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Lacerdismo: terceira via escancara seu reacionarismo

Ao adotar Carlos Lacerda como referência, o Missão revela a origem golpista da direita que ajudou a derrubar Dilma e agora tenta se apresentar como alternativa ao bolsonarismo

Políticos da direita fluminense que procuram se afastar do bolsonarismo passaram a reivindicar abertamente o legado de Carlos Lacerda. Entre eles estão candidatos do Missão, partido criado pelo Movimento Brasil Livre (MBL), antigos integrantes do governo de Cláudio Castro e figuras ligadas a outras legendas burguesas.

A escolha é esclarecedora. Lacerda foi um dos principais agentes do imperialismo norte-americano na política brasileira. Participou das campanhas para derrubar Getúlio Vargas e João Goulart, trabalhou para impedir a posse de presidentes eleitos e apoiou o golpe militar de 1964. Sua atuação condensou tudo aquilo que o Missão e a chamada terceira via procuram esconder atrás de uma aparência moderna: submissão aos Estados Unidos, ódio aos trabalhadores e desprezo pela vontade popular.

O candidato presidencial Renan Santos incluiu em seu programa uma política denominada “desfavelização”. O projeto recebeu o nome de “A Batalha do Brasil”, em referência à campanha lançada por Lacerda em 1948 sob o título “A Batalha do Rio de Janeiro”.

Victor Antoun, candidato do Missão a deputado federal, reconheceu a proximidade entre o programa do partido e as ideias de Lacerda. Segundo ele, o antigo governador realizou grandes obras e procurou acabar com as favelas. Antoun admitiu que os métodos empregados na época provocariam polêmica hoje, sem abandonar, contudo, o conteúdo daquela política.

Durante o governo da Guanabara, entre 1960 e 1965, milhares de famílias foram retiradas das favelas situadas no centro e na zona sul do Rio de Janeiro. Os moradores foram levados principalmente para a zona oeste, longe de seus empregos e dos serviços públicos. Cidade de Deus, Vila Kennedy e Vila Aliança cresceram em consequência dessas remoções.

Obviamente que o lacerdismo não solucionou o problema da habitação. Retirou a população pobre das áreas valorizadas e liberou terrenos para a especulação imobiliária. O programa agora recuperado pelo Missão conserva esse conteúdo de classe. Em vez de defender um grande plano estatal de moradias, saneamento e urbanização, a legenda retoma a velha política de expulsar os trabalhadores dos bairros cobiçados pelos capitalistas.

A admiração do Missão por Lacerda, porém, vai muito além da administração do Rio de Janeiro. O antigo governador tornou-se conhecido nacionalmente como o principal agitador da direita contra Getúlio Vargas e a soberania nacional.

Por meio da Tribuna da Imprensa, fundada em 1949, Lacerda dirigiu uma campanha permanente contra Vargas. Acusações de corrupção, denúncias sensacionalistas e provocações contra o governo ocupavam diariamente as páginas do jornal. A finalidade era criar uma crise política, estimular a intervenção dos militares e impedir que Vargas governasse.

A corrupção servia de pretexto. O verdadeiro problema para Lacerda e seus aliados estava nas relações de Vargas com as massas trabalhadoras, no aumento do salário mínimo, na criação da Petrobrás e nas medidas que limitavam parcialmente a exploração do País pelo capital estrangeiro.

Lacerda apresentava os interesses do imperialismo como uma defesa da moralidade pública. Chamava de combate à corrupção a conspiração contra um presidente eleito. Tratava qualquer concessão aos trabalhadores como sinal de desordem, irresponsabilidade ou influência comunista. Sua campanha preparou o cerco político e militar que terminou com o suicídio de Vargas, em agosto de 1954.

A morte do presidente não encerrou a atividade golpista de Lacerda. Ele participou das tentativas de impedir a posse de Juscelino Kubitschek e, mais tarde, tornou-se um dos dirigentes civis da ofensiva contra João Goulart.

No governo da Guanabara, Lacerda manteve relações estreitas com o aparato norte-americano instalado no Brasil. Enquanto Washington pressionava e sabotava o governo federal, os Estados Unidos favoreciam governadores considerados confiáveis, financiavam organizações anticomunistas e fortaleciam os partidos dispostos a derrubar Jango.

Lacerda ocupava uma posição de destaque nesse dispositivo. Combatia as reformas de base, atacava as organizações operárias e apresentava o governo como uma ameaça comunista. Seu objetivo imediato era abrir caminho para a deposição de Jango e para sua própria candidatura presidencial.

O apoio de Lacerda ao golpe de 1964 não decorreu de uma preocupação com as instituições. Ele esperava que os militares afastassem o governo nacionalista, reprimissem a esquerda e os trabalhadores e lhe entregassem uma situação favorável para disputar a Presidência. Quando os generais prorrogaram a ditadura e cancelaram as eleições, o antigo governador passou a criticar o regime que ajudara a instalar.

Seu rompimento posterior com os militares não apagou a conspiração. Lacerda afastou-se da ditadura porque seus planos pessoais haviam sido frustrados, e não porque se transformara em defensor dos direitos democráticos.

É essa personagem que o Missão escolheu para representar seu programa. A homenagem corresponde perfeitamente à história do MBL.

O movimento teve papel destacado no golpe de 2016. Financiado de fora do Brasil pelos irmãos Koch, organizou os coxinhatos pelo impeachment de Dilma Rousseff, atuou em conjunto com PSDB e MDB e contou com ampla difusão da Rede Globo. Assim como Lacerda, apresentou um golpe de Estado promovido pelo imperialismo como uma campanha popular contra a corrupção.

Também nesse caso, as denúncias serviram de cobertura. Dilma não foi derrubada por crime de responsabilidade. O impeachment permitiu entregar o governo a Michel Temer e impor medidas rejeitadas pela população: congelamento dos gastos públicos, reforma trabalhista, terceirização e privatizações.

O MBL repetiu o roteiro lacerdista. A imprensa martelou denúncias até apresentá-las como verdades indiscutíveis. Setores da classe média foram levados às ruas em defesa da moralidade. O Congresso e o Judiciário deram aparência legal à derrubada do governo. Os grandes capitalistas e o imperialismo colheram os resultados.

O golpe também abriu caminho para Jair Bolsonaro. O MBL participou da criação do ambiente político que permitiu a ascensão do bolsonarismo. Quando surgiram conflitos entre Bolsonaro e setores da burguesia, o movimento rompeu com o antigo aliado e procurou se apresentar como uma direita moderada. Afinal de contas, filho feio não tem pai.

A mudança de embalagem não alterou seu conteúdo. O bolsonarismo utiliza provocações, ameaças e apelos militares. A terceira via prefere os editoriais da imprensa, as decisões judiciais, as operações policiais e as campanhas em nome da moralidade. Ambos defendem os interesses dos grandes capitalistas e do imperialismo. Mas, sejamos sinceros… o MBL/Missão é a puta de rua favorita dos banqueiros – ele faz tudo o que querem. Tudinho.

A diferença de método não torna o Missão democrático. Em alguns aspectos, torna-o ainda mais perigoso. Bolsonaro expõe seu reacionarismo e provoca uma reação imediata entre os trabalhadores. Os lacerdistas procuram impor uma política semelhante sob a aparência de competência administrativa, respeito às instituições e defesa da Constituição.

Lacerda também pronunciava discursos pseudodemocráticos enquanto conspirava com militares e representantes de Washington. Apresentava-se como defensor da lei enquanto trabalhava para impedir posses, anular eleições e derrubar governos. A reivindicação de seu legado revela o verdadeiro significado da “direita civilizada” oferecida pela imprensa como alternativa ao bolsonarismo.

Outros personagens da política fluminense aderiram à homenagem. Victor Travancas exibe um retrato de Lacerda nos vídeos em que comenta a situação do estado e coleciona objetos ligados ao antigo governador. Bernardo Santoro, ex-presidente do Instituto Rio Metrópole durante o governo de Cláudio Castro, adquiriu a marca da Tribuna da Imprensa e pretende relançar o jornal até o próximo ano.

Fundada para servir à campanha contra Getúlio Vargas, a Tribuna da Imprensa poderá voltar a circular pelas mãos dos integrantes da mesma direita que participou do golpe contra Dilma Rousseff e que, como se vê, dão continuidade à sua missão de entregar o Brasil aos vampiros imperialistas.

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