Uma reportagem do portal norte-americano The Grayzone expôs a atuação da iraniano-norte-americana Masih Alinejad, uma das principais figuras da campanha imperialista por uma “mudança de regime” no Irã, na perseguição a uma família iraniana que vive legalmente nos Estados Unidos. Depois de atacar seus integrantes publicamente nas redes sociais, Alinejad comemorou a prisão deles pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) e elogiou o secretário de Estado Marco Rubio pela medida.
Maryam Tahmasebi, seu marido, Eissa Hashemi, e o filho do casal, que cursa o ensino médio, são residentes permanentes legais dos Estados Unidos. Segundo relato de Tahmasebi publicado pela revista The Nation e reproduzido pelo The Grayzone, nenhum deles possui antecedentes criminais nem havia cometido qualquer infração migratória. Apesar disso, na ocasião da publicação, estavam presos havia mais de 120 dias em centros de detenção no Texas.
Tahmasebi e Hashemi são professores. Ela trabalha no Los Angeles Pierce College e o marido, na The Chicago School. O filho frequenta escolas da Califórnia desde antes do jardim de infância e, segundo a mãe, fala apenas inglês.
A perseguição ocorre em torno do parentesco de Hashemi com Masoumeh Ebtekar, cientista e política iraniana que participou dos acontecimentos posteriores à Revolução Iraniana de 1979. Ebtekar atuou como tradutora do grupo de estudantes que ocupou a embaixada dos Estados Unidos em Teerã e exigiu que o Xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto pela revolução e acolhido pelos norte-americanos, fosse devolvido ao Irã para responder por seus crimes.
Da campanha nas redes à prisão
Em 1º de abril, Alinejad publicou na rede social X um vídeo mostrando aquela que apresentou como a “casa luxuosa” dos Hashemi em Los Angeles. Na gravação, dirigiu-se à mãe do professor e atacou o filho por não condená-la publicamente por sua participação nos acontecimentos de 1979.
A provocação veio acompanhada de uma declaração que ganharia outro significado poucos dias depois. “Em um país livre como os EUA, seu filho tem a liberdade de dizer: ‘sou contra minha mãe, que invadiu a embaixada dos EUA’”, afirmou Alinejad.
No dia 9 de abril, agentes do ICE prenderam Hashemi sem aviso prévio à esposa e ao filho. Tahmasebi afirmou que somente descobriu seu paradeiro ao consultar a localização do telefone dele e perceber que o aparelho estava em uma instalação do ICE no centro de Los Angeles.
Quando conseguiu falar com o marido, ouviu dele que estava preso, mas que ela e o filho não seriam atingidos. No dia seguinte, porém, veículos do Departamento de Segurança Interna cercaram Tahmasebi e o adolescente diante da escola do garoto. Os dois foram algemados e levados pelos agentes.
Mãe e filho acabaram enviados ao Dilley Immigration Processing Center, no Texas, enquanto Hashemi permaneceu detido em outra instalação. Os três foram separados e levados para centenas de quilômetros de distância da vida que haviam construído na Califórnia.
O The Grayzone aponta para uma relação entre a campanha promovida por Alinejad e a ação do governo dos Estados Unidos. Um dos elementos destacados pela reportagem é que a própria ativista passou a reivindicar publicamente as prisões.
Poucos dias depois das prisões, Alinejad elogiou Marco Rubio e criticou o governo de Joe Biden por não ter utilizado uma lista preparada por ela com parentes de autoridades iranianas que viviam nos Estados Unidos. Sua cobrança era para que Washington adotasse medidas contra essas pessoas em razão de seus vínculos familiares.
‘Punição por linhagem’
Em seu relato, Tahmasebi definiu a perseguição como uma punição baseada no parentesco. Para ela, a prisão mostrou que sua trajetória individual deixou de ter qualquer importância diante da identidade de sua sogra:
“Você descobre que, em seu país adotivo, não apenas suas próprias ideias e realizações acadêmicas não importam, como agora, de alguma forma, você é responsabilizado por decisões que nunca tomou e por coisas que aconteceram antes mesmo de você nascer. Que você não tem uma identidade própria e que sua existência pode ser negada com base em relações. Isso é punição por linhagem.”
Mesmo depois de mais de quatro meses presa, Tahmasebi afirma que as autoridades impediram uma solução que, em tese, encerraria o caso. Ela e o marido decidiram pedir para deixar os Estados Unidos, abandonando a vida construída no país. Segundo seu relato, o governo se opôs à saída e chegou a indicar que poderia contestar judicialmente uma decisão que permitisse a libertação dos três para deixar o território norte-americano.
“Em outras palavras, eles querem continuar nossa detenção indefinida, sem nenhum fim à vista. Mas com que propósito?”, questionou.
Alinejad é apresentada pela imprensa imperialista como “ativista de direitos humanos” e defensora das mulheres iranianas, mas construiu sua carreira política nos Estados Unidos defendendo a derrubada do governo da República Islâmica e medidas cada vez mais agressivas contra seu país de origem.
Ela foi apresentadora da versão persa da emissora estatal norte-americana Voice of America (VOA), da qual recebeu, segundo o The Grayzone, contratos que somaram quase US$1 milhão. A reportagem afirma ainda, com base em telegramas diplomáticos vazados do Departamento de Estado, que Alinejad atuou como informante confidencial dos Estados Unidos após deixar o Irã.
O caso mostra o conteúdo concreto da campanha de “direitos humanos” promovida por esse setor da oposição iraniana. Enquanto denuncia a suposta repressão no Irã, Alinejad cobra do governo dos Estados Unidos medidas contra parentes de autoridades iranianas, celebra detenções realizadas pelo ICE e apoia ações militares contra a República Islâmica.
Segundo o The Grayzone, ela continua utilizando suas redes sociais para atacar militantes em defesa da Palestina, acusando-os de simpatia pelo “terrorismo”, além de promover campanhas sobre uma suposta ameaça da lei islâmica na Europa. Também participa de iniciativas destinadas a reunir opositores de países perseguidos pelo imperialismo, entre eles Irã, Rússia, Venezuela e Bielorrússia.
No início do ano, Alinejad manifestou apoio aos ataques dos Estados Unidos e de “Israel” contra o Irã e declarou que o assassinato do aiatolá Khamenei seria “um sonho”. Ela também passou a celebrar publicamente sua proximidade com Donald Trump, destacando inclusive ocasiões em que o presidente compartilhou suas publicações.
Tahmasebi, por sua vez, afirmou ter perdido a confiança que depositava no chamado “Estado de Direito” dos Estados Unidos. Ao pedir ajuda para que ela, o marido e o filho deixem os centros de detenção, fez um alerta:
“Se isso pôde acontecer conosco, uma família cumpridora da lei formada por dois professores e um garoto, pode acontecer com qualquer um.”




