O professor de relações internacionais Hussein Kalout publicou na Folha de S.Paulo um artigo intitulado Diplomacia brasileira resistirá a Trump. O texto parte da retirada do visto de múltiplas entradas da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, para apresentar o episódio como uma grave deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos e defender uma resposta diplomática de longo prazo.
E ridículo apresentar o ocorrido como se duas nações que mantiveram historicamente relações normais e respeitosas estivessem agora, por causa de Donald Trump, atravessando uma anomalia.
A expressão “relações bilaterais” encobre aquilo que realmente existe entre osEstados Unidos e o Brasil. Os Estados Unidos consideram a América Latina sua área de domínio e o Brasil, desde muito antes de Trump, um país submetido aos seus interesses.
As revelações de Edward Snowden mostraram que a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos espionava diretamente a então presidenta Dilma Rousseff, seus assessores e a Petrobrás.
Era o governo Barack Obama, com Joe Biden como vice-presidente.
Poucos anos depois, o governo Dilma seria derrubado por um golpe de Estado que abriu caminho para Michel Temer, aprofundou a entrega da economia nacional e preparou a ascensão de Jair Bolsonaro.
O próprio autor do artigo ocupou um alto cargo no governo Temer. Apresentar Trump como aquele que estaria inaugurando uma política de desrespeito ao Brasil significa apagar toda essa história.
Kalout afirma que o imperialismo norte-americano estaria testando a capacidade brasileira de reagir e aposta que o País possui uma diplomacia “maleável”. Nesse ponto, o governo norte-americano tem bons motivos para fazer a aposta.
A política externa do governo Lula está longe de representar qualquer resistência séria ao imperialismo. Quando os Estados Unidos aumentam a pressão, o governo brasileiro protesta, divulga notas e procura evitar um confronto mais profundo.
O próprio ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, já chegou ao ponto de declarar, diante das pressões norte-americanas, que o Brasil deveria “abrir os portões” para os Estados Unidos. Uma declaração de submissão particularmente grave vinda justamente do responsável pelas Forças Armadas de um país que deveria defender sua soberania.
Na América Latina, a situação não é melhor. Na questão venezuelana, Lula adotou diversas vezes a linguagem e as exigências impostas pelo imperialismo contra o governo de Nicolás Maduro, em vez de defender incondicionalmente o direito da Venezuela de resolver seus próprios problemas sem interferência estrangeira.
Um governo que aceita participar da pressão política contra um país vizinho atacado há anos pelos Estados Unidos não está construindo uma política externa independente.
A mesma contradição aparece na política para o Oriente Médio. Lula fez declarações denunciando o genocídio palestino. Mas as instituições do Estado brasileiro continuam mantendo relações com os responsáveis pelo massacre.
Sionistas entram e saem do País livremente. Representantes e organizações ligados a “Israel” continuam atuando no Brasil. O aparato estatal brasileiro não rompeu suas relações com o sionismo nem tomou medidas à altura da dimensão do genocídio.
Não existe enfrentamento verdadeiro ao imperialismo enquanto se preservam suas principais posições dentro do próprio Estado brasileiro.
A diplomacia brasileira pode produzir discursos duros, notas oficiais e protestos protocolares. Isso está muito longe de uma política de independência nacional.
Os Estados Unidos derrubaram governos, apoiaram ditaduras, financiaram golpes, espionaram autoridades e pressionaram economicamente o Brasil sob presidentes democratas e republicanos. É uma política de Estado. Por isso, também não basta esperar que uma diplomacia experiente saiba administrar o conflito.
Não há técnica diplomática capaz de transformar uma relação de dominação em relação entre iguais.
Para enfrentar os Estados Unidos, seria necessário romper efetivamente com os instrumentos de controle do imperialismo sobre o País, denunciar sua interferência política, expulsar sua influência sobre o aparato estatal brasileiro e adotar uma política independente em relação à Venezuela, à Palestina e aos demais países atacados pelos Estados Unidos.





