Cerca de cinco mil trabalhadores rurais estão sob ameaça de despejo em Alagoas depois que a Justiça encerrou o processo de falência do Grupo João Lyra e extinguiu as obrigações da empresa, que acumulava uma dívida de R$3 bilhões.
A disputa envolve terras das antigas usinas Laginha, Guaxuma e Uruba. Com a quebra do grupo, milhares de trabalhadores perderam emprego e renda, enquanto parte das propriedades passou a ser ocupada por famílias que reivindicam sua destinação à reforma agrária.
Segundo o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), cerca de cinco mil pessoas foram diretamente atingidas pela falência. Enquanto os empregados ficaram desamparados, a família proprietária preservou seu patrimônio pessoal.
Entre 2011 e 2014, movimentos do campo ocuparam áreas das três usinas. A partir de 2016, começaram negociações envolvendo os trabalhadores, o governo estadual, a massa falida e o Tribunal de Justiça de Alagoas.
Pelo acordo discutido, os trabalhadores deixariam a Usina Uruba. Em troca, aproximadamente 1.500 hectares da Guaxuma seriam destinados às famílias, e as terras da Laginha seguiriam para a reforma agrária.
O compromisso não foi cumprido.
As famílias permaneceram nos acampamentos durante anos, esperando pelo assentamento. Agora, a decisão judicial que encerrou a falência abre caminho para que as propriedades retornem ao grupo.
A militante do MST Weldja Marques Lima afirmou que a medida representa, na prática, o perdão de uma dívida bilionária e coloca milhares de trabalhadores sob risco de expulsão.
A luta pela terra também foi marcada por denúncias de violência. Moradores dos acampamentos relatam ataques de pistoleiros. Maria Leorides dos Santos contou que diversas famílias deixaram a área por medo.
Há ainda denúncias sobre drones que teriam lançado produtos sobre plantações, com prejuízos às lavouras e problemas respiratórios entre crianças.
Em julho, os trabalhadores ocuparam durante uma semana o Palácio do governo, em Maceió, e conseguiram nova promessa de assentamento.
Depois de anos sem cumprir o acordo, o Estado ameaça retirar das terras justamente aqueles que perderam emprego e direitos com a falência. Para os usineiros, a Justiça extingue uma dívida bilionária. Para os sem-terra, sobra a ameaça de despejo.





