O editorial Derrotar Trump está em nossas mãos, publicado no sítio Esquerda Online neste domingo (16), tem um título bastante otimista, mas, principalmente, esconde uma política de colaboração de classes. A esquerda mal consegue convocar um 1º de Maio, mas já se vislumbra derrotando Donald Trump.
Na verdade, trata-se apenas da política da democracia versus fascismo que a esquerda pequeno-burguesa abraçou.
O Esquerda Online, por meio de Valerio Arcary, já defendeu que a esquerda deve se mudar de mala e cuia para a casa da democracia liberal que, supostamente, estaria enfrentando o fascismo, ainda que ninguém deva levar a sério que o imperialismo tenha realmente alguma contradição fundamental com a extrema direita.
Dando ênfase às eleições, o texto diz que “começa a campanha oficial das eleições mais importantes para o Brasil desde a redemocratização. Nos próximos 49 dias, o país será objeto de crescente pressão e intervenções diretas do imperialismo sob Trump, que busca criar justificativas para colocar em dúvida a legitimidade do processo eleitoral por meio da desinformação, da manipulação algorítmica e de factoides para produzir a ‘narrativa’ de que o Brasil é incapaz de governar a si próprio.”
As intervenções nos processos eleitorais do imperialismo começaram logo após o término da II Guerra Mundial. De qualquer forma, a onda recente se deu a partir de 2009 com o golpe judicial em Honduras.
A pressão de Biden sobre as eleições da Venezuela foi gigantesca, levou à guerra na Ucrânia e ameaçou a China; de modo que Trump se tornou um espantalho que serve para justificar a adesão da esquerda à política do Partido Democrata. Jair Bolsonaro, no Brasil, cumpriu a mesma função.
Factóides sempre houve, e as manipulações não são novidades, para isso, o imperialismo conta com o auxílio da grande imprensa.
O texto faz grande alarde sobre um “vídeo divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA na última semana [que] não deixa margem para dúvidas: Trump quer acabar com a soberania dos países latino-americanos, e submeter o Brasil é seu objetivo estratégico. Derrotar Lula é hoje a máxima prioridade do imperialismo, e qualquer subestimação do perigo seria um erro fatal.
Sim, ele quer, como todos os outros também o quiseram; a única “vantagem” é que Trump deixa às claras.
O Esquerda Online conclui, por conta do vídeo, que “não é exagero caracterizar Trump como o adversário a ser derrotado nas eleições brasileiras”, e que “Flávio Bolsonaro é o representante direto do imperialismo no país, relação provada por sua participação na imposição do tarifaço e nos ataques ao Pix.”
Essa caracterização é útil porque assim ninguém questiona as alianças que estão sendo feitas com a direita; afinal, vale tudo para derrotar o fascismo: “É hora de concentrar esforços.”
A maioria da esquerda, por estar atrelada ao STF, aliado ocasional do governo Lula, não consegue entender quando Flávio Bolsonaro reclama que “sua candidatura é perseguida” e que apenas a “liberdade de expressão” neofascista é atacada no Brasil, que as urnas eleitorais são fraudadas.” Afinal, quem poderia imaginar que a burguesia pudesse fraudar urnas? Que sacrilégio!
Embora a cada eleição o Tribunal Superior Eleitoral invente novas regras e cada vez mais draconianas, o Esquerda Online alerta que “tensionar as regras eleitorais ao limite será política recorrente da aliança Trump-Flavio Bolsonaro.”
Para o EO, “a esquerda brasileira encontrou um caminho”: “Trata-se da mobilização de eixos e bandeiras que têm maioria social para agrupar nossas forças e, inclusive, recuperar setores populares deslocados pelo bolsonarismo. Devemos vocalizar ideias que alimentam a esperança…”
“A primeira dessas bandeiras, que deve ser erguida sem vacilações por nosso campo, é a do Brasil.” Ou seja, vai brigar pelo verde e amarelo com os bolsonaristas. Realmente, é “muito importante”.
“Outro tema evidente é a defesa da vida das mulheres, que a extrema-direita tem reconhecida dificuldade de abordar” e “a defesa da criminalização do ódio às mulheres”. Como se sabe, no Brasil as mulheres são odiadas.
“Fim da escala 6×1. Que tem sido uma bandeira difusa e que depende do Congresso para ser aprovada.
“O combate às bets, verdadeiras lavanderias de dinheiro para o crime organizado e promotoras de endividamento e dependência para milhões de famílias”, ou seja, não são os bancos e a política de juros extorsivos que estão endividando as famílias brasileiras, mas as casas de apostas.
Como se pode ver, as tais bandeiras, tirando a questão da escala, não mobilizam ninguém, exceto a classe média, e, para piorar, o grupo ainda adere à política de censura do imperialismo, propondo “regulamentar as redes sociais”.
Frases bombásticas
Como não existem propostas concretas para a classe trabalhadora, o texto aparece com frases do tipo “Defender o Brasil na encruzilhada da História”, tentando com isso dizer que “estamos diante de ameaças inéditas ao Brasil e ao povo brasileiro. Em outubro, nosso país decidirá entre a recolonização e a autonomia, o fascismo ou a democracia, entre um futuro melhor e o retrocesso brutal.”
Não são ameaças inéditas, e esse clima de apocalipse serve apenas para convencer os eleitores de que é preciso colaborar com o “campo democrático” para derrotar o fascismo.
Em um apelo final pelo voto, o Esquerda Online diz que “a esquerda brasileira tem se mostrado à altura de seus desafios históricos”, mas isso não é verdade.
A unidade das “forças populares” em torno de Lula conta com a presença de figuras como Marina Silva e Simone Tebet, além do apoio a candidaturas de direita no Rio de Janeiro e outros estados.
O texto fecha dizendo que “depende de todos e todas nós, da nossa organização e da luta pela reconquista de maioria social. Você, que defende um Brasil soberano, a vida das mulheres, a classe trabalhadora e o povo brasileiro em geral — se engaje, participe das ações de campanhas”. A dificuldade será convencer de que, unindo-se a políticos da direita, conseguirão melhorar suas vidas.
Aliás, essa esquerda eleitoreira deveria dizer a verdade para os trabalhadores: não conseguiremos nada por meio do voto; a única saída é o enfrentamento com a burguesia e sua derrota.




