Saeed Kamali Dehghan, ex-correspondente do jornal britânico The Guardian no Irã, admitiu que inventou uma entrevista com Sakineh Mohammadi Ashtiani publicada pelo diário em 7 de agosto de 2010. O material, apresentado aos leitores como uma exclusiva obtida por meio de intermediários, nunca aconteceu.
“Quero confessar algo sobre uma reportagem de primeira página que escrevi para o Guardian, publicada em 7 de agosto de 2010. Ela foi apresentada como uma entrevista exclusiva com Sakineh Ashtiani. Essa entrevista nunca aconteceu. Eu fabriquei o texto inteiro. Era uma história falsa, completamente falsa, e assumo total responsabilidade”, escreveu Dehghan em suas redes sociais.
A falsa entrevista foi publicada quando Sakineh estava no centro de uma ofensiva internacional contra o Irã conduzida por grandes órgãos de imprensa e organizações como a Anistia Internacional. O caso era apresentado no exterior principalmente como o de uma mulher que seria executada por apedrejamento por adultério.
O que as acusações do imperialismo não diziam era que Sakineh não estava sendo condenada por adultério, mas sim por ter assassinado o marido. Em julho de 2010, as autoridades iranianas anunciaram que o apedrejamento não seria realizado naquele momento. No Brasil, o caso levou o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva a oferecer asilo a Sakineh, declarando que o País a receberia “de braços abertos”. Ela não foi executada e posteriormente deixou a prisão.
Foi nesse contexto que o Guardian publicou a invenção de Dehghan como uma entrevista exclusiva. O correspondente seria escolhido naquele mesmo ano como Jornalista do Ano pela Associação da Imprensa Estrangeira de Londres. Mesmo após o reconhecimento público da fraude pelo autor, o texto continuava disponível no sítio do jornal britânico.
Dehghan trabalhou durante cerca de 15 anos para o Guardian e teve papel destacado na cobertura do Irã para a imprensa estrangeira. Seus trabalhos também apareceram em veículos como CNN, CBC, France 24 e Channel 4. Em 2009, acompanhou as manifestações organizadas após a eleição presidencial iraniana, exploradas internacionalmente em uma tentativa de desestabilização do governo do país.
O jornalista também foi coprodutor do documentário For Neda, da HBO, sobre Neda Agha-Soltan, morta durante os protestos realizados em Teerã naquele ano. A morte da jovem tornou-se uma das principais peças da propaganda utilizada no exterior contra a República Islâmica.
Em 2020, o próprio Dehghan afirmou ao Tehran Times que havia se arrependido de sua participação no documentário e que aceitara de maneira ingênua a versão difundida pelo imperialismo sobre o episódio.
“Fui ingênuo ao acreditar na versão ocidental sobre sua morte. Como jornalista, me enviaram ao Irã para humanizar sua narrativa, ingenuamente, mas desconhecia sua história. Quando obtiveram meu material, a partir de então, me converti em um ninguém, e me senti profundamente ferido pelo filme”, declarou.
No caso da reportagem sobre Sakineh, porém, não há sequer uma disputa sobre interpretação dos acontecimentos. Dehghan reconheceu que apresentou como entrevista uma conversa inexistente e escreveu ele próprio as declarações atribuídas à iraniana.



