Milly Lacombe ataca novamente com seu artigo Segura a sua transfobia: não são as mulheres trans que estão nos matando, publicado no UOL neste domingo (16), no qual faz uma generalização absurda para defender ideias identitárias que não se sustentam.
Na opinião da jornalista, “quando a Confederação Brasileira de Vôlei determinou que as atletas seriam a partir de agora avaliadas para que fosse determinada sua taxa de feminilidade, muitos homens se levantaram em apoio à CBV. São homens quase sempre bastante cristãos que, falando em nome de Deus, dizem que não vão admitir que mulheres (cisgênero) tenham que disputar espaço no esporte com, nas palavras deles, ‘homens’. Quando dizem ‘homens’, eles se referem a mulheres transgênero: mulheres que, tendo sido identificadas como o sexo masculino no nascimento, decidiram fazer uma transição de gênero”.
De onde Lacombe tirou essa informação sobre homens cristãos etc.? Da própria cabeça, parece. Transição de gênero não transforma homens em mulheres ou vice-versa. Gênero, nesse sentido, aliás, não existe; não passa de uma subjetividade.
Da mesma maneira que acusou Rogério Ceni de coisas que ele não tinha feito, Lacombe acusa agora os homens de estarem “enfurecidos com a participação de mulheres trans no esporte que nunca assistiram a um set de vôlei feminino, que acham ridículo mulheres atletas, que debocham de jogos femininos e que só sabem avaliar uma profissional se ela estiver dentro de um padrão estético muito rígido”.
Ela vai criando uma ficção. Diz que “são homens que nunca lutaram por premiações iguais para homens e mulheres no esporte, que não se importam quando treinadores e dirigentes estupram esportistas” etc.
Mais adiante, diz que os demônios que pintou acima “não sabem apontar o caso de uma mulher trans que tenha tido vantagem em qualquer competição”. No entanto, a jogadora de vôlei Tandara, em fevereiro de 2018, logo após enfrentar Tifanny em quadra, declarou seu descontentamento em entrevista reproduzida pelo Correio Braziliense, na qual afirmou que seu posicionamento se baseava na ciência: “não é homofobia, estou falando em fisiologia. Independentemente se ela faz diferença ou não hoje, o corpo dela foi construído com testosterona”.
Tandara quase foi cancelada por se pronunciar. Aos poucos, mais e mais atletas perdem o medo da perseguição identitária, que é brutal, e revelam seus posicionamentos.
A jornalista faz a seguinte pergunta: “como exatamente as mulheres trans estão prejudicando as mulheres cis – no esporte e na vida?”. Então, para que não nos acusem de sermos homens cristãos furiosos, reproduzimos abaixo um texto produzido por mulheres e publicado no perfil da organização Matria no Instagram:
“A diferença de desempenho entre os sexos não se resume aos níveis de testosterona no sangue no momento da competição.
Mulheres não são homens com níveis mais baixos de testosterona. Homens possuem quadris mais estreitos e mais inserções musculares, favorecendo a economia de movimento em corridas e saltos.
O ângulo Q (quadríceps) mais aberto nas mulheres faz com que os vetores de força levem o joelho a uma posição de valgo, mecanismo típico da lesão do ligamento cruzado anterior (LCA). O ligamento feminino também tende a ser menor e menos robusto.
Mulheres têm risco de duas a oito vezes maior de ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA) em comparação com homens no mesmo esporte, devido a fatores anatômicos, hormonais e biomecânicos.
A pelve mais larga das mulheres cria um ângulo maior entre o quadril e o joelho, alterando a forma como a força é transmitida pela articulação.
Homens possuem coração, pulmões e traqueia maiores, ampliando a capacidade cardiorrespiratória; também possuem maior densidade óssea, envergadura e estatura média; mesmo após anos de supressão hormonal, permanecem com maior massa e potência muscular.
No vôlei, a rede masculina é de 2,43 m e a feminina, de 2,24 m, porque a altura média dos homens é maior que a das mulheres.
Homens tendem a ter mais massa muscular e força absoluta, pois têm predominância de fibras musculares tipo II (fibras de contração rápida, associadas à força e à potência).
Homens possuem mais glóbulos vermelhos no sangue, o que proporciona maior capacidade de transporte de oxigênio e desempenho aeróbico superior.
Para um esforço físico equivalente, a frequência cardíaca da mulher costuma ser mais elevada, o que antecipa a sensação de cansaço.
Mulheres têm concentração de hemoglobina cerca de 10% menor, o que reduz o conteúdo arterial de oxigênio e a oferta total de O2.
Revisões científicas (Hilton & Lundberg, 2021; Setebbings et al., 20121; Hunter & Senefeld, 2024) mostraram que terapias com estrogênio e bloqueadores de testosterona reduzem o desempenho de atletas do sexo masculino, mas não revertem essas vantagens estruturais adquiridas antes ou durante a puberdade.
Em corredores, mesmo após dois anos de terapia hormonal, os tempos seguem significativamente mais rápidos que os das mulheres (Roberts, Smalley & Ahrendt, 2020).
Essas diferenças, aliás, começam antes da puberdade: aos 8 anos, meninos já superam meninas, em média, em quase 5% no salto em distância e em mais de 30% no lançamento de dardo — o que é atribuído a fatores genéticos ligados ao cromossomo Y (Brown, Shaw & Shaw, 2025).
Estudos que negam as diferenças entre mulheres e homens que reduzem a testosterona podem envolver conflitos de interesse.
Um homem pode deliberadamente reduzir ou ocultar seu desempenho máximo, mas não pode simular uma capacidade física superior à que possui.
Por isso, pesquisas que afirmam que não há vantagem precisam ser lidas com ressalvas adicionais, pois não necessariamente demonstram a ausência de uma vantagem potencial.
As categorias femininas existem justamente para garantir às mulheres que, sem competir contra a vantagem física masculina, sejam o mérito, o treino e o talento que decidam uma competição.
Ignorar as diferenças biológicas em nome da autodeclaração de gênero não amplia direitos: desloca o problema, transferindo o ônus da “inclusão” para as próprias mulheres, que perdem espaço, segurança e reconhecimento.
Defender categorias femininas baseadas no sexo é a única forma de garantir que o esporte feminino seja justo.”
A senhora Lacombe faz perguntas retóricas: “são as confederações, os médicos e o estado que determinarão o que somos? Quanto de mulher existe em cada uma de nós? Você é suficientemente mulher? Onde eles vão parar? Quando deixaremos de ser julgadas?”. A jornalista acha que um médico não consegue distinguir um homem de uma mulher? Com quem ela costuma se consultar: com um ginecologista ou com um urologista? O curioso é que os identitários costumam rotular qualquer um de “negacionista”. No entanto, a ciência só é evocada quando interessa.
A jornalista escreve que “a transfobia também mata mulheres cis e faz isso todos os dias. Morrem as cis, as trans, as travas e as bichas. Todas, absolutamente todas, assassinadas pelas mãos de homens”.
Trata-se de uma jornalista, mas é provável que não tenha sido informada de que existem casos registrados no Brasil e no mundo de mulheres transexuais que cometeram crimes graves, incluindo homicídio, estupro, abuso sexual de menores e infanticídio.
É muito provável que ela nunca tenha ouvido falar de Karen White, Isla Bryson e Amber McLaughlin, uma vez que se trata de casos internacionais. Mas deveria conhecer pelo menos o caso de Suzy Oliveira, entrevistada por Drauzio Varella, que cumpria pena por estupro e homicídio de um menino de nove anos.
Lacombe precisa parar de apenas imaginar coisas. O mundo é cruel, e ela deveria saber que, como ocorre em qualquer grupo demográfico, a “identidade de gênero” de uma pessoa não a torna imune à prática de atos ilícitos ou de extrema violência.





