O artigo Lula tende a ganhar, até no primeiro turno, de Emir Sader, publicado no Brasil 247 nesta segunda-feira (24), é o exemplo clássico do otimismo incorrigível de setores petistas, que se negam a tratar a realidade objetivamente.
As últimas eleições têm sido apertadas, a campanha de Lula vem sofrendo um bombardeio na grande imprensa, Flávio Bolsonaro não dá mostras de que irá recuar. Então, não há nenhum motivo para se acreditar que a eleição se resolva no primeiro turno. Na verdade, o futuro é bastante incerto. A prova disso é que o PT gastou milhões para fazer um comício na Vila Euclides. Talvez para tentar convencer o eleitorado de que o PT tem uma candidatura classista.
Sader alega que “qualquer análise minimamente imparcial aceitaria o favoritismo do Lula para ser reeleito presidente do Brasil. Todas as pesquisas o colocam em primeiro lugar, preveem sua vitória no primeiro e no segundo turno. Nenhum analista se arrisca a dizer que Flávio Bolsonaro vai ser o próximo presidente do Brasil.” As pesquisas apontam Lula e Flávio Bolsonaro empatados na margem de erro, e apenas
Na imaginação de Sader, os institutos de pesquisa não cravam o “favoritismo do Lula” porque supostamente “são prisioneiros da situação de perderem interesse” (sic!).
O articulista diz ainda que “algumas [pesquisas] chegam a apontar o resultado absurdo de quase empate entre os dois candidatos no segundo turno. Quem acredita, sinceramente, nessa possibilidade? O PT acredita, tanto que Lula acaba de pedir para seus eleitores que façam campanha corpo a corpo.
Emir Sader faz a seguinte pergunta retórica: “Mas então por que a mídia não aceita essa realidade e segue especulando sobre o tema?” Para reafirmar a tese estapafúrdia de que “o tema perderia importância se se rendessem à maior probabilidade. Os leitores perderiam interesse, porque a eleição está praticamente definida. As próprias pesquisas perderiam importância e teriam menor destaque na mídia e na opinião pública.” É muita imaginação.
Política neoliberal
Sader diz, em seguida, que “a Faria Lima prefere, claramente, Flávio Bolsonaro, que prega uma política neoliberal, a favor dos interesses do mercado e das grandes empresas”. O problema é que a política de Lula não está muito diferente disso, principalmente considerando os juros extremamente elevados. Além disso, a preferência por aquele não parece nada clara, visto que a grande imprensa o tem atacado sistematicamente, a despeito do esforço que Flávio Bolsonaro tenha feito para se apresentar como neoliberal.
A política de Flávio Bolsonaro, segundo Sader, “se opõe às políticas do governo Lula e, ainda mais, às que ele provavelmente pode colocar em prática em um quarto mandato, caso consiga ter maioria no novo Congresso.” Nesse ponto, o autor do texto deveria explicar por que Lula ainda não colocou em prática as tais políticas, e o que aconteceu de novo para que desta vez consiga [grifo nosso].
Em um determinado trecho, Sader faz uma consideração muito polêmica ao afirmar que Flávio Bolsonaro “opõe-se ao fortalecimento e à democratização do Estado, à prioridade das políticas sociais, à diminuição do desemprego. Estado forte significa mercado mais fraco. Diminuição do desemprego significa mão de obra com maior poder de negociação com os patrões, maiores salários e maior poder aquisitivo dos trabalhadores.”
O governo Lula não está democratizando o Estado; basta ver o número de novas leis que estão sendo criadas, censura às redes e apoio ao Supremo Tribunal Federal (STF), que instaurou no País uma verdadeira ditadura da toga.
Quanto ao desemprego, Lula não fortaleceu os sindicatos, não investiu na reindustrialização e nem tocou na questão do trabalho terceirizado, que é muito precarizado. Para piorar, o STF está segurando uma votação que pode simplesmente acabar com a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), podendo validar a contratação sem carteira assinada para atividades permanentes.
Terceira via
Sader escreve que “um Lula forte não é do agrado da Faria Lima”, mas o fato é que a burguesia não quer nenhum candidato forte; por isso colocou Jair Bolsonaro na cadeia e está minando sua candidatura na grande imprensa. Candidatos fortes são mais difíceis de controlar, pois estes têm base social, e o grande capital precisa de um candidato sem nada a perder, como um Milei, para impor uma política neoliberal agressiva que amenize a crise do imperialismo.
Ao contrário do que diz o jornalista, a direita não “está derrotada”; na verdade, ela está dando as cartas. Os supostos erros e contradições que aponta o texto, ou o fato de que esta “não consegue sequer alianças para fortalecer seu candidato”. Isso revela que ainda estão sendo realizadas articulações para se tentar viabilizar um candidato de terceira via. Por isso, não deve causar estranheza que “outros candidatos da direita se propõem até a substituir Flávio Bolsonaro como candidato”.
É uma péssima notícia para o trabalhador a notícia de que “entre o próprio empresariado há os que apoiam abertamente o Lula, pela perspectiva favorável para a economia e para o país”, pois todos sabem que os interesses dos patrões sempre estão no lado oposto aos dos trabalhadores. A crítica de que “entre o chamado Centrão (…) há uma tendência abertamente favorável ao Lula, com a consciência de que ele é favorito para se reeleger e essa corrente vive da proximidade com o governo e com os cargos que consiga obter, conforme a força parlamentar que consiga manter” não favorece o petista, pois o centrão é a base do governo Lula, que tem barrado tudo e mantém a presidência paralisada.
A leitura de Sader sobre esta eleição é otimista para seu lado, e catastrofista para o outro, para ele, “a própria direita, de alguma forma, está resignada à possibilidade de uma nova derrota eleitoral e trata de concentrar suas forças no Congresso, onde acredita que poderia colocar dificuldades a um novo governo Lula e negociar com ele em condições favoráveis. O autor coloca a questão assim, na condicional, no futuro do pretérito, de modo que não precisa olhar o que acontece hoje, no Cogresso, onde a direita controla amplamente e tem chances reais de aumentar sua vantagem. [grifo nosso]
Contra todas as evidências, Sader afirma que “o cenário político é favorável à reeleição do Lula. Conforme se iniciem os debates nos programas eleitorais, a força da presença e do discurso do Lula e a debilidade de Flávio…” Lula não foi ao primeiro debate, faz aquilo que criticava nos outros.





