Petróleo

O sucesso artificial da Petrobrás sob Magda Chambriard

Guerra do imperialismo contra o Irã elevou o preço do petróleo e ajudou a companhia a lucrar R$ 52,4 bilhões; direção, porém, mantém empresa voltada aos acionistas privados

A Petrobrás anunciou lucro líquido de R$ 52,4 bilhões no segundo trimestre de 2026, quase o dobro do registrado no mesmo período do ano passado. O número é extraordinário, mas está longe de comprovar o êxito da política adotada por Magda Chambriard. Parte importante desse resultado veio de fora da empresa: a guerra dos Estados Unidos contra o Irã fez subir o preço internacional do petróleo justamente quando a “estatal” brasileira ampliava sua produção e suas exportações.

O próprio diretor financeiro da Petrobrás, Fernando Melgarejo, apontou o preço mais elevado do Brent entre os fatores responsáveis pelo balanço. A guerra desencadeada pelo governo americano colocou sob ameaça uma região fundamental para a produção e o transporte mundial de petróleo, provocando uma elevação das cotações.

A Petrobrás estava em posição privilegiada para lucrar com essa situação. Sua produção chegou a 2,7 milhões de barris por dia, enquanto as exportações se aproximaram de 1 milhão de barris diários. Quanto mais alto o preço internacional, maior a receita obtida com essa enorme quantidade de petróleo vendida no exterior.

O crescimento de 97% no lucro, portanto, não pode ser apresentado simplesmente como resultado da direção de Chambriard. A guerra promovida pelo imperialismo contra o Irã criou uma situação excepcionalmente favorável para uma das maiores produtoras de petróleo do mundo.

A força da Petrobrás

Isso não elimina os bons números operacionais do trimestre. Pelo contrário: eles demonstram a força que a Petrobrás conserva apesar de décadas de ataques, privatizações e desmonte.

O parque de refino funcionou com fator de utilização de 101%. A produção de diesel S10 alcançou 509 mil barris por dia e a de querosene de aviação chegou a 109 mil barris diários. Em comparação com o primeiro trimestre, houve crescimento de 5,6% na produção desses derivados.

Como consequência, as importações de derivados caíram 40%.

Esse é um dado particularmente importante. Durante anos, sucessivos governos conduziram o Brasil à situação absurda de ser um grande produtor e exportador de petróleo e, ao mesmo tempo, depender da importação de combustíveis. O aumento do uso das refinarias mostra o que a Petrobrás pode fazer quando utiliza sua estrutura para abastecer o mercado nacional.

Nada disso surgiu com Chambriard. Refinarias, plataformas, tecnologia, quadros técnicos e reservas foram construídos ao longo de décadas com recursos públicos. A atual direção recebeu uma das maiores empresas petrolíferas do planeta e se beneficia de um patrimônio acumulado pelo Estado brasileiro.

A Petrobrás também investiu R$ 26,7 bilhões no trimestre, dos quais 82% foram destinados à exploração e produção. As plataformas P-80, P-82 e P-83 estão previstas para entrar em operação em 2027.

Os números deixam evidente a capacidade da empresa. O problema é a política aplicada a ela.

Uma “estatal” a serviço dos acionistas

A Petrobrás continua sendo tratada como uma máquina de produzir dividendos.

Embora o Estado brasileiro detenha seu controle formal, uma parcela da empresa está nas mãos de acionistas privados, inclusive grandes fundos e especuladores estrangeiros. A pressão permanente é para que o lucro obtido com o petróleo brasileiro seja distribuído aos proprietários das ações, em vez de ser utilizado integralmente para desenvolver a empresa e a economia nacional.

Essa política é uma consequência direta da privatização parcial da Petrobrás.

Uma empresa petrolífera estatal deveria utilizar suas receitas para ampliar refinarias, desenvolver a indústria petroquímica, construir navios e plataformas, produzir fertilizantes, baratear combustíveis, desenvolver tecnologia e criar centenas de milhares de empregos. Em suma, deveria transformar o petróleo numa alavanca para a industrialização do País.

Os parasitas exigem o contrário: lucro elevado e distribuição de dividendos.

A direção de Magda Chambriard não fez cócegas a essa política. A Petrobrás continua submetida ao mercado de ações e aos interesses dos acionistas privados. O resultado bilionário, portanto, não pode ser medido apenas pelo tamanho do lucro, mas pelo destino dado à riqueza extraída do subsolo brasileiro.

Se uma empresa pública obtém dezenas de bilhões de reais e uma parcela significativa desse dinheiro acaba transferida para o capital privado, o lucro recorde não significa necessariamente um ganho equivalente para o povo brasileiro.

Concessões na Margem Equatorial

O problema também aparece na política de exploração de novas reservas.

O Brasil possui uma das maiores perspectivas petrolíferas do mundo na Margem Equatorial, particularmente na região próxima ao Amapá. A exploração, porém, foi submetida durante anos a um bloqueio apresentado como defesa do meio ambiente.

Esse bloqueio atende objetivamente aos interesses das potências imperialistas, que não têm interesse algum no surgimento de uma Petrobrás ainda maior nem na transformação do Brasil numa potência petrolífera e industrial.

Os mesmos países que desenvolveram suas economias queimando quantidades gigantescas de carvão, petróleo e gás procuram impor aos países atrasados limitações que eles próprios jamais aceitaram durante sua industrialização.

A direção da Petrobrás deveria enfrentar essa política abertamente e exigir a exploração integral das riquezas nacionais, sob controle estatal.

Magda Chambriard, embora tenha se pronunciado em favor da exploração da Margem Equatorial, fez concessões à campanha ambientalista e procurou conciliar a necessidade de ampliar a produção com as exigências impostas por esse setor. Em vez de transformar a questão numa luta pela soberania nacional, a direção da empresa procurou adaptar-se ao cerco.

A contradição chegou ao ponto de Chambriard defender publicamente perspectivas de abandono dos combustíveis fósseis enquanto preside uma empresa cuja principal riqueza é precisamente o petróleo.

O atual balanço mostra o absurdo dessa política. Foi exatamente a produção de petróleo, combinada à alta de seu preço internacional, que permitiu à empresa obter R$ 52,4 bilhões de lucro em apenas três meses.

Petrobrás e o genocídio palestino

A gestão Chambriard também acumulou um episódio vergonhoso relacionado a “Israel”.

Em 2025, a Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) denunciou um leilão de tubos de aço pertencentes à Petrobrás, armazenados em Pernambuco, depois que surgiu a informação de que o material poderia ser enviado ao Estado sionista.

A estatal alegou que os tubos haviam sido comprados por uma empresa brasileira e que não existira uma venda direta da Petrobrás para “Israel”.

A defesa burocrática não resolvia o problema. Diante de um genocídio transmitido diariamente para todo o mundo, a Petrobrás deveria ter adotado medidas para impedir que qualquer material de seu patrimônio fosse destinado ao Estado sionista.

A empresa, porém, preferiu limitar-se à afirmação de que não era responsável pelo destino posterior do material vendido.

Essa posição é particularmente escandalosa porque a Petrobrás não é uma empresa qualquer. É controlada pelo Estado brasileiro. Se o governo Lula denuncia publicamente o massacre dos palestinos, a principal estatal do País não deveria permitir que seus negócios terminassem servindo, ainda que por intermédio de terceiros, a “Israel”.

Guerra encheu os cofres

O balanço do segundo trimestre revela duas coisas muito diferentes.

A primeira é a enorme força da Petrobrás. Mesmo depois de décadas de privatização, venda de ativos e abertura do setor petrolífero ao capital estrangeiro, a empresa produz 2,7 milhões de barris por dia, trabalha com suas refinarias praticamente no limite e consegue reduzir fortemente a importação de derivados.

A segunda é que o lucro recorde não representa uma mudança de política sob Chambriard.

A conjuntura internacional fez boa parte do serviço. A agressão dos Estados Unidos contra o Irã elevou o preço do petróleo num momento em que a Petrobrás produzia e exportava em grande quantidade. A estatal ganhou bilhões com uma alta que sua direção não produziu e não poderia produzir.

Enquanto isso, permanece intacto o problema fundamental: uma empresa construída pelo Estado brasileiro e dona de uma riqueza estratégica continua obrigada a dividir seus resultados com acionistas privados.

A Petrobrás não precisa ser uma empresa eficiente para a Bolsa. Precisa ser integralmente estatal e servir ao desenvolvimento do Brasil. O balanço de R$ 52,4 bilhões mostra, acima de tudo, a quantidade de riqueza que o País possui nas mãos — e quanto poderia fazer com ela se a empresa deixasse de funcionar para o capital financeiro.

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