A frente ampla montada pelo PT em São Paulo começa a encontrar apoio dentro da própria base política de Tarcísio de Freitas. O PSD de Gilberto Kassab decidiu que não vai impedir seus prefeitos de fazer campanha para Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado na coligação de Fernando Haddad (PT).
Formalmente, o PSD paulista está do outro lado. A legenda integra a composição que apoia Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL) ao Senado. Mesmo assim, seus dirigentes descartaram punir os prefeitos que preferirem apoiar Tebet. Segundo a Folha de S.Paulo, vários deles já vinham manifestando interesse em se aproximar da candidata.
A decisão tem importância porque Kassab controla a maior rede de prefeituras de São Paulo. O PSD venceu em 206 dos 645 municípios paulistas nas eleições de 2024. Na semana anterior ao anúncio, Kassab e Tebet participaram do mesmo encontro da Associação Paulista dos Municípios, em São Carlos, onde posaram juntos para fotografias.
Kassab não é um dirigente de um partido que esteja rompendo com a direita. O PSD é uma das principais forças de sustentação do governo Tarcísio em São Paulo e Kassab participa da chapa presidencial de Ronaldo Caiado como candidato a vice. No Rio de Janeiro, a legenda já entrou na frente ampla em torno de Eduardo Paes.
Agora, em São Paulo, o mesmo partido que participa do governo instalado no Palácio dos Bandeirantes pode ajudar a eleger a candidata ao Senado da coligação petista.
Tebet também não chegou por acaso a esse ponto de encontro entre o PT e a direita.
A atual candidata do PSB passou grande parte de sua carreira no MDB, é ligada aos grandes proprietários rurais de Mato Grosso do Sul e participou diretamente do golpe contra Dilma Rousseff. Em 2016, quando chegou a hora de decidir o destino do governo petista, Tebet votou pelo impedimento da presidenta.
Dez anos depois, aparece como candidata numa coligação dirigida pelo PT e recebe sinais favoráveis justamente de políticos que continuam organizados com a direita.
A mudança de partido e a passagem pelo governo Lula não transformaram sua trajetória. Muito menos apagaram os interesses sociais aos quais esteve vinculada durante toda sua carreira.
É por isso que a aproximação com o PSD é tão esclarecedora.
Tebet não está atraindo prefeitos de Kassab porque eles tenham aderido à política de Lula ou decidido combater Tarcísio. Eles podem continuar apoiando normalmente o governador paulista e, ao mesmo tempo, trabalhar pela eleição dela ao Senado.
Para os dirigentes do PSD, não há grande dificuldade nisso. A candidata é politicamente compatível com os setores que o centrão, essa corja de bandidos, representa.
Quem deveria encontrar alguma dificuldade é o PT.
A direção petista apresenta a ampliação de suas alianças como uma maneira de fortalecer Lula e derrotar a direita. Na prática, acaba promovendo candidatos que possuem vínculos próprios com essa mesma direita e que não terão qualquer motivo para obedecer ao governo depois das eleições.
Caso Tebet seja eleita e Lula conquiste um novo mandato, não há razão para imaginar que ela funcionará como uma senadora disciplinada do governo.
Seus aliados estarão espalhados pelo MDB, pelo PSD, pelo grande empresariado e pelo latifúndio. Parte da estrutura que pode ajudá-la a chegar ao Senado está, neste exato momento, trabalhando pela reeleição de Tarcísio e pela candidatura presidencial de Caiado.
Quando surgir um conflito entre o governo e esses setores, é fácil prever para qual lado penderá uma política formada nesse meio.
O PT já fez essa experiência.
Durante os governos anteriores, o partido acumulou alianças com representantes tradicionais da burguesia sob o argumento de que elas seriam necessárias para garantir estabilidade política. Em 2016, quando a burguesia decidiu derrubar Dilma, esses aliados ajudaram a realizar o golpe – Michel Temer (MDB), o então vice-presidente, que o diga.
Tebet estava entre esses “amigos da onça”.
A resposta da direção petista à experiência de 2016 foi ampliar ainda mais a mesma política. Uma senadora que votou pela derrubada de Dilma tornou-se ministra de Lula e agora é oferecida ao eleitorado paulista como parte de uma composição contra a direita, posando em passeatas ao lado de Haddad, Márcio França, Érika Hilton e Sâmia Bomfim.
Ao mesmo tempo, o partido de Kassab percebe que pode colaborar com sua eleição sem abandonar absolutamente nada de sua própria política.
A direção do PT aceita o acordo porque sua prioridade continua sendo montar a maior coligação eleitoral possível. Para conseguir isso, cabe praticamente todo mundo: antigos golpistas, representantes do latifúndio e dirigentes de partidos que são a base de sustentação de governos da extrema-direita.





