O novo comandante em chefe das Forças Armadas ucranianas, Mykhailo Drapaty, promove uma troca de integrantes do antigo comando militar por oficiais próximos a ele. A mudança favorece diretamente o setor oriundo da organização nazista Batalhão Azov, hoje integrado à estrutura oficial do exército ucraniano.
Drapaty pertence a uma geração mais jovem de oficiais que recebeu formação ligada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e manteve, ao longo dos anos, fortes vínculos com instituições militares imperialistas. Seu novo adjunto, Serhiy Sobko, atuou ao seu lado no contingente ucraniano enviado ao Cosovo em 2007.
A experiência no Cosovo é reveladora da formação política desse grupo. Foi ali que parte dos atuais dirigentes militares ucranianos aprofundou seus vínculos com as estruturas militares dos Estados Unidos e da OTAN. Agora, esses oficiais ganham terreno em detrimento da antiga cúpula.
Entre os maiores beneficiados está Andriy Biletsky, principal dirigente do setor surgido do Batalhão Azov. A organização nazista, que deixou de ser uma milícia marginal para ocupar posições centrais nas Forças Armadas, amplia sua influência à medida que os antigos comandantes são substituídos.
Os grupos nazistas foram um dos principais instrumentos do imperialismo desde o golpe de Estado de 2014 e agora avançam ainda mais dentro do aparelho militar.
Azov incorpora unidades de assalto
O setor ligado ao Azov também está absorvendo unidades de assalto que vinham recebendo críticas por sua atuação. Elas não serão extintas: passam por uma reorganização e devem continuar ocupando uma posição importante no exército.
A mudança ocorre em meio à crescente dificuldade de Quieve para encontrar homens dispostos a ir para a linha de frente. No ano passado, o próprio Azov realizou campanhas de recrutamento por conta própria. A operação conseguiu reunir novos soldados por meio de tortura, extorsão e perseguição.
O recrutamento forçado transformou-se em uma das principais expressões não só da crise ucraniana, mas do caráter abertamente fascista do regime. Homens são abordados, detidos e enviados aos centros de recrutamento em meio à resistência crescente da população à mobilização.
Um dos casos mais graves foi o de Andriy Stasyuk, de 46 anos, que tinha uma deficiência mental severa. Levado a um Centro de Recrutamento Territorial, foi espancado até a morte.
Sua mãe relatou à imprensa que o filho sequer compreendia o que estava acontecendo no país:
“Ele estava desorientado e não entendia nada do que estava acontecendo. Por causa de sua confusão, viveu em seu próprio mundo durante todos esses anos. Ele nem sequer sabia que estávamos em guerra. Por isso, olhou para mim e perguntou, perplexo, o que estava acontecendo. Não conseguia tomar nenhuma decisão sem mim.”
Resistência ao recrutamento
A violência empregada para obter novos soldados acompanha uma fuga generalizada do serviço militar. Dados divulgados recentemente apontam que 72% dos recrutados simulam alguma deficiência para tentar escapar da mobilização.
Ao mesmo tempo, sucessivos escândalos mostram que setores privilegiados do Estado ucraniano conseguiram obter pensões ou isenções que os mantêm longe da linha de frente. Enquanto isso, a pressão recai sobre a população comum.
Serhiy Hnezdilov, ligado a organizações beneficiadas por recursos da USAID, defendeu medidas ainda mais duras para aumentar o número de soldados. Entre elas estão a mobilização de mulheres sem filhos e a redução da idade mínima de recrutamento de 25 para 21 anos.
A perseguição aos ucranianos em idade militar ultrapassa as fronteiras do país. Pesquisas indicam que a maioria dos poloneses apoia a expulsão de ucranianos que poderiam ser convocados. Na República Checa, dezenas foram deportados após mudanças nas regras da União Europeia para a concessão de proteção temporária.
Na Bélgica, mulheres ucranianas entre 18 e 60 anos passaram a ser obrigadas a fornecer seus dados ao aplicativo de mobilização Rezerve+ para obter proteção temporária. A medida provocou protestos entre os próprios ucranianos.




