Eleições 2026

Com três candidatos, debate na Band vira palanque anti-Lula e anti-Flávio

Ausência do presidente deixou o palco livre para ataques da direita

O primeiro debate presidencial das eleições de 2026, realizado pela Band em parceria com o Estadão neste domingo (23), reuniu apenas três dos seis candidatos convidados. Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) ocuparam o estúdio, enquanto Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não compareceram.

Debate esvaziado

O encontro começou às 20 horas, em São Paulo, com transmissão pela Internet desde as 19 horas e cobertura televisiva a partir das 19h30. Além da Band, o programa foi retransmitido pela BandNews, pelas rádios do grupo e por uma união de canais formada por TV Cultura, TV Gazeta, Jovem Pan e Estadão.

O formato reservava um minuto para cada pergunta e quatro minutos, administrados pelo candidato, para resposta, réplica e tréplica. A Band manteve no cenário os púlpitos dos ausentes. O sorteio havia colocado os participantes na seguinte ordem: Renan Santos, Lula, Flávio Bolsonaro, Caiado, Cury e Zema.

Foi o menor número de candidatos em estúdio em um debate presidencial desde 1989. Pela primeira vez desde a redemocratização, nenhum dos dois nomes que lideram as pesquisas participou. A ausência do favorito, por sua vez, tornou-se recorrente nas campanhas presidenciais desde 1989; a exceção foi 1998, quando não houve debate.

A Lei das Eleições obriga as emissoras a convidar os candidatos de partidos com pelo menos cinco congressistas, mas não exige que eles compareçam. A Band chegou a transferir o debate de 16 para 23 de agosto na tentativa de assegurar a presença de Lula, sem sucesso. A lei também não impede a emissora de convidar outros candidatos, motivo pelo qual Renan Santos foi chamado. Ao mesmo tempo, candidaturas da esquerda, como a de Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária (PCO), não foram convidadas.

O presidente decidiu participar no primeiro turno apenas dos debates considerados de grande audiência, como o da Globo, e não reservou tempo na agenda para se preparar para o encontro da Band. Flávio Bolsonaro condicionou sua presença à de Lula, calculando que, sem o petista, passaria a concentrar os ataques. Mesmo assim, sua equipe retirou todas as credenciais disponíveis, o que levou a emissora a considerar até o último momento a possibilidade de seu comparecimento.

Romeu Zema anunciou a desistência somente às 12h01 de domingo. O candidato do Novo alegou ter aceitado a mudança de data porque esperava que Lula participasse.

Augusto Cury também ameaçou abandonar o encontro. Ele chegou à emissora por volta das 19h15, permaneceu do lado de fora e abriu uma transmissão no Instagram para dizer que estava “magoado” com as ausências. Chamou o debate de “teatro” e de “irresponsabilidade”, entrou no carro para ir embora e, depois de ser questionado por jornalistas, voltou atrás. Disse que participaria em respeito à Band e aos profissionais presentes.

Ataques sem resposta

Renan Santos chamou Lula e Flávio Bolsonaro de “covardes”, “canalhas” e “criminosos”. Contra o presidente, mencionou as investigações envolvendo Lulinha, o Petrolão e o Mensalão. Contra Flávio, citou sua ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro. Antes do debate, ao lado de Kim Kataguiri e Amanda Vettorazzo, mostrou duas fraldas geriátricas com os nomes dos ausentes.

Caiado afirmou que Lula e Flávio haviam “fugido” devido aos índices de rejeição e chegou a defender a cassação dos registros dos dois por não comparecerem. A proposta não possui base na legislação eleitoral.

Cury acusou Lula de desrespeitar a democracia porque, no mesmo horário, concedeu uma entrevista à Record. Assim, até o candidato que por pouco não desistiu na porta da emissora procurou apresentar a ausência do petista como uma afronta ao eleitorado.

Propostas apresentadas

Nos trechos dedicados às propostas, Caiado defendeu o confisco dos bens de agressores de mulheres, penas de 20 a 40 anos sem redução antes do cumprimento de 90% da sentença e a construção de 40 presídios.

O candidato do PSD propôs ainda integrar tecnologicamente as forças de segurança e enquadrar as facções como organizações de “terrorismo doméstico”.

Renan Santos defendeu uma intervenção federal nos estados que não adotarem suas medidas contra o crime organizado. Na economia, apresentou alterações na legislação trabalhista em nome do “empreendedorismo” e atacou a redução da jornada de trabalho, classificada por ele como uma “promessa falsa” de Lula.

Cury falou em “repaginar” as embaixadas e prometeu ajustar a jornada de trabalho para atender simultaneamente empresários e trabalhadores, sem explicar como faria isso. Também propôs dividir o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em dois braços, um para grandes empresas e outro para micro e pequenas, e dobrar a produção agrícola brasileira em dez anos.

Marçal barrado pelo TSE

Pablo Marçal (PRTB) pediu formalmente para participar, mas foi impedido por uma decisão da Justiça Eleitoral. Em 20 de agosto, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) concedeu por unanimidade uma liminar que proíbe o candidato de fazer campanha, participar de debates, utilizar o horário eleitoral gratuito e ter acesso aos fundos eleitoral e partidário.

A relatora, ministra Estela Aranha, alegou haver risco no uso de recursos públicos por uma candidatura cujo registro está sob contestação. A medida foi concedida a pedido do Ministério Público Eleitoral, que também requer o indeferimento da candidatura.

Marçal está inelegível até 2032 em razão de uma condenação relacionada à campanha municipal de São Paulo, em 2024. Ele foi acusado de promover concursos com prêmios para estimular a disseminação em massa de conteúdo eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) rejeitou seus embargos em 5 de agosto.

Antes do debate, Marçal prometeu ir à emissora “de qualquer jeito, do lado de dentro ou do lado de fora” e transmitir pelas próprias redes a partir da portaria. As campanhas dos três participantes também pressionaram a Band por sua exclusão, alegando que o PRTB não tomara parte na negociação das regras.

Lula escolhe entrevista gravada

No lugar do debate, Lula apareceu em uma entrevista gravada no Palácio da Alvorada por Mariana Godoy e exibida às 20h30 no Domingo Espetacular, da Record. Foi a primeira manifestação pública do presidente sobre as investigações que envolvem seu filho Fábio Luís e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete.

Lula afirmou que não interferirá na Polícia Federal nem nas investigações. Procurou diferenciar sua conduta da de Jair Bolsonaro, declarando que não ameaça ministros nem delegados. O presidente também falou sobre segurança pública, educação e o telefonema que recebeu de Donald Trump na sexta-feira (21), descrito por ele como “civilizado”.

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