O PT e o PSDB já fazem campanha juntos nas eleições de 2026. No Maranhão, Luanna Rezende, candidata petista a deputada estadual, realiza uma dobradinha eleitoral com o irmão, Juscelino Filho, deputado federal que tenta a reeleição pelo PSDB.
Os dois estavam até este ano no União Brasil. Luanna migrou para o PT e Juscelino para o PSDB, mas a separação partidária não alterou a atuação conjunta da família. O tucano apoia a campanha da irmã petista e aparece ao lado dela na propaganda eleitoral.
Luanna é médica e foi prefeita de Vitorino Freire entre 2017 e 2024. Em seu perfil eleitoral, apresenta-se atualmente como candidata a deputada estadual pelo número 13013. Sua entrada no PT ocorreu depois de uma trajetória construída fora da esquerda e, até recentemente, dentro do União Brasil.
Seu irmão tem um percurso ainda mais claro entre os partidos da direita. Juscelino Filho foi eleito deputado federal e chegou ao terceiro governo Lula como ministro das Comunicações, embora integrasse o União Brasil – que nasceu da fusão do PSL com o DEM e por onde já passaram trogloditas como Sergio Moro, Ronaldo Caiado e Kim Kataguiri. Juscelino deixou o cargo em abril de 2025 depois de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República sob suspeita de corrupção passiva e outros crimes relacionados ao uso de emendas parlamentares.
As investigações envolvem obras realizadas em Vitorino Freire. O caso corre sob sigilo no Supremo Tribunal Federal, sob relatoria de Flávio Dino. Juscelino nega as acusações.
Agora, fora do governo, o ex-ministro tenta renovar o mandato pelo PSDB enquanto em parceria com sua irmã, do PT. Fica claro que ambos são políticos oportunistas e fisiológicos que, na busca por cargos dentro do apodrecido aparelho estatal da burguesia, aliam-se a quem estiver disposto a ajudá-los em sua carreira. Não há nenhum compromisso político com o PT.
O PSDB que Haddad quer de volta
A dobradinha maranhense ocorre poucas semanas depois de Fernando Haddad defender publicamente a recuperação do PSDB.
Em entrevistas concedidas em junho, Haddad afirmou que gostaria que o partido “voltasse a existir”, classificou seu desaparecimento como “uma pena” e elogiou Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso. Disse ainda que PT e PSDB teriam “um solo comum de conceitos, de valores” e lamentou a falta de um partido de centro-direita eleitoralmente forte.
A política eleitoral do PT vai exatamente nessa direção.
O PSDB foi durante décadas um dos principais partidos da burguesia brasileira. Nos governos de Fernando Henrique Cardoso, comandou privatizações em grande escala e ataques diretos aos trabalhadores. Na greve dos petroleiros de 1995, FHC mandou o Exército ocupar refinarias; 73 trabalhadores foram demitidos e mais de mil sofreram punições.
O partido também esteve entre os principais organizadores políticos da campanha que desembocou no golpe contra Dilma Rousseff em 2016.
É esse partido que Haddad gostaria de ver novamente com peso nacional. E, pelo visto, a direção do PT também.
Do União Brasil para o PT
A candidatura de Luanna Rezende mostra também o grau de abertura das pernas do PT para políticos vindos diretamente da direita.
Ela não rompeu com um grupo conservador para ingressar numa organização de esquerda e passar a combater seus antigos aliados. Saiu do União Brasil, entrou no PT e continuou articulada eleitoralmente com o irmão, que saiu do mesmo União Brasil para o PSDB. É uma carreirista.
Na prática, um grupo político distribuiu seus candidatos por duas legendas e agora trabalha em conjunto para eleger ambos. Usa-se o PT apenas como um degrau a ser pisado rumo à ascensão política de Luanna.
Essa política é coerente com o rumo tomado pela direção petista nos últimos anos. A luta contra o bolsonarismo foi transformada em justificativa para uma aproximação cada vez maior com setores tradicionais da burguesia. O que inicialmente foi apresentado como uma aliança excepcional contra Bolsonaro passou a orientar permanentemente a política do partido.
Sob o argumento de que é necessário “derrotar o fascismo”, o PT aceita praticamente qualquer aliança eleitoral que possa render votos, cargos e posições no Estado.
PT dá força aos próprios inimigos
Essa política não enfraquece os partidos tradicionais da burguesia. Faz o contrário: os fortalece enquanto enfraquece o PT.
O PT aproveita o prestígio que ainda possui entre os trabalhadores para apresentar os inimigos mais ferozes dos trabalhadores como seus grandes e amados aliados. Geraldo Alckmin (uma vez PSDB, sempre PSDB!), carrasco dos professores, grevistas e favelados de São Paulo, tornou-se vice-presidente de Lula. Juscelino Filho, do União Brasil, recebeu um ministério. Agora, candidatos petistas e tucanos podem aparecer lado a lado na mesma campanha.
O próprio discurso que justifica essas alianças transforma políticos da direita em supostos aliados do povo simplesmente porque, naquele momento, estão ao lado do PT. Embora sejam mais parecidos com aquele amigo que posa do seu lado na foto enquanto ergue o braço e faz um chifre sobre sua cabeça sem você ver. Essa é a frente ampla e o PT está sendo chifrado por seus “aliados”.
O PSB, partido de Alckmin e nova versão dos tucanos, trai o PT em diversos estados nestas eleições. Mas, tal qual mulher de bandido, o PT aceita calado e torna-se cúmplice da bandidagem do PSB, da qual ele será a maior vítima.
Com isso, partidos desgastados recuperam espaço, quadros e influência eleitoral. Amanhã, estarão novamente em condições de disputar o próprio lugar ocupado pelo PT.
E o programa desses setores não mudou. É o programa exigido pelos bancos, pelo grande capital e pelo imperialismo: cortes de gastos, privatizações, ataques aos trabalhadores e transferência crescente da riqueza pública para os capitalistas.
É a mesma orientação neoliberal que encontra hoje sua forma mais aberta no governo de Javier Milei, na Argentina.
No Maranhão, portanto, não há apenas uma curiosidade familiar. Há uma candidata do PT e um candidato do PSDB, ambos carreiristas de direita, fazendo campanha juntos. O sonho declarado por Haddad de ver o tucanato novamente forte já encontrou quem trabalhe para realizá-lo.



