Valério Arcary publicou no Brasil 247 um artigo para defender uma política velha e desastrosa: subordinar a esquerda à chamada frente ampla em nome do combate à extrema direita.
Ele escreve:
“Nossa aposta na revolução brasileira não deve nos impedir de ser um ponto de apoio para que a esquerda moderada liderada por Lula se mantenha no governo.”
A frase resume tudo. A “revolução” fica para os discursos. Na política concreta, Arcary propõe que a esquerda sirva de apoio a uma coalizão construída para manter os trabalhadores presos aos limites impostos pela burguesia.
Arcary tenta justificar essa capitulação apresentando Flávio Bolsonaro como uma ameaça catastrófica. É uma chantagem política.
O bolsonarismo não surgiu apesar da burguesia brasileira. Surgiu graças à ofensiva dessa burguesia contra os trabalhadores. Foram grandes empresários, banqueiros, monopólios da imprensa e setores do imperialismo que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff, a Operação Lava Jato, a prisão de Lula, Michel Temer e, finalmente, Bolsonaro.
A mesma classe dominante que abriu a estrada para a extrema direita aparece agora, na política da frente ampla, fantasiada de defensora da democracia. A frente ampla parte de uma falsificação: a ideia de que existiria um campo “democrático” acima das classes sociais, reunindo trabalhadores e setores da burguesia contra o fascismo.
A burguesia defende a democracia enquanto ela protege seus bancos, propriedades, lucros e privilégios. Quando seus interesses são ameaçados, não hesita em apoiar golpes, perseguições políticas e regimes de força.
Por isso, colocar os trabalhadores a reboque desses setores não fortalece a luta contra a direita.
O artigo chega ao absurdo de definir o reformismo pela colaboração de classes e, em seguida, recomendar exatamente essa política. Arcary escreve que o reformismo “defende a regulação do capitalismo ou a colaboração de classes”.
Pouco depois, propõe que os revolucionários sejam um “ponto de apoio” para a política dirigida pela esquerda moderada. Então qual é a diferença prática?
Se, no momento em que a disputa política se torna decisiva, os supostos revolucionários devem abandonar sua independência e sustentar a mesma coalizão de colaboração de classes, o revolucionarismo vira decoração.
A ameaça da extrema direita é usada por Arcary para bloquear qualquer alternativa independente.
Derrotar o bolsonarismo exige atacar suas bases sociais e políticas: os grandes capitalistas que o financiaram, o imperialismo que utiliza a direita brasileira como instrumento e o regime político que perseguiu a esquerda enquanto protegia seus próprios golpistas. É exatamente isso que a frente ampla impede.



