cuba, crise dos EUA, Oriente Médio, Argentina e os 25 anos do 11 de Setembro

O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, analisou nesta quinta-feira (10), no programa Análise Internacional, a crise dos partidos tradicionais europeus, o crescimento da extrema direita e a política adotada pela esquerda diante desse processo. A edição tratou ainda da Venezuela, Cuba, Estados Unidos, Oriente Médio, Argentina e dos 25 anos dos ataques de 11 de Setembro.

Transmitido às quintas-feiras, às 12h30, o programa é uma parceria entre o Diário Causa Operária e o canal Arte da Guerra. Excepcionalmente, esta edição não contou com a participação do comandante Robinson Farinazzo.

A primeira questão foi a situação francesa. Pesquisas mencionadas durante a transmissão indicam que setores apresentados como “centro democrático” poderiam apoiar Marine Le Pen numa disputa contra Jean-Luc Mélenchon. Já diante de um segundo turno entre Le Pen e um candidato do centro, parcela da esquerda tenderia a apoiar este último.

Pimenta destacou que esse comportamento desmente a política da frente ampla, segundo a qual a esquerda deve se unir aos partidos burgueses para impedir o crescimento da extrema direita.

“Os partidos chamados de centro, democráticos, eles são os partidos do imperialismo. O imperialismo está mais preocupado com a esquerda do que com a extrema direita, evidentemente. Então, se a disputa se der entre a esquerda e a extrema direita, esse setor vai apoiar a extrema direita e procurar um acordo com a extrema direita. Isso é importante porque desmascara a ideia de que é preciso se aliar com os setores da burguesia para combater a extrema direita. É totalmente infundado esse raciocínio.”

A eleição brasileira de 2018 foi citada como exemplo. Com Lula impedido de concorrer e Fernando Haddad enfrentando Jair Bolsonaro no segundo turno, os principais setores da burguesia apoiaram o candidato da direita.

“No Brasil nós já tivemos essa situação também. O Lula foi proibido de concorrer em 2018. Havia um candidato de esquerda — esquerda pequeno-burguesa, ou burguesa até — que seria o Haddad, havia um candidato da extrema direita, e a burguesia toda apoiou o candidato da extrema direita. Quer dizer, não é nenhum mistério. Isso invalida a ideia da frente ampla.”

Na França, o crescimento de Mélenchon foi relacionado à tradição de luta política do país. Pimenta lembrou que a luta de classes costuma aparecer de maneira mais aberta na sociedade francesa e que existe uma tendência recorrente à radicalização.

A Alemanha forneceu outro exemplo. Nas eleições da Baixa Saxônia, a Alternativa para a Alemanha (AfD) chegou perto da maioria apesar do chamado firewall, acordo pelo qual os partidos tradicionais se recusam a cooperar com a legenda.

Ao mesmo tempo, o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), historicamente vinculado aos sindicatos, teve um resultado inferior ao Die Linke.

“O que nós estamos vendo no quadro alemão é uma prova contundente do fracasso da burguesia com seus métodos, ou seja, métodos antidemocráticos de frear o avanço da extrema direita. Isso está absolutamente claro. O que eu acho que é muito pouco compreendido é que o avanço da extrema direita corresponde a um colapso da ordem estabelecida dos partidos tradicionais. Você vê o Partido Social-Democrata Alemão: ele teve menos voto do que o Die Linke nessa eleição. É impressionante porque esse partido tem ligação com todos os sindicatos alemães e não conseguiu nem ter voto acima de um partido pequeno-burguês relativamente inexpressivo, embora com presença no Parlamento alemão.”

Parte dos eleitores social-democratas teria apoiado a União Democrata-Cristã (CDU) para barrar a AfD. O resultado, porém, não impediu novo avanço da extrema direita.

O BSW, dirigido por Sahra Wagenknecht, passou a ocupar posição decisiva para a formação do governo regional. A legenda rejeitou tanto integrar um governo da AfD quanto participar automaticamente de uma coalizão para isolá-la e propôs a escolha de um primeiro-ministro “independente”.

Pimenta criticou a proposta e defendeu que a esquerda assuma uma posição independente de todos os partidos burgueses.

“A esquerda tem que romper com a burguesia e ter uma política própria. Eu acho que a política do BSW é uma política confusa. Eles não teriam que propor nenhum tipo de governo para o Estado. Eles teriam que colocar que vão se opor a qualquer governo que for estabelecido. E deveriam lançar aí a ideia de que deveria haver um governo dos trabalhadores alemães, da classe operária alemã. Esse negócio de ficar falando que tem que ter um governo independente é um erro. Nesse momento, diante da crise, o que a esquerda necessita é uma política completamente dissociada da burguesia.”

Venezuela e Cuba

Na Venezuela, a conversa partiu das informações apresentadas durante o programa sobre um acordo petrolífero que envolveria concessões em 17 campos e condições especiais para a participação de empresas e do governo norte-americano.

Pimenta ressalvou que os termos precisariam ser examinados com maior precisão, mas considerou perigosas as concessões feitas pelo chavismo diante da pressão dos Estados Unidos.

“Independentemente de qual seja, o acordo é um acordo que está sendo feito sob condições de chantagem dos Estados Unidos, evidentemente. É um resultado da política que o chavismo decidiu adotar em relação ao problema dos Estados Unidos. Então, eu acho que as concessões que estão sendo feitas pelo chavismo são perigosas. Vão levando a uma liquidação do regime estatista. Não acho que seja viável manter a situação por tempo indeterminado.”

Pimenta também rejeitou a apresentação da política como uma iniciativa isolada de uma ala do governo venezuelano. Citou o apoio de Diosdado Cabello e a ausência de uma divisão pública na direção do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).

“O debate, na verdade, se concentra em tentar apresentar uma parte do chavismo como estando aí traindo o chavismo. Eu não acho que isso esteja acontecendo. Eu acho que é uma política de conjunto do chavismo. Você vê as notícias e não vê divergência no chavismo sobre o que está acontecendo. […] Eu acho que a cúpula chavista apoia o acordo. Aí nós temos que entrar na discussão do caráter do acordo, se é eficiente ou não para o que eles querem. Não é um problema moral como o pessoal procura apresentar.”

A situação cubana foi diferenciada da venezuelana. As recentes medidas de abertura parcial ao capital estrangeiro foram caracterizadas como uma tentativa defensiva, ainda controlada pelo Estado cubano.

“Eu vi gente que falou que é restauração do capitalismo em Cuba e tal. Não, não é nada disso. É uma política defensiva, mas é uma política controlada pelo Estado cubano. A política da Venezuela não. A política da Venezuela é uma política feita sob pressão dos Estados Unidos. São coisas muito diferentes.”

Também foram mencionados o aumento da mortalidade infantil e as dificuldades no fornecimento de energia em Cuba. Pimenta relacionou a deterioração das condições de vida ao recrudescimento do bloqueio norte-americano e considerou correta a afirmação de Miguel Díaz-Canel de que o governo precisa apresentar soluções concretas.

“Esse problema da mortalidade infantil é uma decorrência direta do aumento do bloqueio econômico contra Cuba lançado pelo Donald Trump. O governo, obviamente, e a colocação do Díaz-Canel está correta: não basta diagnosticar, você tem que ter uma política. Agora é difícil dizer, do ponto de vista mais técnico, qual seria a política correta, porque nós não temos todo o conhecimento sobre a economia cubana. Eles têm problemas que são muito sérios. Por exemplo, o problema da energia é um problema-chave.”

Pimenta advertiu contra conclusões precipitadas sobre os rumos de Cuba e da Venezuela.

“Eu acho que tanto em um caso como no outro tem que acompanhar, de maneira crítica, evidentemente, mas não exagerar nas conclusões antes que a gente possa tirar uma conclusão concreta.”

Crise dos Estados Unidos

Questionado sobre a possibilidade de os Estados Unidos reverterem seu processo de decadência, Pimenta respondeu que o problema não poderia ser solucionado por uma mudança administrativa.

“Não acho possível. Não é um problema administrativo, é um problema do próprio funcionamento do capitalismo. O Trump apresenta aí uma proposta, uma política geral que seria uma política de resgate da economia interna norte-americana. O simples fato de que os setores mais importantes da economia norte-americana, quer dizer, o capital financeiro etc., estejam contra o programa dele, já mostra o impasse que o capitalismo vive. Eles veem na política do Trump o perigo de perder a posição internacional que os Estados Unidos têm, tanto do ponto de vista político, que é muito grave, como do ponto de vista econômico.”

Outra pergunta enviada ao programa tratou do stalinismo e de sua utilização pela burguesia como propaganda contra o comunismo. Pimenta rejeitou a identificação do socialismo com um regime permanente de terror policial e criticou a exaltação do Gulag.

“O regime político stalinista é o pior tipo de propaganda anticomunista que já existiu. […] Socialismo não foi concebido pelos socialistas — Marx, Engels, Lenin, Trótski, Rosa Luxemburgo — como um regime de terror permanente. Nunca ninguém imaginou isso, um pesadelo. Os admiradores do stalinismo acham isso bonito, acham que isso é uma demonstração de firmeza política, mas não é verdade. Quem vai querer viver num regime de terror permanente? Ninguém.”

Pimenta diferenciou a repressão imposta pelas condições de uma guerra civil da transformação do aparelho policial num modelo permanente de sociedade.

“Nós temos que apresentar o socialismo, o comunismo, como uma exaltação da liberdade humana, do bem-estar da pessoa. Não é um regime que é feito para oprimir a sociedade, é um regime que é feito para você libertar o ser humano.”

25 anos do 11 de Setembro

Na véspera dos 25 anos dos ataques de 11 de setembro de 2001, Pimenta abordou tanto as controvérsias que cercam o episódio quanto suas consequências concretas para a política norte-americana.

“O 11 de Setembro é uma coisa muito controvertida, há muita desconfiança de que isso teria sido realizado ou permitido pelo próprio governo norte-americano. O fato é, objetivamente, que esse acontecimento deu lugar a uma ofensiva reacionária de grande escala, tanto dentro dos Estados Unidos como na política externa do imperialismo em geral. A invasão do Iraque, que foi uma coisa monstruosa e depois um fracasso, e depois a invasão do Afeganistão. Tudo isso baseado no impacto emocional do atentado.”

A ofensiva desencadeada após os ataques resultou nas invasões do Afeganistão e do Iraque. As vitórias militares iniciais, no entanto, não produziram uma consolidação duradoura do domínio norte-americano.

“Isso foi utilizado como um pretexto, digamos assim, para uma ofensiva da direita norte-americana mais violenta. E também nós devemos dizer que isso deu lugar a um aprofundamento da crise do imperialismo. Eles foram para cima dos povos atrasados e conseguiram resultado imediato, mas muito precário. E o fracasso da ofensiva acabou colocando o imperialismo numa situação defensiva ainda maior do que estava anteriormente. A ocupação do Afeganistão foi um fracasso extraordinariamente grande.”

Ansar Alá avança no Iêmen

O avanço do Ansar Alá no Iêmen também foi analisado. As forças iemenitas conquistaram novas posições na região de Bab al-Mandab enquanto enfrentam tropas apoiadas pela Arábia Saudita.

A importância militar da região cresce diante do confronto em torno do estreito de Ormuz e da guerra contra o Irã. O domínio de áreas próximas a Bab al-Mandab amplia a capacidade iemenita de pressionar uma das principais rotas marítimas utilizadas pelo comércio internacional.

“É estranho porque a situação toda piora para o imperialismo e eles não arredam pé. Esse enfrentamento entre o Ansar Alá e a Arábia Saudita também parece ser um fracasso. Aparentemente, eles vão dominar todo um setor ali do estreito por terra. Essa é a impressão que a gente tem hoje em dia. Quer dizer, é uma derrota depois da outra.”

Esquerda britânica paralisada

No Reino Unido, o crescimento da extrema direita acontece ao mesmo tempo que a organização surgida ao redor de Jeremy Corbyn enfrenta disputas internas.

“Independentemente de um juízo definitivo sobre a questão, o fato é que a esquerda britânica, ao invés de aproveitar a situação de crise, está desperdiçando a situação de crise. Não consegue. Aí está o problema típico de agrupamentos de esquerda. Não têm uma visão de conjunto, não têm uma visão ampla e acabam comprometendo todo o negócio. Não sei se vão comprometer definitivamente, mas nesse momento a situação parece bem comprometida.”

A dificuldade torna-se mais grave diante da possibilidade de uma nova eleição britânica.

“O país está se preparando para uma eleição e o partido de esquerda, que deveria ser um partido amplo, não parece ser uma alternativa nesse momento. É incrível que a gente chegue numa situação como essa.”

Milei e a Argentina

A queda de popularidade de Javier Milei foi o principal assunto sobre a Argentina. Durante o programa, foram mencionadas a redução da inflação mensal e, ao mesmo tempo, a manutenção de graves problemas nos salários, no emprego e no poder de compra.

Pimenta considerou previsível que uma política de choque aplicada sobre uma economia já debilitada produzisse resultados negativos para a população.

“Eu acho difícil de entender o que é que a burguesia internacional esperava dessa política do Milei. Você aplica uma política de choque sobre uma economia que já está bastante debilitada e aí você colhe um resultado negativo. Eu diria até que, nesse momento, o resultado não é tão negativo quanto ele potencialmente é, porque ele potencialmente é muito mais negativo do que está aparecendo.”

“A política neoliberal em todos os países promoveu um resultado negativo. Por que agora, na Argentina, um país cuja economia está muito debilitada, isso iria promover um resultado positivo? Não dá nem para entender.”

A ausência de uma alternativa clara dentro do peronismo também foi discutida. Pimenta rejeitou sua caracterização como uma força política da esquerda.

“O peronismo é um partido burguês, não é um partido de esquerda, não é um PT, um PSOL. O peronismo seria, assim, tipo um PMDB. O problema do peronismo é que a própria burguesia não está buscando uma alternativa ao Milei. Então eles acabam que não têm. Agora, se a queda do Milei continuar, eles vão ter que aparecer com uma alternativa, não vai ter jeito.”

Na análise da França e da Alemanha, a posição apresentada foi a mesma diante do crescimento da extrema direita: a esquerda não deve procurar proteção nos partidos tradicionais da burguesia, mas romper politicamente com eles e apresentar uma alternativa própria dos trabalhadores.

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