Em Relatório da PF contra Moraes é propaganda eleitoral, publicado no Brasil 247 nesta quarta-feira (2), Eduardo Guimarães apresenta uma nova linha de defesa de Alexandre de Moraes no escândalo do Banco Master. Depois de meses defendendo o ministro e sua esposa, sustenta agora que Daniel Vorcaro pode ter fabricado os próprios registros encontrados pela Polícia Federal para comprometer autoridades que tentava aliciar.
A conclusão permanece a mesma: Moraes deve ser defendido. O que muda são os argumentos.
Em dezembro passado, Guimarães publicou um artigo categórico: Contrato de R$ 129 milhões da mulher de Moraes não existe. Este Diário criticou a afirmação, já que nem Moraes nem sua esposa haviam negado a existência do contrato.
No novo artigo, o contrato aparece no primeiro item enumerado pelo próprio Guimarães: “Moraes fez alteração em um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa”.
O contrato que “não existia” agora existe. Foi preciso procurar outra explicação.
Agora Vorcaro teria plantado tudo
Guimarães escreve: “enfim, tudo isso só existe em ‘prints’ de Vorcaro que podem ter sido inventados”. Qual é a prova? Nenhuma.
O jornalista simplesmente cria uma hipótese: “o banqueiro que decuplicou seu patrimônio em um par de anos é esperto o suficiente para deixar comprometidos aqueles que tentava aliciar plantando ‘prints’ no próprio celular”.
Para acusar Moraes, Guimarães exige perícia, confirmação no telefone do ministro e provas praticamente definitivas. Para inocentá-lo, basta imaginar uma operação montada por Vorcaro.
E o caso não se resume a “prints”. O relatório contém mensagens, contratos e metadados. Uma versão do contrato de R$131 milhões teve a última modificação atribuída pelo arquivo ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes”. O escritório de Viviane afirma que Moraes foi consultado apenas para verificar eventuais impedimentos, mas isso confirma não só a existência do contrato que Guimarães disse que não existia, como também o contato de Moraes com o documento.
Guimarães utiliza dois padrões: contra Moraes, nada basta; a favor de Moraes, qualquer hipótese serve.
Nem os cartões desapareceram
O raciocínio piora quando Guimarães faz seu “resumo da ópera”: “não foram dados por Vorcaro aos Moraes nem imóvel, nem helicóptero, nem jatinho, nem cartões e Vorcaro foi preso”.
O resumo já começa errado. O Banco Master emitiu cartões de crédito para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos do ministro e de Viviane, com limite de R$300 mil para cada um. O escritório confirmou a emissão, embora alegue que os cartões nunca foram utilizados.
Guimarães também escolhe exemplos particularmente ruins quando fala em helicóptero e jatinho. Além do contrato de aproximadamente R$131 milhões, a PF encontrou uma negociação sobre um segundo acordo, de R$50 milhões, envolvendo o escritório de Viviane. Uma minuta previa que R$40 milhões poderiam ser pagos mediante cotas de um jatinho Legacy 650 e de um helicóptero EC 155 B1, além de outros R$10 milhões referentes a despesas com voos. O escritório afirma que a proposta não foi aceita, apesar de existirem conversas em que Viviane afirma estar adorando o serviço.
Portanto, avião e helicóptero não surgiram da imaginação de jornalistas. Vorcaro precisaria entregar pessoalmente a Moraes as chaves de um imóvel ou de uma aeronave para que existisse algo digno de investigação? Estamos falando, porém, de um contrato de cerca de R$131 milhões com o escritório da esposa do ministro, dinheiro com o qual é possível comprar mais de 20 casas nos bairros mais ricos de Brasília.
O jornalista poderia questionar: os elementos são autênticos? O que demonstram? Moraes recebeu ou respondeu aos pedidos? Qual foi sua participação nos contratos? Houve favorecimento? Por que seus filhos receberam cartões com limites de R$300 mil? O que houve na negociação envolvendo cotas de aeronaves?
Guimarães prefere começar pela resposta.
Primeiro, o contrato não existia. Depois, tornou-se impossível negá-lo. Agora, Vorcaro talvez tenha inventado os registros para incriminar Moraes.
Os fatos mudam. As desculpas mudam. Só permanece intocada a conclusão escolhida de antemão: Alexandre de Moraes precisa ser inocente.





