Luisa González, principal dirigente da Revolución Ciudadana (RC) e duas vezes candidata à Presidência do Equador, tornou-se novamente alvo do aparato estatal equatoriano. Sua candidatura ao governo provincial de Manabí foi impugnada pela Acción Democrática Nacional (ADN), partido do presidente Daniel Noboa, ao mesmo tempo em que o Ministério Público abriu uma nova investigação contra ela.
Como a Revolución Ciudadana está suspensa, González registrou sua candidatura pelo Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik, Lista 18. A contestação foi apresentada à Junta Provincial Eleitoral de Manabí por Mishel Mancheno, secretária nacional da ADN e presidente da Assembleia Nacional.
No mesmo período, González recebeu pelo celular uma notificação informando a abertura de uma investigação por suposta concussão.
“Hoje, como era de se esperar, dois fatos: ADN impugna minha candidatura. Procuradoria entra no jogo e me notificam pelo celular, outro processo”, escreveu no X.
A ex-candidata presidencial afirmou que continuará na disputa. “Render-nos não é opção porque nossa Pátria vale a pena”, declarou.
A perseguição contra González ocorre depois de quase uma década de transformação do Estado equatoriano em instrumento contra o correísmo. Esse processo começou com a traição de Lenín Moreno a Rafael Correa, passou pela reconstrução dos principais órgãos judiciais e eleitorais e desembocou no atual governo de Noboa, estreitamente associado aos Estados Unidos.
Da traição de Moreno à perseguição contra Correa
Moreno chegou à Presidência em 2017 eleito pela Alianza PAIS e com o apoio de Correa. Poucos meses depois de tomar posse, voltou-se contra o antigo aliado e restaurou a política neoliberal que havia sido freada pelas reformas sociais de Correa.
Primeiro, retirou os poderes do vice-presidente Jorge Glas. Depois, em fevereiro de 2018, convocou uma consulta popular fraudulenta que eliminou a possibilidade de reeleição indefinida e, na prática, bloqueou uma eventual volta de Correa à Presidência.
Outra pergunta da consulta permitiu desmontar o Conselho de Participação Cidadã e Controle Social e colocar em seu lugar um órgão transitório. Entre 2018 e 2019, esse conselho afastou dezenas de altos funcionários e substituiu os responsáveis por instituições como o Conselho da Judicatura, a Corte Constitucional, o Conselho Nacional Eleitoral e a Procuradoria.
Foi durante o governo Moreno, portanto, que boa parte das carcomidas instituições posteriormente utilizadas contra os adversários políticos foi recomposta.
Correa perdeu também o controle da Alianza PAIS. Seus apoiadores tiveram de disputar sucessivas eleições por outras legendas até obter o registro da Revolución Ciudadana.
Em 2020, o próprio ex-presidente foi condenado a oito anos de prisão e teve seus direitos políticos suspensos no caso “Sobornos 2012-2016”. Correa denuncia o julgamento como uma manobra para impedir seu retorno ao País e à disputa eleitoral. Desde 2022, vive sob asilo político na Bélgica.
A perseguição contra Jorge Glas prosseguiu ainda mais abertamente. Em abril de 2024, policiais equatorianos invadiram a embaixada do México em Quito para capturá-lo, poucas horas depois de o governo mexicano conceder asilo diplomático ao ex-vice-presidente.
A violação da embaixada levou o México a romper relações com o Equador e foi condenada até mesmo pela Organização dos Estados Americanos, uma agência do imperialismo na região, por 29 votos contra um. O único voto contrário foi o do próprio Equador.
Uma eleição cercada por fraudes
Luisa González enfrentou Noboa novamente nas eleições presidenciais de 2025. No segundo turno, o Conselho Nacional Eleitoral anunciou 55,8% dos votos para o presidente e 44,2% para a candidata da RC.
González recusou o resultado e denunciou uma fraude eleitoral.
“Denuncio diante do meu povo, da imprensa e do mundo que o Equador está vivendo uma ditadura e estamos enfrentando a mais grotesca fraude eleitoral da República do Equador”, afirmou.
A Revolución Ciudadana pediu recontagem, abertura das urnas e auditoria internacional. O partido apontou, entre outras irregularidades, 1.984 atas sem as assinaturas exigidas e 1.526 documentos nos quais, segundo a organização, o total de votos não correspondia ao número de eleitores.
Em maio de 2025, o Tribunal Contencioso Eleitoral arquivou o recurso alegando que ele havia sido apresentado antes de terminado o procedimento administrativo no Conselho Nacional Eleitoral.
A votação também ocorreu sob forte presença militar. Na véspera do segundo turno, Noboa decretou estado de exceção em seis províncias, em Quito e em outras regiões. Mais de 106 mil policiais e militares foram mobilizados, quase 10 mil a mais que no primeiro turno.
Justiça eleitoral contra os adversários
Outros políticos que entraram em conflito com Noboa também foram atingidos.
Verónica Abad, eleita vice-presidente na própria chapa presidencial, rompeu com o chefe do Executivo e o denunciou por violência política de gênero. A acusação foi rejeitada. Depois, em processo movido pela chanceler Gabriela Sommerfeld, Abad foi condenada à perda de seus direitos de participação política.
Jan Topic, candidato situado à direita de Noboa, também foi retirado das eleições de 2025 pelo Tribunal Contencioso Eleitoral, apesar de o Conselho Nacional Eleitoral ter considerado não comprovada a existência de contratos que o impediriam de concorrer.
Já processos envolvendo o presidente e integrantes da ADN tiveram desfechos diferentes. Denúncias de campanha antecipada e uma ação relacionada ao fato de Noboa não ter se afastado da Presidência durante a campanha foram arquivadas.
Fernando Muñoz, antigo presidente do próprio Tribunal Contencioso Eleitoral, foi afastado do cargo em 2024 e, no ano seguinte, multado depois de admitir um recurso contra Noboa.
Partido de González foi suspenso
A repressão passou a atingir diretamente a participação da oposição nas eleições deste ano.
Em janeiro, agentes realizaram buscas na residência de Luisa González e em outros imóveis ligados ao correísmo dentro da investigação denominada “Caja Chica”, sobre um suposto financiamento irregular da campanha presidencial de 2023.
Em março, o Conselho Nacional Eleitoral mudou a data das eleições locais, originalmente previstas para fevereiro de 2027, e marcou o pleito para 29 de novembro de 2026.
Na mesma época, o Ministério Público pediu a suspensão da Revolución Ciudadana. A medida foi concedida por nove meses pelo juiz Joaquín Viteri e posteriormente mantida pela Corte Constitucional.
Assim, durante todo o prazo para registro das candidaturas, entre 2 e 17 de agosto, a principal organização de oposição a Noboa estava proibida de participar das eleições com sua própria legenda.
González encontrou no Pachakutik uma maneira de permanecer na disputa. A reação do partido governista foi pedir a impugnação de sua candidatura.
O prefeito de Guayaquil, Aquiles Álvarez, outra importante figura ligada ao correísmo, também está preso desde fevereiro. Ele foi enviado à prisão de segurança máxima El Encuentro depois de ser acusado de crimes como delinquência organizada, lavagem de dinheiro e fraude tributária. Antes da prisão, Noboa já o chamava publicamente de “prefeito criminoso”.
Governo sustentado pelos Estados Unidos
Enquanto persegue seus adversários, Noboa amplia a presença norte-americana no Equador.
Pouco antes do segundo turno de 2025, reuniu-se com Donald Trump em Mar-a-Lago e anunciou uma parceria com Erik Prince, fundador da Blackwater.
O governo equatoriano também intensificou a cooperação militar com Washington e procurou abrir caminho para o retorno de bases militares dos Estados Unidos ao país.
A proposta foi derrotada pela própria população. No referendo de novembro de 2025, 61,39% votaram contra a instalação de bases estrangeiras. Noboa perdeu também as outras três propostas levadas à consulta.
Nem assim a aproximação com Washington foi interrompida. Passando por cima da vontade popular, desde março deste ano, tropas norte-americanas mantêm presença rotativa no território equatoriano. Em 11 de março, foi inaugurado em Quito o primeiro escritório permanente do FBI no país.
O que acontece agora com Luisa González segue uma política iniciada ainda sob Lenín Moreno: utilizar as instituições do Estado para impedir que o correísmo volte ao poder.
Correa foi condenado e afastado das eleições, Glas foi retirado à força de uma embaixada, a Revolución Ciudadana foi suspensa justamente durante o período de registro eleitoral e dirigentes oposicionistas acumulam processos, prisões e sanções.
Agora, depois de González conseguir contornar a suspensão de seu partido e registrar-se por outra legenda, o partido de Noboa tenta também tirá-la da disputa. A ditadura equatoriana não se limita a perseguir quem vence ou perde uma eleição: procura decidir antecipadamente quem poderá sequer aparecer na cédula.




