O candidato do Partido da Causa Operária (PCO) ao governo do Ceará, Ieri de Sousa, participou da sabatina promovida pelo grupo de comunicação O Povo. Durante cerca de 20 minutos, apresentou as posições do Partido sobre as eleições, segurança pública, dívida pública, Palestina, liberdade de expressão, presos do 8 de Janeiro e organização dos trabalhadores.
Antes mesmo de responder à primeira pergunta, Ieri denunciou a atuação da Justiça Eleitoral e da Polícia Filial contra o PCO. Citou a tentativa de impedir as candidaturas do Partido em Minas Gerais em razão de problemas relacionados à prestação de contas de 2015, quando, segundo explicou, não ocorreu movimentação financeira.
“Primeiramente eu gostaria de fazer uma denúncia aos órgãos da Justiça Eleitoral e à Polícia Federal, porque para nós esses órgãos atuam de forma política, são agentes políticos. A Justiça Eleitoral atua no sentido de impedir as candidaturas do Partido da Causa Operária justamente por conta da questão da prestação de contas eleitorais. Como você mesmo coloca, nós somos o menor Partido, o Partido mais pobre, nenhum candidato nosso tem milhão na conta, nós somos candidatos operários, pobres, não estamos aqui para enriquecer na política.”
Segundo Ieri, a própria Justiça Eleitoral adotou posteriormente entendimento incompatível com aquele utilizado agora contra o Partido.
“Em 2015, a Justiça Eleitoral cobra de nós uma prestação de contas em Minas Gerais que não houve porque não teve movimentação bancária, não teve movimentação de recursos. E, se não tem movimentação de recursos, você não tem como gerar os livros contábeis, os livros diários etc. Dito isso, a nossa candidatura hoje está sendo impugnada por perseguição política em Minas Gerais por essa prestação de contas de 2015. No entanto, em 2018, a própria instituição considerou válida a prestação de contas sem esses documentos contábeis se não teve movimentação.”
A denúncia foi estendida à recente operação da Polícia Filial contra dirigentes, advogados e militantes do PCO. Ieri mencionou especificamente a invasão da residência do presidente nacional do Partido, Rui Costa Pimenta.
“A Polícia Federal invadiu recentemente a casa de vários militantes do Partido, do advogado do Partido, do presidente do Partido, chegou quebrando a porta, justamente baseada nessa questão da prestação de contas de 2015. Eles acreditavam que iam encontrar milhões, relógios etc., como existem em vários casos dos politiqueiros brasileiros. No entanto, chegaram lá e encontraram uma casa simples de militantes e a única coisa que levaram do Rui Costa Pimenta foi o seu celular, e o maior bem que Rui Costa Pimenta tinha na sua casa era o conjunto de livros que compõem sua biblioteca.”
Ieri acusou ainda a PF de agir de maneira diferente diante de integrantes das forças de “Israel” denunciados por crimes contra os palestinos e diante de palestinos que procuram entrar no Brasil. Para o candidato, a atuação da corporação desmente a apresentação da Polícia Filial como simples cumpridora da Constituição.
Ao responder sobre o papel do Partido nas eleições, colocou no centro a submissão do País aos bancos e rejeitou a ideia de que a eleição, isoladamente, possa resolver os problemas da população.
“Qual é a realidade que o Brasil vive hoje? É a questão da ditadura bancária. Nenhum candidato aqui vai relatar esse problema, sobre por que, entre direita e esquerda, ninguém faz nada. Justamente porque todos esses grupos estão amarrados, estrangulados por uma dívida pública que é assassina. Ela hoje mata o nosso povo de fome, enfileirado nos hospitais. O que eles contam aqui, todos esses que passaram aqui, são mentiras. Individualmente ninguém é capaz de fazer nada. Agora, coletivamente nós somos capazes.”
Também rebateu o questionamento sobre o pequeno número de filiados do PCO. Para Ieri, o peso de uma organização política não pode ser medido apenas por seu tamanho formal.
“Apesar de sermos o menor Partido, somos o Partido que mais se opõe e que mais faz barulho em nível nacional em termos de mobilização política contundente, inclusive somos criticados tanto pela esquerda como pela direita. […] Acreditamos que o golpe de 2016, que também prendeu Lula, hoje acontece consequentemente nas eleições de 2026 com a prisão do próprio Bolsonaro. Então defendemos Lula, defendemos o próprio Bolsonaro, que está sendo preso injustamente, porque acreditamos que o golpe hoje quer viabilizar a terceira via.”
Na segurança pública, Ieri defendeu a dissolução da Polícia Militar e denunciou o caráter de classe da repressão policial. Para ele, as operações violentas são dirigidas contra os bairros operários, enquanto os grandes capitalistas permanecem protegidos pelo aparato estatal.
“O primeiro deles é denunciar a farsa da segurança pública. Por isso a gente exige, reivindica o fim da Polícia Militar, porque não resolve o problema da segurança pública. Hoje a segurança pública vinculada à Polícia Militar, em grande medida, privilegia apenas os ricos e os poderosos. Não existe um helicóptero da Polícia Militar rajando a casa do Daniel Vorcaro pela manhã ou pela tarde, porque lá é um bairro de burguês. Eles não vão fazer esse tipo de chacina em bairros de ricos; só acontece isso com o trabalhador.”
Ieri comparou ainda os pequenos delitos utilizados para justificar a repressão contra os pobres aos enormes recursos apropriados pelos bancos.
“A população carcerária é de pobre, pobre e trabalhador. Ou seja, a polícia hoje persegue quem? Sendo que, na prática, o roubo bancário é muito mais danoso ao Brasil do que qualquer outro roubo pequeno que acontece. Então, se existe uma facção hoje no Brasil que incomoda o País e destrói nosso País, a facção bancária são os bancos.”
O programa do PCO prevê também a legalização de todas as drogas, eliminando um dos principais fundamentos utilizados para operações policiais nos bairros pobres, e a organização de órgãos populares de segurança.
Questionado sobre a defesa de uma população armada, Ieri explicou que o Partido propõe treinamento militar para homens e mulheres e organismos de autodefesa controlados pelos próprios trabalhadores.
“A nossa proposta é que a população não tenha medo de lutar para defender o seu País. Somente ela preparada militarmente, somente ela armada, com treinamento militar para homens e mulheres, para que as pessoas possam de fato garantir a sua segurança, é capaz de enfrentar o sistema que hoje a gente vê quase como impossível de mudar, porque sabemos que ele está profundamente dominado por grupos articulados internacionalmente, como as facções bancárias.”
A Palestina apareceu quando um dos entrevistadores perguntou se o Hamas seria um exemplo para essa política e classificou a organização como terrorista. Ieri rejeitou a caracterização e contestou alegações divulgadas depois da operação de 7 de outubro de 2023.
“Eu elogio e me identifico muito com o Hamas porque não é um grupo terrorista. Essa questão da decapitação de bebês que foi colocada há um tempo atrás é interessante porque os meios de comunicação convencionais tratam da mesma maneira uma mentira propagandeada pela Mossad. […] Por mais que vocês possam tentar colocar a figura do Hamas como um grupo terrorista, o próprio Biden negou a decapitação dos 40 bebês. O próprio Biden, naquela época, negou, porque não tinha imagem.”
Ele acusou os grandes órgãos de imprensa internacionais e brasileiros de reproduzir de maneira uniforme informações favoráveis a “Israel”.
“Há uma mentira propagandeada em nível internacional porque os meios de comunicação atuam de forma comum, em sintonia. O que O Povo fala aqui é a mesma coisa que o Correio Braziliense fala em Brasília, a mesma coisa que o Estadão fala em São Paulo, a Folha de S.Paulo fala, o New York Times fala, o Le Monde fala, porque vocês são conectados. Então a informação que é passada em ‘Israel’ é veiculada como verdade para o mundo todo.”
Na sequência, apresentou o Hamas como uma organização política palestina e defendeu a luta contra a ocupação sionista.
A sabatina tratou ainda da proposta do PCO de colocar os grandes órgãos de imprensa sob controle dos trabalhadores. O entrevistador perguntou como essa posição poderia ser conciliada com a defesa da liberdade de expressão. Ieri respondeu que o programa do Partido é abertamente revolucionário e não pretende preservar a propriedade dos grandes capitalistas sobre os meios de produção.
“Há uma contradição nessa apresentação justamente porque a questão da tomada dos meios de produção faz parte do processo revolucionário. Sem isso, não tem como conciliar o interesse privado com o interesse da ditadura do proletariado. Nós lutamos pela ditadura do proletariado. Não é outra coisa. A gente luta pelo governo operário. Isso só é possível quando o povo entender que só é capaz de transformar profundamente a sociedade quando tomar o poder.”
Quando o entrevistador perguntou se isso significava a defesa de uma “ditadura de esquerda”, Ieri respondeu: “Exatamente”.
O 8 de Janeiro também entrou na entrevista. Ieri defendeu anistia para todos os presos e rejeitou a caracterização das manifestações daquele dia como tentativa de golpe de Estado.
“Quando se trata da questão do 8 de Janeiro, o principal ponto nosso é que era apenas uma manifestação. Não foi um golpe, não foi uma tentativa de golpe. As pessoas não estavam armadas, não tinha sequer um tanque na rua, não tinha sequer nenhuma tropa mobilizada para fazer esse tipo de processo. Quem foi preso foram pessoas trabalhadoras, que não tinham basicamente onde cair mortas. […] Para nós, todos os presos do 8 de Janeiro devem ser libertados imediatamente, todos.”
Para o candidato, a perseguição contra os manifestantes faz parte do aumento dos poderes do Judiciário, processo que também teria sido utilizado anteriormente contra Lula e agora contra Bolsonaro.
A última discussão foi sobre o chamado ECA Digital. Ieri rejeitou a utilização da proteção às crianças como justificativa para ampliar a censura na internet e lembrou que problemas sociais gravíssimos envolvendo crianças são ignorados pelo próprio Estado.
“É uma contradição nessa questão de proteger a criança porque o Estado não está nem aí para criança. Se o Estado estivesse aí para criança, a gente não teria uma quantidade gigantesca de crianças morando na rua, não teria esse descaso com a educação pública, não teria, por exemplo, o descaso com a creche. Por que essa preocupação com a proteção da criança na internet, sendo que casos de estupro e abuso sexual aconteceram no passado independentemente da internet?”
Ieri mencionou ainda que informações sobre a guerra contra os palestinos circulam pela internet apesar do bloqueio promovido pelos grandes órgãos de imprensa e relatou ter tido uma conta do Google suspensa em razão de publicações sobre a Palestina.
Nas considerações finais, voltou à crítica às ilusões eleitorais. Citou a proposta do PCO de salário mínimo de R$7.500 e comparou o custo da medida aos recursos destinados aos bancos.
“As eleições são falsas. O voto em mim apenas não vai garantir, com a minha eleição, que eu resolva nenhum dos problemas do Ceará da forma como está. O que importa para nós é que a gente se organize e entenda que o programa é possível. Por exemplo, o salário mínimo de R$7.500 é possível, porque ele equivale a R$700 bilhões e hoje a Bolsa Banqueiro é de R$3 trilhões no Brasil. Ou seja, é viável. O que a gente não tem é força para enfrentar os banqueiros ainda. Mas teremos.”





