Política

Governo se reúne com banqueiros e planeja reduzir valor da aposentadoria

Equipe de Durigan estuda reajuste menor para benefícios do INSS poucos dias depois de ministro procurar Malan e Armínio Fraga

O Ministério da Fazenda estuda reduzir o reajuste dos benefícios do INSS em um eventual novo mandato de Lula. A proposta permitiria que o salário mínimo continuasse recebendo a valorização prevista atualmente, enquanto aposentadorias e pensões teriam um aumento menor.

A informação foi publicada pelo Valor Econômico e reproduzida pelo Poder360 na segunda-feira (24). Técnicos da equipe econômica fazem simulações para separar a correção dos benefícios previdenciários da regra aplicada ao salário mínimo.

O benefício não seria nominalmente reduzido. O aposentado, porém, receberia menos do que receberia caso a regra atual fosse mantida. A diferença aumentaria com o passar dos anos, reduzindo progressivamente o valor da aposentadoria em relação ao salário mínimo.

O objetivo é justamente gastar menos com a Previdência. A proposta aparece entre as alternativas discutidas pela Fazenda para conter o crescimento das despesas obrigatórias e demonstrar maior compromisso com o ajuste fiscal.

A notícia é especialmente grave porque surge poucos dias depois de Dario Durigan procurar Pedro Malan e Armínio Fraga para discutir a política econômica de um eventual quarto governo Lula.

Durigan parece ter escolhido muito bem de quem quer receber conselhos.

Conselho de banqueiro

Malan foi ministro da Fazenda durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso. Armínio Fraga presidiu o Banco Central no segundo mandato de FHC e possui vínculos históricos com o grande capital financeiro.

Os dois foram figuras destacadas da aplicação do neoliberalismo no Brasil, política que produziu privatizações em massa, arrocho contra os trabalhadores e enorme favorecimento dos bancos, um verdadeiro estupro da nação.

É com esses personagens que o atual ministro da Fazenda resolveu discutir o futuro da economia brasileira.

Pouco depois, torna-se público que sua equipe estuda economizar justamente sobre o pagamento dos aposentados.

Durigan poderia reunir-se com sindicatos, associações de aposentados ou organizações populares para discutir como elevar os benefícios. Poderia defender um aumento geral das aposentadorias ou medidas para recuperar as perdas acumuladas pelos trabalhadores.

Mas como ele é um capacho dos banqueiros, preferiu procurar representantes da política econômica de FHC.

O encontro não é um episódio isolado. Durigan também vem aplicando e planejando uma política cada vez mais favorável ao ajuste fiscal e à redução dos gastos públicos. O rumo indicado pelo ministro é cada vez mais claro: preparar um novo aperto contra os trabalhadores para satisfazer o grande capital.

Herdeiro de Haddad

Durigan é o continuador da política econômica de Fernando Haddad.

A troca no comando da Fazenda não significou uma mudança de rumo, mas sim o aprofundamento da política liberal. A prioridade continua sendo provar aos capitalistas que o governo está disposto a conter as despesas públicas, mesmo quando isso significa sacrificar salários, aposentadorias e serviços destinados à população.

Foi sob Haddad que o governo aprofundou a política de contenção dos gastos com o povo e multiplicou as chamadas concessões, nome utilizado para encobrir diferentes formas de entrega de patrimônio e atividades públicas ao capital privado.

Durigan não apenas herdou essa política como dá sinais de querer levá-la adiante.

Sua atuação nos Correios já indicava disposição para abrir espaço ao capital privado. Agora, a equipe econômica coloca as aposentadorias na mira.

O método é conhecido. Primeiro, apresenta-se determinada despesa social como um problema para as contas públicas. Em seguida, aparecem as propostas para reduzir seu crescimento.

Quando se trata dos aposentados, a Fazenda encontra rapidamente onde economizar.

E os juros?

O mesmo rigor não aparece quando o dinheiro público é destinado aos bancos.

A economia brasileira continua submetida a taxas de juros exorbitantes, que garantem aos especuladores uma transferência gigantesca de recursos por meio da dívida pública.

Essa despesa, porém, não provoca na equipe de Durigan a mesma preocupação despertada pelas aposentadorias.

Para o trabalhador que passou décadas contribuindo com a Previdência, fala-se em reajuste menor. Para o capital financeiro, preservam-se juros elevadíssimos.

É uma demonstração bastante clara de quem se pretende beneficiar com o chamado ajuste fiscal.

A política econômica do atual governo já está muito à direita. Além dos juros, houve cortes de despesas e avanço das privatizações disfarçadas de concessões. O que Durigan vem indicando para um eventual novo mandato é ainda mais preocupante.

A aproximação com Malan e Armínio Fraga mostra que o ministro não pretende enfrentar o neoliberalismo, mas buscar nele orientação para os próximos anos.

O PT paga a conta política

Esse caminho não atinge apenas os aposentados. Ele também desmoraliza politicamente o PT e a esquerda diante de milhões de trabalhadores.

Lula foi eleito com apoio decisivo da população pobre para impedir a volta da direita ao governo. Muitos desses eleitores esperavam uma política de aumento dos salários, defesa das aposentadorias, fortalecimento das empresas públicas e desenvolvimento econômico.

Quando o governo entrega justamente o contrário, abre um enorme espaço para seus adversários.

É também por isso que uma parcela dos trabalhadores abandonou o apoio ao PT e acabou atraída pela demagogia bolsonarista.

A direita representa os grandes capitalistas, mas consegue posar como oposição a um governo que adota uma política econômica favorável aos mesmos interesses. Quanto mais o PT se aproxima dos banqueiros, mais facilita essa fraude.

Depois, seus dirigentes procuram explicações para a perda de apoio entre a população.

Não há grande mistério. O trabalhador vota na esquerda e vê o Ministério da Fazenda discutir cortes com representantes do neoliberalismo. O aposentado espera valorização de seu benefício e descobre que técnicos do governo calculam como pagar menos nos próximos anos.

Durigan está se transformando é o ministro dos banqueiros dentro do governo Lula. Se depender da orientação que vem apresentando, a conta de um novo ajuste será novamente entregue aos trabalhadores e aposentados.

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