O artigo “Portões de Múcio”, de Manuel Domingos Neto, publicado no Brasil247 nesta quinta-feira (6), procura minimizar a péssima fala do ministro da Defesa, José Múcio, sobre a atitude que tomaria caso o Brasil fosse eventualmente atacado pelos Estados Unidos.
Neto inicia dizendo que, “referindo-se a uma possível agressão estadunidense em nosso território, Múcio disse: o mais sensato seria “abrir os portões”, posto não termos capacidade de nos defender.”
Como o próprio texto esclarece, “o fato se deu em evento na Conferência Nacional da Indústria”.
Na opinião de Domingos Neto, “Múcio usou o prosaísmo reacionário que marcou sua carreira política.” Uma fala prosaica é aquela trivial, banal. Isso, no entanto, não pode servir como explicação, pois se trata de um ministro de Estado,
O articulista reclama que “revoltados, alguns pedem sua cabeça. Indignação ingênua. Proposição temerária. Descabida.” Por que alguém não deveria se revoltar com uma frase dessas? O assunto é a soberania nacional, o assunto não pode ser trivial.
Na defesa do ministro, Domingos Neto diz que “o ministro foi jocoso, não aleivoso”. Teria feito uma piada, e não uma traição. Independentemente da forma com que falou, o sentido é grave. A conclusão do articulista, no entanto, é a pior possível, diz que “não temos, de fato, capacidade de reação militar ao imperialismo. As corporações de que dispomos integram esquema comandado pelo Pentágono para o exercício do domínio mundial. Na cultura militar vigente, não há lógica em se preparar para tecer armas contra a potência que nos ‘protege’”.
Alguém diria que o Afeganistão tinha capacidade de reação militar ao imperialismo? E o Iêmen? São países pobres, ainda assim, enfrentaram o imperialismo. A OTAN ficou 20 anos no Afeganistão. O Iêmen já está há 12 anos em guerra. Embora tenha havido arrefecimento no conflito em 2022, nos anos iniciais os iemenitas enfrentaram sozinhos uma coalizão de 9 países.
A crise humanitária que se instalou é uma das piores crises de que se tem notícia, ainda que a grande imprensa tenha feito de tudo para ocultar. Mais de 22 milhões de pessoas (cerca de metade do país) dependem de ajuda humanitária.
A fome crônica é uma chaga, 18,3 milhões de iemenitas enfrentam insegurança alimentar aguda severa.
Quanto às crianças, mais de 2,2 milhões de crianças menores de 5 anos sofrem de desnutrição aguda. Além dos surtos de doenças. O colapso nos sistemas de saneamento gerou epidemias em massa de cólera e sarampo.
Apesar disso tudo, os iemenitas nunca pensaram em desistir de lutar, e muito menos querem integrar um esquema comandado pelo Pentágono, e é bastante preocupante que as nossas forças armadas o façam.
O Brasil, a exemplo dos países citados acima, deveria lutar não contra os Estados Unidos, mas contra qualquer invasor, mas não é isso que se vê nas forças armadas, e mesmo em setores ditos progressistas, um completo entreguismo.
O caso do Irã é mais emblemático, o país sofre sanções há mais de 40 anos, gasta 60% do que o Brasil gasta em defesa, e está simplesmente humilhando o imperialismo, afugentando a poderosa frota norte-americana e destruindo as bases espalhadas pela região.
Ainda na defesa de Múcio, o texto só piora, pois Domingos Neto diz que, “no mais, nossos portões nunca estiveram efetivamente fechados aos estrangeiros gananciosos.” Qual é a conclusão que se tira disso? Sem querer, o articulista revela que Múcio não estava brincando.
Como é comum nestes tempos de infiltração do identitarismo na esquerda, Domingos Neto arrisca uma revisão de nossa história. Escreve que “o militar brasileiro, desde a Independência, voltou-se contra o ‘inimigo interno’ e os vizinhos. Persiste cultuando glórias do tempo colonial-escravista. Não se preparou para dizer não às vontades imperiais. A Armada, então, persiste batendo continência para descendentes de reis portugueses e repudiando o Almirante Negro.”
Quanto a “ocupar-se com vizinhos”, o maior conflito foi com o Paraguai, mas o Brasil é que foi provocado.
Adiante, o articulista diz algo que deveria chamar a atenção de todos: “Múcio não recebeu o cargo para mudar a Defesa Nacional. O presidente confiou-lhe o apaziguamento de quartéis agitados por devaneios golpistas e delírios militaristas. Não recebeu o cargo para reposicionar militarmente o país na ordem mundial em construção.” E fica a pergunta: Lula governa mesmo o País e suas forças armadas? Existe uma grande diferença entre estar no governo e estar no poder.
O governo Lula, que insistiu em não buscar apoio na classe trabalhadora, tem que se apoiar nesse tipo de subterfúgio para poder governar. Precisou de um direitista com bom trânsito entre os militares para acalmar os ânimos com os militares. Quanto aos “devaneios golpistas”, o ministro tem que se sentir em casa, pois era ministro do TCU e foi o relator responsável por analisar as contas do governo federal referentes ao ano de 2015.
Em seu relatório técnico, destacou as chamadas “pedaladas fiscais” e votou pela recomendação de rejeição das contas de Dilma Rousseff. Esse parecer e as decisões do TCU serviram como o principal embasamento jurídico e político utilizado pelo Congresso para justificar a abertura e a posterior aprovação do impeachment.
Bandalheira
A coisa anda tão avacalhada no Brasil, que já estão dizendo que um ministro fala um verdadeiro absurdo e nada acontece. E não para por aí, Domingos Neto diz que “a rigor, Múcio sequer é propriamente ministro: não apresentou nem gerenciou planos, não formulou estratégias, não propôs reformas (…)” Se não temos um ministro da Defesa, também não temos um ministério, deve ser um cabide de empregos.
Ainda assim, o autor acha que o problema está na esquerda que critica e quer a cabeça, por assim dizer, ministro que “deu mote inflamado para o discurso do nacionalismo de esquerda, pouco ou nada afeito às questões da Defesa Nacional.”
Oportunismo
Como estamos em ano eleitoral, o articulista ainda conseguiu ver algum ganho, diz que o ministro, com sua fala, “cativou contingente expressivo em eleição apertada: a ‘família militar’”. Fica assim comprovada a tese: a esquerda faz qualquer coisa para ganhar um voto. Sinal de uma grande degeneração política.



