A inclusão de atletas do sexo masculino em competições femininas vem produzindo uma situação cada vez mais absurda no esporte. Sob o argumento de que uma autodeclaração seria suficiente para definir quem pode participar dessas disputas, mulheres passam a enfrentar competidores que conservaram vantagens físicas desenvolvidas durante a puberdade masculina.
A dimensão do problema levou à criação de plataformas dedicadas exclusivamente a registrar esses casos. Uma delas, HeCheated.org, reúne resultados de competições femininas nas quais atletas do sexo masculino conquistaram posições, medalhas e títulos. Segundo levantamento divulgado pela Associação Matria, a base já reunia casos brasileiros, entre eles o de Tiffany Abreu, no vôlei.
Outra iniciativa, SheWon.org, procura identificar as mulheres prejudicadas nessas competições. Em vez de registrar apenas quem ocupou determinada posição, a plataforma mostra quais atletas femininas teriam obtido colocações superiores caso a categoria permanecesse restrita às mulheres. Entre os casos brasileiros citados pela Matria aparecem Fernanda Figueira, no jiu-jítsu, e Marcella Uchoa, no parapente.
O problema está longe de se limitar a algumas competições. A Matria, ao apresentar dados de um relatório de 2024 da relatora especial das Nações Unidas Reem Alsalem, destacou que mais de 600 atletas haviam perdido mais de 890 medalhas em mais de 400 competições, distribuídas por 29 modalidades, para competidores do sexo masculino.
A separação entre categorias masculina e feminina existe justamente porque o desempenho esportivo não depende de uma declaração individual. A puberdade masculina produz diferenças importantes de força, massa muscular, estrutura óssea, capacidade pulmonar, tamanho do coração e quantidade de hemoglobina. Dependendo da modalidade, a diferença média de desempenho entre homens e mulheres pode chegar a dezenas de pontos percentuais.
A redução dos níveis de testosterona não apaga essas características. Estrutura óssea, proporções corporais e parte das vantagens musculares adquiridas durante anos de desenvolvimento não desaparecem porque um regulamento esportivo passou a reconhecer determinado atleta como mulher.
Por essa razão, as categorias femininas foram criadas para que mulheres possam disputar entre si em condições minimamente equivalentes. Se o sexo deixa de ser o critério para participar dessas competições, desaparece também a razão de existência da categoria.
A fraude da política identitária consiste justamente em transformar uma declaração subjetiva em algo supostamente superior à realidade física. O preço dessa política recai sobre as próprias mulheres, que perdem colocações, medalhas, bolsas, prêmios e oportunidades esportivas.
Garantir o direito de todos à prática esportiva não exige acabar com as competições femininas. Podem ser organizadas categorias abertas e outras formas de participação. Obrigar mulheres a enfrentar atletas do sexo masculino, porém, significa retirar delas a proteção que justificou a criação do esporte feminino.





