Candidato à Vice-Presidência da República na chapa de Rui Costa Pimenta, Antônio Carlos Silva utilizou sua intervenção no lançamento das candidaturas do Partido da Causa Operária (PCO) para fazer um balanço da trajetória política do partido e apresentar a campanha de 2026 como continuidade de décadas de luta contra a burguesia, o imperialismo e a adaptação da esquerda ao regime político.
Integrante da velha guarda do PCO, Antônio Carlos começou destacando justamente o contraste entre sua geração e a grande presença de jovens, operários e mulheres no ato. Para ele, poder representar o partido depois de décadas de militância socialista é uma honra, mas não uma distinção pessoal.
“Eu queria iniciar falando do orgulho, né? Numa plenária, num ato em que a gente tem tantos jovens, companheiros operários, mulheres, nós que somos da velha guarda do Partido da Causa Operária, que somos militantes com décadas de dedicação à luta pelo socialismo, poder representar o partido nas eleições e a honra de ser candidato à vice-presidência ao lado do companheiro Rui.”
O dirigente insistiu que a chapa presidencial não deve ser entendida como uma campanha em torno de indivíduos. Segundo ele, o PCO apresenta às eleições uma atividade coletiva, sustentada por militantes que atuam permanentemente nas lutas políticas e sociais.
Essa característica permitiria, inclusive, considerar o próprio lançamento das candidaturas uma primeira vitória diante dos ataques sofridos pelo partido ainda antes do início oficial da campanha.
‘A Justiça Eleitoral não se meta com o PCO’
Antônio Carlos mencionou as dificuldades colocadas ao registro das candidaturas e denunciou uma ofensiva do Judiciário contra a autonomia dos partidos políticos.
“A gente teve aí o caso que a gente divulgou do tribunal aqui em São Paulo, que começou a achar, a querer procurar documento para impedir o registro da nossa candidatura, o que é uma demonstração que a gente tem visto ao longo dos últimos anos dessa ditadura do Judiciário que nós temos no país, que quer se meter a dizer o que o governo pode fazer, o que o Congresso pode fazer e o que os partidos devem fazer.”
Para o candidato a vice-presidente, a campanha já começa, portanto, como um ato de protesto contra essa interferência.
Ele afirmou que o PCO não aceitará passivamente determinações que considere arbitrárias e contrapôs essa posição à postura de setores políticos que, em sua avaliação, se subordinam às decisões do Judiciário.
“Nós vamos denunciar, nós não vamos dizer amém, nós não somos o partido do ‘Sim, senhor’, nós somos o partido da revolução para denunciar todo tipo de baixaria.”
Antônio Carlos também criticou a interferência do Supremo Tribunal Federal sobre decisões do Congresso Nacional. Citou o ministro Flávio Dino e afirmou que o Judiciário passou a determinar até mesmo quais emendas parlamentares podem ou não ser executadas sob o argumento de moralizar a política.
O dirigente contrapôs essa atuação às denúncias envolvendo setores do próprio Judiciário.
Segundo ele, a pretensão moralizadora não se sustenta diante dos vínculos e escândalos que atingem integrantes das instituições judiciais.
Processos contra quem defende a Palestina
Outro exemplo utilizado por Antônio Carlos foi a quantidade de processos movidos contra dirigentes do PCO por causa da campanha em defesa do povo palestino.
Rui Costa Pimenta, afirmou, tornou-se um dos principais alvos dessas ações.
“Os defensores, aqueles que fazem campanha a favor da morte de mais de 30 mil crianças na Palestina, querem colocar os dirigentes do PCO na cadeia.”
Segundo Antônio Carlos, a perseguição não deve produzir recuo, mas o efeito contrário. Para ele, ser atacado justamente por setores ligados ao sionismo confirma o caráter político da atuação do partido.
O candidato recordou então uma frase que ficou conhecida durante uma campanha da militante Lourdes Melo.
“Querem nos calar, mas eles não vão nos calar. Nem a ditadura nos calou e eles não vão conseguir nos calar de maneira nenhuma.”
Foi nesse sentido que Antônio Carlos classificou o lançamento nacional das candidaturas como uma primeira vitória: apesar das pressões, o PCO chega às eleições com uma chapa presidencial e candidaturas em diferentes regiões do País.
‘Uma chapa de lutadores’
O candidato a vice dedicou parte expressiva de sua fala à composição social e política das candidaturas do Partido.
No Rio Grande do Sul, destacou Ric Jones, candidato ao Senado, médico ligado há décadas à defesa do parto humanizado e que permaneceu preso por mais de um ano em razão de sua atividade profissional.
“Esse é o tipo de candidato, o companheiro Ric Jones, nosso candidato ao Senado. Esse é o tipo de candidato que o PCO tem nas eleições.”
Antônio Carlos enumerou ainda a presença partidária nos principais estados do Sudeste e em grande parte do Nordeste e destacou especialmente as candidaturas de índios no Mato Grosso do Sul.
Segundo ele, o PCO procura apresentar índios diretamente envolvidos nas lutas por terra e nas retomadas, em contraposição àquilo que classificou como uma representação artificial dos índios promovida por outros setores políticos.
“Diante da covardia do PT, que lança um agente da direita, lá o nosso companheiro, nosso candidato, companheiro Daniel, companheiro Valderi, candidato ao governo e ao Senado, são índios guaranis, guerreiros, defensores da demarcação.”
Para Antônio Carlos, essas candidaturas expressam uma característica essencial da política do Partido: colocar diretamente nas eleições representantes dos setores que estão em luta, e não personalidades escolhidas exclusivamente por sua capacidade eleitoral.
O mesmo princípio apareceu ao tratar do Amapá.
O dirigente citou Jairo Palheta, candidato ao governo e militante da Frente Nacional de Luta (FNL), organização dirigida por José Rainha.
Segundo Antônio Carlos, Palheta participa diretamente das ocupações de terra e representa no estado uma política de exploração das riquezas nacionais em benefício da população.
O candidato a vice defendeu a exploração do petróleo da Margem Equatorial, associando-a à nacionalização do setor petrolífero e à reestatização da Petrobrás.
Para ele, as riquezas naturais do Amapá e da região Norte deveriam ser utilizadas para elevar as condições de vida da população em vez de manter milhões de pessoas dependentes de programas sociais.
“Então, a nossa chapa em todo o país é uma chapa de lutadores.”
Uma história construída contra a corrente
Antônio Carlos vinculou as dificuldades atuais a toda a trajetória do PCO.
Segundo ele, a construção do Partido nunca ocorreu em condições favoráveis. O dirigente recordou o período em que a organização atuava como corrente interna do Partido dos Trabalhadores e defendia que o PT se transformasse em um partido operário, revolucionário e de massas.
A ruptura aconteceu justamente por divergências relacionadas à independência política diante da burguesia.
“Não foi fácil quando a gente lutou como uma pequena corrente interna dentro do PT e a gente defendia lá um PT operário, um PT revolucionário de massas, e a gente acabou sendo expulso por isso, porque a gente era contra a política de receber dinheiro dos banqueiros, de ter como candidato inimigos do povo.”
Para Antônio Carlos, o problema que já aparecia naquele período aprofundou-se ao longo das décadas.
Ele criticou especialmente as alianças atuais do PT com figuras que apoiaram o golpe contra Dilma Rousseff e posteriormente a prisão de Lula.
No caso de São Paulo, citou Simone Tebet e afirmou que a esquerda trabalha para fortalecer uma representante política ligada aos latifundiários e que participou do processo de impeachment.
“É esse tipo de candidato que tem a esquerda. Por isso o PCO lança candidatos em todo o país e tem orgulho dos candidatos que apresenta.”
O que significa ser antissistema
O dirigente dedicou outra parte da intervenção ao conceito de partido antissistema, expressão utilizada por diferentes organizações de direita e de esquerda.
Para Antônio Carlos, a condição não pode ser determinada pela propaganda eleitoral. Ela depende da relação concreta do partido com as instituições, com os grandes capitalistas e com o aparelho repressivo do Estado.
“É o partido que é o verdadeiro partido antisistema do país. Tem muito partido que tenta, para ganhar voto, se apresentar como partido antisistema, mas eles estão com o rabo preso no sistema.”
O candidato rejeitou a caracterização do PT como antissistema enquanto o partido mantém alianças com setores tradicionais da burguesia e tem Geraldo Alckmin como vice-presidente da República.
Antônio Carlos também negou que a direita bolsonarista represente uma força contrária ao regime. Citou sua defesa do aparelho policial e destacou que as forças de segurança matam milhares de pessoas anualmente no Brasil.
Ao mesmo tempo, considerou o sistema financeiro ainda mais poderoso do que o aparelho policial.
“A mais poderosa é a organização dos banqueiros, que rouba mais da metade do nosso orçamento público.”
Segundo ele, enquanto a imprensa concentra a atenção em escândalos envolvendo parlamentares individualmente, pouco se discute sobre a transferência cotidiana de enormes recursos públicos para os bancos.
“Os maiores ladrões estão nos banqueiros, roubam 6 bilhões por dia, e ninguém denuncia a não ser o Partido da Causa Operária. Por isso, eles querem nos calar.”
Do golpe de 2016 ao ‘Fora Bolsonaro’
Ao recuperar a trajetória recente do Partido, Antônio Carlos lembrou que o PCO denunciou antecipadamente a preparação do golpe contra Dilma Rousseff.
Segundo ele, naquele momento, inclusive setores do PT consideravam exagerada a avaliação de que existia uma articulação para derrubar o governo.
“Nós fomos o primeiro partido a sair às ruas contra o golpe. Nem o PT dizia que ia haver golpe, diziam que nós éramos uns malucos que não tinha perigo de golpe nenhum, né? E aí a gente viu o que aconteceu.”
Depois do golpe, o Partido também esteve entre os primeiros a organizar uma campanha contra a perseguição judicial a Lula.
Antônio Carlos recordou as caravanas organizadas para Curitiba quando o ex-presidente estava preso.
A defesa de Lula, explicou, não decorria de concordância política com o PT, mas da defesa dos direitos democráticos.
Foi a partir do mesmo princípio que o PCO, posteriormente, se posicionou contra violações dos direitos de Bolsonaro.
“Muita gente falou assim: ‘vocês saíram em defesa dos direitos democráticos do Bolsonaro?’ É, porque a gente não defende só o direito dos nossos amigos, porque quem defende só o direito dos seus amigos é uma quadrilha, é uma turma de comparsas.”
Para Antônio Carlos, um direito democrático só existe efetivamente quando é defendido independentemente de quem sofre a arbitrariedade.
“Quando o direito do Lula, quando o direito do Bolsonaro, quando o direito seja de quem for é atacado, está na mira os direitos de toda a classe trabalhadora.”
O dirigente também recordou a atuação do PCO durante a pandemia.
Enquanto sindicatos e organizações de esquerda haviam interrompido grande parte de suas atividades presenciais, afirmou, milhões de trabalhadores continuavam obrigados a circular em ônibus lotados e comparecer diariamente ao trabalho.
Nesse contexto, o PCO organizou um ato de Primeiro de Maio e posteriormente manifestações pelo “Fora Bolsonaro”.
“Esse é um partido de verdadeira liderança de vanguarda que não é ‘Maria vai com as outras’.”
Uma eleição sem igualdade
A crítica à estrutura eleitoral também ocupou lugar importante na fala.
Antônio Carlos ironizou a confiança irrestrita no sistema eleitoral brasileiro e criticou aquilo que chamou de uma transformação da urna eletrônica em objeto praticamente sagrado por setores da imprensa e da esquerda.
Mais importante que a urna, entretanto, foi sua denúncia sobre as condições concretas da campanha.
O candidato chamou atenção para o fato de que Rui Costa Pimenta não terá tempo de televisão durante o horário eleitoral.
“E sabe quanto tempo o companheiro Rui vai ter na televisão? Zero. Essa é a eleição democrática.”
Segundo Antônio Carlos, uma eleição na qual parte dos candidatos é simplesmente excluída da principal forma de propaganda de massa não pode ser apresentada seriamente como uma disputa em igualdade de condições.
“Deem tempo, deem aí dois minutinhos para o PCO no horário eleitoral para eles verem o que acontece. Eles sabem do perigo e por isso eles tiraram, cortaram o tempo, não só do PCO, mas da maioria dos partidos.”
Para o dirigente, esse bloqueio é ainda mais relevante porque uma campanha presidencial exige falar com dezenas de milhões de pessoas em poucas semanas.
Um programa feito para as lutas
Ao encaminhar o final de sua intervenção, Antônio Carlos destacou o lema “salário, trabalho e terra”.
Ele explicou que essas reivindicações não surgiram para atender às necessidades formais de uma eleição. São parte de um programa elaborado e atualizado a partir da intervenção cotidiana do partido entre trabalhadores e movimentos populares.
“O programa do PCO é o programa com que a gente intervém nas lutas, nas greves dos trabalhadores.”
Segundo Antônio Carlos, o baixo nível atual de greves está relacionado à política das direções sindicais e da própria esquerda. Ele avaliou, porém, que novos ataques econômicos deverão provocar uma retomada das mobilizações.
A defesa da Palestina apareceu mais uma vez como exemplo do método político reivindicado pelo PCO.
Para Antônio Carlos, o partido não se limitou a lamentar as vítimas dos ataques em Gaza, mas colocou-se abertamente ao lado da resistência palestina.
“Nós fomos o único partido que saiu em defesa — não para lamentar o sofrimento do povo palestino simplesmente, nós estamos em defesa da luta do povo palestino, e o companheiro Rui cunhou aquela frase que marcou aí a nossa luta: ‘1000% com o Hamas’ —, porque nós não temos medo de assumir uma posição.”
Ele também comemorou a realização de um ato do partido em defesa do Irã e contra os Estados Unidos, apresentando essa posição como mais um exemplo da independência política do PCO diante da pressão da imprensa e da própria esquerda.
‘Ninguém chuta cachorro morto’
A perseguição sofrida pelo partido, concluiu Antônio Carlos, não deveria intimidar os militantes.
“Tem um ditado popular que diz que ninguém chuta cachorro morto, e eles justamente nos atacam porque eles sabem do perigo.”
O candidato afirmou que considera politicamente significativo que o PCO seja atacado por banqueiros, organizações sionistas, setores do Judiciário e também por organizações de esquerda que, em sua avaliação, abandonaram uma política revolucionária.
No mesmo sentido, criticou duramente uma declaração do ministro da Defesa, José Múcio, sobre a possibilidade de uma invasão dos Estados Unidos ao Brasil.
Para Antônio Carlos, o problema não se limitava à fala do ministro, mas ao fato de Lula tê-lo mantido no cargo.
“É uma vergonha, não só que ele tenha falado, mas que o presidente Lula não tenha demitido esse vagabundo, esse picareta.”
O dirigente utilizou o episódio para voltar à crítica da conciliação com a direita.
Segundo ele, não é possível reivindicar uma política de esquerda e simultaneamente manter alianças com dirigentes que participaram do impeachment de Dilma Rousseff, apoiaram a prisão de Lula ou votaram medidas como a reforma trabalhista.
“Cadê o amor pela classe trabalhadora? Nada!”
Para Antônio Carlos, a continuidade dessa orientação tende a enfraquecer a maior organização política construída historicamente em nome dos trabalhadores brasileiros.
‘Quem bate cartão não vota em patrão’
Ao encerrar, o candidato a vice-presidente convocou militantes e simpatizantes a transformar a campanha eleitoral de 2026 na maior campanha já realizada pelo PCO.
O chamado foi dirigido especialmente aos jovens e aos trabalhadores.
Antônio Carlos afirmou que aqueles que procuram uma organização efetivamente contrária ao regime deveriam conhecer o programa partidário e participar diretamente da campanha.
“Este aqui é o partido para o jovem que quer mudar o país, é o partido para aquele jovem que quer ser antisistema, é o partido para aquele trabalhador que quer ficar do lado da classe operária.”
A campanha, afirmou, deverá procurar organizar os trabalhadores politicamente em torno de seus próprios interesses, contrapondo suas candidaturas às apresentadas pela burguesia.
Antônio Carlos resumiu esse princípio em uma palavra de ordem que pretende levar às ruas durante a eleição:
“Quem bate cartão não vota em patrão.”
E encerrou defendendo que a atividade eleitoral esteja subordinada a um objetivo político mais amplo:
“Nós vamos realizar uma grande campanha de luta em defesa da revolução, do governo operário e do comunismo.”



