Florestan Fernandes Jr. publicou no Brasil 247 um artigo para denunciar o uso eleitoral das acusações de corrupção contra Fábio Luís, filho de Lula. O problema é que, no mesmo texto, faz exatamente aquilo que denuncia quando o alvo é Flávio Bolsonaro.
Não dá para ter as duas coisas. Ou se compreende que o chamado “combate à corrupção” é uma das principais armas de manipulação política da direita brasileira, utilizada pela imprensa, pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Judiciário para fabricar escândalos, destruir reputações e interferir em eleições, ou se aceita esse método e depois não adianta reclamar quando ele se volta contra Lula.
Florestan explica corretamente o mecanismo quando fala de Lulinha: vazamentos seletivos, manchetes espetaculares, suspeitas transformadas em condenações antecipadas, associações indiretas apresentadas como provas e uma campanha prolongada até a eleição.
Logo depois, porém, muda completamente de critério. Sobre Flávio Bolsonaro, afirma que existem “provas irrefutáveis”, fala em rachadinhas, chocolates, mansão, Daniel Vorcaro e exige explicações à Justiça.
Ora, em que ficamos? Quando a imprensa publica suspeitas sobre Lulinha, trata-se de uma operação política para interferir na eleição. Quando publica suspeitas sobre Flávio, passa a ser jornalismo insuficientemente agressivo contra a corrupção?
A esquerda petista passou anos denunciando corretamente a Lava Jato como uma operação política. Lula foi transformado em criminoso nacional por meio de vazamentos, delações, manchetes, investigações policiais e decisões judiciais que tinham um objetivo evidente: retirá-lo da disputa política.
O “combate à corrupção” foi a embalagem moral de uma ofensiva golpista. Mas, em vez de tirar dessa experiência a conclusão necessária, parte da esquerda quer apenas inverter os personagens.
E ao mesmo tempo exige garantias, prudência, presunção de inocência e denúncia da manipulação eleitoral quando o atingido é alguém próximo a Lula.
Isso não é uma política coerente. É cair como um patinho na mesma armadilha que destruiu o PT anos atrás.
A questão nunca foi descobrir qual político é moralmente mais puro. Esse terreno pertence à direita.
O discurso anticorrupção transforma a luta política numa disputa policial: quem foi indiciado, quem recebeu dinheiro, quem aparece numa delação, quem tem uma casa, quem conhece um empresário, quem será chamado pela PF.
Foi exatamente assim que a burguesia conseguiu tirar a discussão das condições de vida dos trabalhadores, do salário, da Petrobras, dos bancos, das privatizações e do imperialismo para colocar todo o País discutindo apartamento, sítio, empreiteira e delação.
Agora querem repetir a fórmula contra Flávio Bolsonaro.
Florestan reclama que a imprensa dá destaque aos vazamentos contra Fábio Luís e pouco espaço às acusações contra Flávio Bolsonaro. Mas a saída não é exigir mais escândalo contra Flávio. É denunciar o próprio método.
Se a campanha de Lula depende de André Mendonça, Alexandre de Moraes, inquéritos, delegados e vazamentos favoráveis, então já começou derrotada politicamente. Porque amanhã o mesmo aparelho muda o alvo. Aliás, nem é preciso esperar amanhã. É exatamente o que o caso de Lulinha demonstra.
A Lava Jato deveria ter ensinado uma coisa elementar: quem aceita transformar a disputa política numa investigação criminal entrega à Polícia Federal, ao Ministério Público, ao Judiciário e à imprensa o poder de decidir a eleição.
Não existe “combate à corrupção” progressista quando atinge Flávio Bolsonaro e “lawfare” quando atinge o filho de Lula. Ou se denuncia a operação política por trás desse método, ou se legitima o método inteiro.



