A carta publicada pelo jornal britânico The Guardian contra o governo iraniano não é apenas mais uma manifestação de intelectuais de esquerda em defesa de presos políticos. Segundo o jornalista Max Blumenthal, ela dá continuidade a uma operação promovida dentro da esquerda por setores ligados ao governo e aos serviços de inteligência dos Estados Unidos.
Entre os signatários estão Angela Davis, Judith Butler e Michael Löwy. Para Blumenthal, o objetivo é repetir contra o Irã a política levada adiante durante a guerra contra a Síria: dividir a esquerda e fornecer uma cobertura progressista à ofensiva do imperialismo.
“Essa carta representa uma continuação da campanha que foi trazida para dentro da esquerda por elementos externos alinhados à inteligência dos Estados Unidos e ao governo norte-americano”, afirmou.
Segundo ele, depois da vitória da política de mudança de regime na Síria, esses mesmos setores passaram a concentrar sua atividade contra o Irã.
“Agora que alcançaram seu objetivo na Síria, estão se dirigindo ao Irã e tentando dividir a esquerda sobre o Irã.”
A denúncia coloca a carta sob outra perspectiva. O Irã é justamente um dos principais países enfrentando a política norte-americana no Oriente Médio. É alvo de sanções, ameaças e sucessivas tentativas de desestabilização, ao mesmo tempo em que se opõe à dominação dos Estados Unidos e de “Israel” sobre a região.
Nesse quadro, organizar uma mobilização internacional da esquerda cujo alvo é o governo iraniano significa atuar politicamente no mesmo sentido da ofensiva imperialista.
Blumenthal chamou a atenção para um elemento comum a diversos nomes envolvidos nesse meio: a Haymarket Books, editora historicamente ligada ao International Socialist Organization (ISO), organização norte-americana que se apresentava como trotskista, embora não tenha nada de trotskista.
O jornalista chama ironicamente o grupo de “International PSYOP”, numa referência às operações psicológicas utilizadas pelos aparelhos de inteligência.
Segundo Blumenthal, o ISO apoiou políticas de mudança de regime em diversos países, entre eles a Venezuela, e seus integrantes atuaram para dividir o movimento de solidariedade à Palestina durante a guerra contra a Síria.
Também aponta a presença desse meio político em torno da revista Jacobin e das conferências socialistas realizadas em Chicago. Nesses encontros, segundo ele, chegaram a participar de debates sobre a China pessoas financiadas pela National Endowment for Democracy (NED).
A NED é apresentada por Blumenthal como um instrumento utilizado pela política externa norte-americana para financiar organizações e iniciativas políticas no exterior, funcionando como uma fachada para operações que interessam à CIA e ao governo dos Estados Unidos.
O caso mais importante levantado pelo jornalista é o de Yassin al-Hajj Saleh, um dos principais defensores da carta.
Saleh tornou-se uma referência entre os setores da esquerda que apoiaram a derrubada do governo sírio. Seu manifesto favorável à mudança de regime foi publicado justamente pela Haymarket.
Blumenthal lembrou ainda documentos do Departamento de Estado divulgados pelo WikiLeaks que, segundo ele, mostram Saleh informando a Embaixada dos Estados Unidos em Damasco sobre tentativas de unificar a oposição ao governo de Bashar al-Assad.
Saleh havia pertencido ao Partido Comunista sírio, mas integrava uma ala favorável à aliança com forças islamitas contra Assad. Blumenthal destaca particularmente a aproximação com a Irmandade Muçulmana síria.
Durante a guerra, grupos desse campo acabariam se aproximando ou se incorporando às forças fundamentalistas que dominaram a oposição armada ao governo.
Atualmente, Saleh dirige a publicação Al-Jumhuriya. Segundo Blumenthal, ela recebe recursos da Fundação Heinrich Böll, ligada ao Partido Verde alemão, e da European Endowment for Democracy.
O Partido Verde alemão tornou-se um dos sustentáculos da política militarista da União Europeia, apoiando “Israel” e a guerra por procuração da Otan contra a Rússia na Ucrânia.
Já a European Endowment for Democracy cumpre na Europa um papel semelhante ao da NED, financiando organizações e projetos políticos em países sobre os quais as potências imperialistas procuram exercer pressão.
São esses vínculos que Blumenthal coloca no centro da discussão sobre a carta.
Durante a guerra contra a Síria, setores que se apresentavam como socialistas ajudaram a vender como “revolução” uma ofensiva imperialista dos Estados Unidos e de seus aliados. Em nome da oposição ao governo de Assad, atacaram aqueles que denunciavam a intervenção imperialista e ajudaram a dividir a esquerda internacional.
Agora, a operação se volta para o Irã.
O método consiste em retirar do centro da discussão o conflito entre o imperialismo e um país oprimido e colocar no lugar dele a denúncia dos problemas internos do país atacado, no qual boa parte dos presos políticos são agentes do Mossad e quer a restauração da ditadura do Xá.
Assim, em vez de a esquerda dos países imperialistas concentrar sua luta contra Washington, Londres, Berlim ou Paris, passa a fazer campanha contra Teerã.
É uma inversão completa das tarefas da esquerda.
Os Estados Unidos não perseguem o Irã para libertar presos políticos ou defender direitos democráticos. Querem quebrar a resistência iraniana à dominação imperialista no Oriente Médio.
Angela Davis, Judith Butler, Michael Löwy e os demais intelectuais que assinaram a carta ajudam a dar um aspecto progressista a uma pressão dirigida pelo imperialismo.
O mecanismo denunciado por Blumenthal é evidente: organizações financiadas por aparelhos ligados ao governo norte-americano promovem determinadas campanhas, figuras da esquerda aderem a elas e a política dos Estados Unidos ganha uma cobertura “socialista” ou “humanitária”.
São os esquerdistas da CIA: falam em nome dos oprimidos enquanto ajudam a campanha contra um dos países mais atacados pelo imperialismo.
A Síria já mostrou aonde leva essa política. Agora querem aplicar a mesma receita ao Irã. No Brasil, os que fizeram exatamente esse jogo do imperialismo contra a Síria (nomeadamente o PSTU) também fazem contra o Irã, mostrando a quem eles servem.





