Em Moraes ou Mendonça?, publicado no Brasil 247 nesta terça-feira (01), Alex Solnik tenta defender Alexandre de Moraes diante das revelações sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Para isso, adota um método peculiar: publica uma longa conversa com uma inteligência artificial, formula perguntas cada vez mais favoráveis ao ministro e, finalmente, apresenta à máquina sua própria tese. Nem assim consegue obter a absolvição que procura.
Não chega a surpreender. Solnik já elogiou Moraes inúmeras vezes. Em um de seus textos, chegou a tratar o ministro como “xará”. Agora, diante de revelações comprometedoras, Solnik tenta novamente socorrer Moraes.
Nem escolhendo a pergunta
Depois de perguntar à IA sobre os crimes de responsabilidade dos ministros do STF, Solnik finalmente apresenta sua interpretação:
“O que é curioso nesse caso é o seguinte: há indícios de que Vorcaro e Moraes eram amigos, que Vorcaro pediu ajuda a Moraes, mas Moraes não o ajudou, tanto que o Master foi liquidado e ele foi preso.”
Em seguida, acrescenta que André Mendonça teria se precipitado ao divulgar o material e pergunta: “concorda?”
A pergunta já contém a conclusão desejada. Vorcaro pediu ajuda, mas acabou preso; portanto, Moraes não o teria ajudado.
A inteligência artificial foi até educada com Solnik. Respondeu: “Não concordo plenamente”.
O que vem depois, porém, é a rejeição do fundamental de seu raciocínio.
A própria IA observa que o fato de Vorcaro ter sido preso e o banco liquidado mostra apenas que não houve um “salvamento” capaz de impedir o resultado final. Isso não elimina, segundo ela, “a questão ética e institucional”. A resposta menciona ainda a proximidade entre os dois, pedidos de intervenção, o contrato milionário envolvendo o escritório da mulher de Moraes e possível conflito de interesses. Ao final, fala em “suspeitas sérias”.
A situação chega a ser cômica. Solnik escolhe a testemunha, formula a pergunta da maneira mais favorável ao acusado e, mesmo assim, não consegue que sua testemunha o absolva.
O “não concordo plenamente” foi uma gentileza da IA.
Um raciocínio primário
O argumento de Solnik é simplesmente ridículo: Vorcaro pediu ajuda, mas acabou preso. Logo, Moraes não o ajudou. O problema é que uma coisa não decorre da outra.
Uma tentativa de favorecimento pode fracassar. Pode produzir apenas efeitos parciais. Pode atrasar determinada medida sem impedir o resultado final. Alguém pode tentar interferir e simplesmente não conseguir alcançar aquilo que pretendia.
Se uma pessoa é acusada de tentar impedir uma prisão, o fato de a prisão posteriormente ocorrer não demonstra que a tentativa nunca existiu.
Pior ainda: uma parte das suspeitas envolvendo Moraes sequer depende de demonstrar que ele conseguiu impedir alguma medida contra Vorcaro.
A própria conversa publicada por Solnik menciona metadados segundo os quais Moraes teria participado da edição da minuta de um contrato de cerca de R$131 milhões entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, Viviane Barci de Moraes. A IA menciona também encontros, proximidade e pedidos feitos por Vorcaro.
A liquidação do Master não responde a nada disso.
Solnik transforma a prisão de Vorcaro numa espécie de certificado retroativo de inocência: como o banqueiro acabou preso, nada de suspeito poderia ter acontecido anteriormente.
Indício serve justamente para investigar
Outro recurso utilizado pelo colunista consiste em repetir que existem indícios, mas não provas definitivas de ilícito. O que é evidente, pois se já existisse uma condenação definitiva, não seria necessário investigar.
Ninguém precisa afirmar que as revelações já provaram criminalmente a atuação de Moraes. A questão é outra: existem elementos suficientemente graves para que o caso seja investigado?
A resposta da própria IA é afirmativa. Não declara Moraes culpado, mas insiste que a ausência de um “salvamento” bem-sucedido não elimina as suspeitas nem o possível conflito de interesses.
Solnik procura fazer uma troca muito conveniente: “ainda não foi provado” passa a significar “não há nada para apurar”.
Não é assim que funciona uma investigação.
‘Moraes ou Mendonça?’
Como não consegue eliminar as suspeitas contra Moraes, Solnik tenta deslocar o centro da discussão para André Mendonça.
Pergunta diretamente: “quem passou o inquérito para a imprensa? Mendonça?”. E resposta da IA é ainda menos ambígua: “não”.
Segundo a própria conversa publicada por Solnik, Mendonça retirou formalmente o sigilo do material por decisão judicial. A partir daí, os documentos tornaram-se públicos e a imprensa teve acesso a eles.
Em vez de questionar se Mendonça deveria ter retirado o sigilo, se escolheu o momento correto ou se adotou o melhor procedimento, Solnik insiste que clandestinamente se “passou” um inquérito sigiloso à imprensa.
Mais importante: mesmo que Mendonça tivesse cometido uma irregularidade, isso não inocentaria Moraes.
Diante das revelações sobre seu velho “xará”, Solnik chamou uma IA, conduziu a conversa, apresentou a tese que queria ver confirmada e perguntou se ela concordava. Mas nem assim conseguiu absolver Alexandre de Moraes.





