A esquerda identitária prova que não sabe nada sobre a história brasileira, daí o título Lula usou a guerra do Paraguai para agradar os generais e o embaixador foi chamado a se explicar em Assunção, assinado por Thiago Flamé e publicado no sítio Esquerda Diário no domingo (2).
No primeiro e longo parágrafo, Flamé escreve que “a fala ocorreu durante evento nas instalações da fábrica de equipamentos militares reaberta recentemente depois de 3 anos paralisada, para uma plateia cheia de militares, empresários e com a presença do sindicato dos metalúrgicos dirigido pelo PSTU, que perdeu a oportunidade para sair em defesa do povo do Paraguai frente às reacionárias afirmações de Lula”.
Por que alguém deveria sair em defesa do Paraguai se esse país invadiu efetivamente o Brasil? A guerra teve motivações econômicas. Solano López queria que o Paraguai tivesse uma saída para o mar para que pudesse escoar sua produção de fumo e erva-mate sem depender de seus vizinhos. Necessitava, para isso, obter o controle sobre a navegação da Bacia do Prata. Até então, os paraguaios precisavam passar por territórios controlados pela Argentina e pelo Uruguai pelo estuário do Rio da Prata.
É preciso lembrar que o Paraguai possuía o maior exército permanente da América do Sul, com cerca de 38.000 a 64.000 homens já mobilizados, treinados por oficiais europeus e com reserva de recrutas. Além disso, o país contava com uma poderosa rede de fortificações ao longo do Rio Paraguai para impedir invasões fluviais.
Solano López vinha preparando o país para a guerra desde os anos anteriores, centralizando recursos na compra de armamento e fundição de canhões em Ybycuí.
Em 1864, o Exército Imperial Brasileiro tinha apenas cerca de 18.000 a 20.000 homens, espalhados por um território gigantesco, sem experiência militar em grandes guerras de manobra.
Segundo Flamé, “houve críticas vindas do campo de apoio ao governo, a declaração foi tratada pela imprensa amiga do governo como um erro, mais uma das conhecidas gafes presidenciais de Lula quando sai do roteiro.” No entanto, não houve gafe, apenas que existe uma mania na esquerda brasileira de culpar o Brasil pela guerra.
Adiante, o autor completa alegando que “o momento também foi criticado, pois essa fala se deu no contexto do discurso de Milei ao lado de Flávio Bolsonaro e no momento em que Trump avança com suas tarefas e chantagens contra o regime brasileiro. Justo agora, Lula tocou nessa ferida nunca cicatrizada, abrindo um novo flanco de crise diplomática com o Paraguai”. Mas o que tem a ver a questão de Trump? E, se existe uma ferida nunca cicatrizada, isso não é culpa do Brasil.
Por algum motivo, Flamé reclama que “a afirmação vem junto com uma promessa de aumento do orçamento militar.” A crítica não tem de ser sobre o aumento, mas se nossas Forças Armadas servem efetivamente ao Brasil.
A fala
Como informa o texto, “o que Lula disse exatamente foi: ‘A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos.”
Flamé diz que “apresentar a guerra do Paraguai como uma guerra de defesa justa é exatamente a visão mantida até hoje nas forças armadas brasileiras.” Mas é exatamente isso. À época, houve um grande clamor popular pela resposta e no Brasil se formaram as unidades militares Voluntários da Pátria, tamanha a indignação da população frente à invasão.
Para piorar, Flamé extrapola e afirma que “se a guerra, como escreveu o célebre general prussiano, é a continuação da política por outros meios, qual política foi continuada, com outros meios, pelo estado escravocrata brasileiro no fim do século XIX? A ideia de uma guerra de defesa justa contra a invasão do “tirano” Solano López cai por terra a partir dos resultados da guerra, o genocídio do povo guarani paraguaio, cerca de 60% da população paraguaia morta, a ocupação do país por uma década, territórios permanentemente anexados ao Brasil e Argentina e pesadas indenizações que que só foram perdoadas setenta anos depois.”
O “genocídio” é resultado do fato de Solano López se recusar a interromper o conflito e negociar a paz; e estranha também que o autor escreva “tirano”, assim entre aspas. Qual sua avaliação sobre López?
Como sempre, a esquerda pequeno-burguesa faz uma avaliação moral dessa questão, diz que “não é um simples erro, mas uma visão de mundo arraigada em Lula e que se expressa nas posições políticas concretas do seu governo, que Lula se permita falar da guerra do Paraguai sem mencionar o brutal genocídio cometido contra a população do Paraguai e sem citar o fato de que os negros foram usados como bucha de canhão pelo exército argentino e especialmente por parte do império escravocrata brasileiro.”
Para começar, o fato de escravos participarem da Guerra do Paraguai foi um fator decisivo para a Abolição. Talvez Flamé não saiba, mas a escravidão não era crime e no próprio Paraguai havia escravidão, ainda que em proporção menor que no Brasil. E ninguém deve se deixar levar pela palavra “império”, pois, apesar de ser uma potência regional, o Brasil não tinha grandes pretensões de expansão territorial como as potências europeias.
Flamé diz que “os generais do império que defenderam na guerra e no genocídio os interesses do império escravocrata, com destaque para Duque de Caxias, se forjaram na repressão interna às revoltas do período regencial. Duque de Caxias, Almirante Tamandaré, inclusive Deodoro da Fonseca, fizeram parte da repressão da Balaiada, do massacre dos combatentes da revolução cabana no Pará, e em todas as revoltas internas do período.” Mas o que ele queria que os generais do Exército defendessem, os interesses gerais da população? O exército de López defendia quais interesses? Além disso, não foram apenas os generais que defenderam a guerra, foi o País inteiro.
É preciso dizer ainda que ninguém defendeu um “genocídio”, o número de mortes foi decorrência das circunstâncias. A esquerda pequeno-burguesa precisa abandonar essa visão ingênua e politicamente interessada da história.
É prova de ignorância política dizer que “ao defender as posições do exército de Caxias na guerra do Paraguai, Lula se coloca ao lado dos seus algozes”, esse argumento não faz sentido. O que Flamé preferia, que o Paraguai tivesse conquistado uma parte de nosso território? Lópes, se vencesse, anexaria o sul de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul) e parte considerável do Rio Grande do Sul, além de absorver totalmente o Uruguai e retalhar a Argentina.
O autor confunde deliberadamente a ação do Exército brasileiro que defendeu o País de uma agressão com o papel político que este vem desempenhando.
Na ânsia de atacar o Exército e de rebaixar a história do Brasil, reduzindo-nos a um bando de estupradores escravocratas, os identitários acabam se juntando aos inimigos do povo brasileiro, em especial o imperialismo.





