A carta aberta Aos prisioneiros políticos do Irã, presos “entre duas lâminas de uma tesoura”, publicada no The Guardian nesta quinta-feira (20), mostra que os momentos de crise são os mais importantes para revelar quem é quem.
O imperialismo, em sua pior crise, exige que todos se posicionem e mostrem fidelidade. Foi isso que fizeram vinte intelectuais que a esquerda vive elogiando, dentre os quais Angela Davis, Judith Butler, Rashid Khalidi e Michel Löwy.
O documento equipara o Irã, um dos países mais sancionados do mundo, aos Estados Unidos e a “Israel”; isso, em última análise, é uma defesa do imperialismo e do sionismo.
A falsificação começa logo no início, diz que “agosto marca o aniversário das execuções em massa de 1988 no Irã, um horror que ecoa na atual onda de sentenças de morte no país”. O texto omite que o governo iraniano mandou executar grupos de traidores que apoiaram o Iraque na guerra contra o país.
Para disfarçar sua adesão ao imperialismo, o texto diz que agosto “marca também o aniversário, em 19 de agosto, do golpe orquestrado pelo Reino Unido e pelos Estados Unidos contra o primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, em 1953.”
Logo em seguida, no entanto, escrevem que “em meio às atuais e indiscriminadas ondas de ataques militares norte-americanos e israelenses contra o Irã, esta carta de solidariedade denuncia a repressão do povo iraniano e de seus prisioneiros políticos pelas forças tanto internas quanto externas”.
Os ataques dos EUA e de “Israel” contra o Irã começaram no final de dezembro de 2025, quando manifestações legítimas, reconhecidas até pelo governo iraniano, foram infiltradas por agentes do Mossad e da CIA — no início de janeiro de 2026 —, e fizeram ataques que deixaram milhares de vítimas, inclusive crianças. O governo norte-americano e o sionista reconheceram a sabotagem.
As prisões são legítimas, a própria população iraniana reconheceu e saiu aos milhões às ruas em passeatas em defesa do governo. E se os signatários escrevem uma carta chamando os agentes do Mossad de “nossos companheiros e companheiras”, confessam de que lado estão: contra o povo iraniano.
O texto assume um ar choroso: “Escrevemos a vocês a partir de um lugar de profunda solidariedade, com o coração pesado pelo conhecimento da luta que enfrentam nas prisões iranianas: a tortura…” Infelizmente, o coração dessa gente não pesou pelos agentes de segurança mortos, decapitados ou incendiados vivos, ou pelos hospitais, bibliotecas e mesquitas incendiados pelos sabotadores.
“Como ex-prisioneiros”, segue a choradeira, “e atuais prisioneiros políticos, ativistas e acadêmicos comprometidos com o projeto global de abolição, antiautoritarismo e anti-imperialismo, vemos vocês através das distâncias geográficas e do silêncio da censura e dos apagões da internet. E nos solidarizamos com vocês, pois estão na interseção de duas fontes de opressão.”
Esse trecho mostra a venalidade desses intelectuais burgueses, pois os “apagões da internet” foram um recurso que o governo iraniano encontrou para evitar que os agentes do Mossad conseguissem receber ordens e coordenar os ataques.
Para surpresa de ninguém, os signatários criticam a Revolução Iraniana, que tirou do poder justamente o governo fantoche imposto ao país após o golpe contra Mossadegh. Nesse sentido, são cúmplices do golpe e da ditadura sanguinária de Reza Pahlavi, esse, sim, um torturador e assassino impiedoso.
“De um lado”, segue o texto, “vocês enfrentam a República Islâmica que, desde sua fundação, impôs um controle social e político absoluto baseado em uma ideologia excludente.” O que esses socialistas de gabinete acham que é uma revolução, tirar um governante e depois ir para a praia? A revolução tem que ser defendida, pois será assediada por todos os meios, inclusive por acadêmicos.
Adiante, o texto diz que o governo iraniano “é um sistema que afirma combater o poder imperialista enquanto utiliza sua própria lógica de dominação e seus sistemas de encarceramento, tortura e execução”. Errado, o governo não diz apenas, combate efetivamente. Foi ele que impôs aos Estados Unidos sua derrota mais humilhante desde a Guerra do Vietnã.
E não apenas isso; o Irã lutou contra uma coalizão de países na recente guerra de agressão que sofreu e revelou a enorme debilidade de “Israel”, um país fictício que tem forças armadas apenas para matar civis. Quando enfrenta soldados de verdade e um país armado, entra em crise. A Resistência Palestina produziu mais de 20 mil baixas no exército sionista, e a situação piorou com os bombardeios devastadores de mísseis balísticos iranianos.
Disfarce
Como esses intelectuais pseudo-esquerdistas não podem perder de uma vez sua clientela, criticam também o imperialismo, como se fossem contra tudo e contra todos, estivessem apenas ao lado da “democracia”.
É feita uma demagogia com o bombardeio da escola de “meninas inocentes em escolas”; fala-se do horror de 23 de junho de 2025, quando Israel atacou o “complexo prisional de Evin, destruindo sua ala hospitalar, sua seção para pessoas transgênero e seu centro de visitas”. Para então concordar que os presos se sentiam “presos entre as duas lâminas de uma tesoura, o regime maligno que [os] aprisiona e tortura e uma força estrangeira que lança bombas sobre [suas] cabeças em nome da liberdade”.
Para esses “esquerdistas”, Irã, imperialismo e sionismo são partes de um mesmo sistema de opressão, o que demonstra o quanto essa gente é criminosa. Os iranianos estão há décadas sob terríveis sanções; o país acaba de ser agredido covardemente pelo imperialismo. Mas, se são a mesma coisa, o ataque até que se justifica.
O texto parte para a calúnia, alega que, no último ano, “testemunhamos as duas lâminas da tesoura se tornarem mais afiadas”. Ou seja, se o governo iraniano prende, ou executa inimigos infiltrados, é uma das lâminas da tesoura que se torna mais afiada. Trata-se de um verdadeiro disparate que deve ser repudiado.
É inadmissível afirmar que vêem “a mesma lógica de dominação quando Israel utiliza a ‘detenção administrativa’ para manter prisioneiros políticos palestinos”. Esses intelectuais estão a soldo do imperialismo, vivem cercados de regalias em suas universidades e é isso que defendem, seus privilégios.
“A luta de vocês é tão global quanto nossos sonhos coletivos de liberdade e dignidade. Estamos ao lado de vocês e rejeitamos a falsa dicotomia entre imperialismo e um anti-imperialismo vazio”, assim escrevem os capachos do sionismo e do imperialismo. Se essa canalha não consegue enxergar a diferença entre um país oprimido e seus opressores, nem pode ser chamada de intelectual, muito menos de esquerda.
É preciso desmascarar esses que terminam esse texto a traidores com “em solidariedade e com amor”.
Assinam: Alberto Toscano, Angela Davis, Bernardine Dohrn, Bill Ayers, Cherríe L. Moraga, Dan Berger, Hossam el-Hamalawy, Jairus Banaji, Jason Stanley, Judith Butler, Keeanga-Yamahtta Taylor, Michael Löwy, Michael Mansfield, Ricardo Jiménez, Ruha Benjamin, Ruth Wilson Gilmore, Sinan Antoon, Walden F. Bello e Yasin al-Haj Saleh.





