Polêmica

O problema é que a ditadura só trocou a farda pela toga

Hoje, quem defende as instituições está, na verdade, agindo contra qualquer possibilidade de “democracia”

STF

O artigo Wagner Moura aponta anistia como origem da crise democrática brasileira, de Aquiles Lins, publicado no Brasil 247 neste sábado (15), traz declarações do ator brasileiro em uma entrevista ao programa Democracy Now, exibido no dia 10, durante o Festival Internacional de Edimburgo.

Segundo o artigo, “na conversa com Amy Goodman e Nermeen Shaikh, o ator e cineasta brasileiro falou sobre a peça ‘Um Processo — após Um Inimigo do Povo’, em cartaz no festival, e relacionou a montagem ao Brasil contemporâneo. Moura interpreta Thomas Stockmann, personagem inspirado na obra de Henrik Ibsen que denuncia a contaminação da água de uma cidade dependente economicamente de uma estância termal e passa a ser tratado como inimigo público”.

Nessa montagem, “a cada apresentação, espectadores são chamados a decidir se Stockmann é inocente ou se merece ser considerado ‘um inimigo do povo’”.

Há um aspecto a ser destacado de início: “Moura afirmou que a montagem leva esse conflito para 2026, em uma discussão sobre a força da verdade em meio à crise da democracia”.

Esse tema da crise da democracia é recorrente na esquerda, que considera existir uma luta fundamental entre a democracia e o fascismo, apresentado como o inimigo a ser vencido. O grande problema dessa concepção é que, além de arrastar a esquerda para uma política de colaboração de classes, ela mascara o fato de que a chamada democracia acaba sendo representada por governos altamente repressivos, capazes de levar adiante políticas fascistas.

Outro ponto a destacar é que, “questionado sobre Bolsonaro e os ataques às instituições democráticas no Brasil, Moura traçou um paralelo entre os atos golpistas no Brasil e a invasão do Capitólio nos Estados Unidos. Ele afirmou que Bolsonaro e Donald Trump estimularam movimentos de contestação eleitoral e ataques à democracia”.

A esquerda se transformou em defensora das instituições do Estado burguês e, por isso, parte da classe trabalhadora a abandonou e passou a ser atraída pelo discurso demagógico do bolsonarismo, que se apresenta como antissistema.

“Tenho uma teoria. Não sou, sabe, um teórico político, mas minha teoria é a seguinte: a mesma coisa que aconteceu nos EUA, a invasão do Capitólio, aconteceu no Brasil. Foi a mesma coisa, pessoas invadindo instituições, destruindo coisas e tudo mais. E isso aconteceu por causa dos líderes deles.”

Tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, as manifestações demonstraram o elevado grau de polarização social. No caso das manifestações na Praça dos Três Poderes, não houve uma tentativa de golpe. Pessoas foram condenadas sem direito à ampla defesa e acusadas de participar de um golpe armado, embora essas armas nunca tenham sido apresentadas. As próprias imagens divulgadas pela televisão não mostram uma insurreição armada. No máximo, alguns manifestantes poderiam ser condenados por vandalismo.

Abstracionismo

Ao tentar explicar a diferença entre as respostas institucionais dos dois países, Moura sustenta que “o motivo pelo qual no Brasil agimos tão rapidamente para prender Bolsonaro, encontrar os financiadores, todo mundo… não é porque eu acho que as instituições brasileiras são mais fortes que as estadunidenses, mas acho que nós, no Brasil, sabemos o que é uma ditadura. Sabemos o quanto isso é prejudicial, o quanto é horrível, o quanto é ruim”.

Esse é um pensamento abstrato. Não existe uma espécie de “memória nacional” que determine automaticamente a política brasileira por causa dos malefícios da ditadura. Pelo contrário: a política nacional está recheada de políticos e partidos herdeiros diretos da ditadura militar e que, décadas depois, apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff.

Jair Bolsonaro foi preso de maneira relâmpago porque havia urgência em impedir que ele se candidatasse.

Bolsonaro foi eleito porque o grande capital queria qualquer alternativa na Presidência que não fosse o Partido dos Trabalhadores. De certa maneira, foi um candidato improvisado, uma vez que a burguesia não conseguiu emplacar seu candidato preferido, o então tucano Geraldo Alckmin.

Não é verdade que “Bolsonaro, ele mesmo, está na prisão agora porque foi descoberto — foi descoberto um plano de golpe de Estado”. É interessante notar, ainda, que o ex-presidente foi julgado por instituições dirigidas por setores políticos que participaram efetivamente do golpe de 2016. Até os métodos utilizados guardam semelhanças com os da Operação Lava Jato.

Covid

Em seguida, Moura teria afirmado que Bolsonaro deveria responder pelo que aconteceu durante a pandemia de covid-19. Isso, no entanto, nunca vai acontecer, pois, além dele, muita gente teria de ser mandada para a cadeia. Evocar a pandemia é um expediente muito utilizado para convencer as pessoas de que o julgamento da “trama golpista” não seria uma farsa completa.

Com relação à covid, é preciso lembrar também que houve grande pressão para que o Brasil não comprasse vacinas da Rússia e da China, mas de laboratórios de países imperialistas.

Países como Cuba e Venezuela produziram suas próprias vacinas, mas, no Brasil, a pressão era muito forte. O governo não conseguiu sequer efetuar uma quebra temporária das patentes ou impor uma licença compulsória, isto é, uma autorização emitida pelo Estado para que terceiros produzam um produto patenteado sem o consentimento do detentor da patente, mediante o pagamento de uma compensação financeira (royalties).

Além disso, não se pode ignorar que Bolsonaro tem tanta culpa quanto os governadores dos estados que nada fizeram para ajudar a população durante a crise. Figuras da direita, como João Dória (PSDB), e até mesmo da esquerda, como Rui Costa (PT).

Moura disse na entrevista que “a crise da verdade é central para sua escolha artística. ‘A razão pela qual decidi fazer essa peça foi investigar o momento da verdade hoje em dia. O que é a verdade? Porque acredito que a verdade como a conhecemos acabou, especialmente agora com o avanço das tecnologias e o declínio do jornalismo como pilar da democracia’”.

A verdade não está em crise por causa do avanço das tecnologias. Rigorosamente, essa suposta era em que a verdade teria predominado nunca existiu. Basta ler os grandes jornais ao longo da história para constatar que a realidade sempre foi objeto de manipulação. O declínio do jornalismo tradicional — que nunca foi um pilar da democracia e serviu inúmeras vezes às ditaduras — ocorre justamente em meio aos avanços tecnológicos, que permitem a qualquer pessoa divulgar vídeos e informações que antes, sob o monopólio dos grandes meios de comunicação, poderiam ser facilmente ocultados ou distorcidos.

O texto finaliza dizendo que “Moura, ao colocar o público na posição de júri, transforma o dilema de Ibsen em uma pergunta política direta: quem é tratado como inimigo quando decide expor uma verdade inconveniente? Para o ator, a resposta passa pela memória da ditadura, pela responsabilização de seus agentes e pela defesa das instituições democráticas”.

A defesa dessas instituições é, na realidade, a defesa do Estado burguês, inimigo do povo e da democracia. A “defesa” da democracia transformou-se, assim, na defesa do Supremo Tribunal Federal e da ditadura de toga.

Hoje, aqueles que defendem a liberdade de expressão são frequentemente tratados como inimigos e, por mais estranho que possa parecer, condenados por grande parte da esquerda. Em nome da “democracia”, essa esquerda chama seus adversários de fascistas e joga no lixo toda a tradição de luta da classe trabalhadora.

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