Política

Clara Ant persegue jornalista pró-Palestina que denunciou sionismo

Assessora de Lula apresentou queixa-crime contra Cid Benjamin após ele observar que ela é uma representante extraoficial dos interesses de “Israel” dentro do governo

A assessora especial do presidente Lula, Clara Ant, apresentou uma queixa-crime contra o jornalista Cid Benjamin por uma publicação feita em 4 de maio no Facebook. Benjamin havia descrito Ant e o senador Jaques Wagner (PT-BA) como “representantes extraoficiais de Israel” no Brasil.

A medida foi denunciada por Breno Altman, jornalista judeu, filiado ao Partido dos Trabalhadores e uma das principais vozes antissionistas do País. Em uma publicação intitulada “Todo apoio a Cid Benjamin”, Altman afirmou que a descrição corresponde ao papel político exercido pela assessora dentro do governo.

“Clara Ant não integra o corpo diplomático israelense, nem se poderia dizer que pertence aos serviços de inteligência daquele país. Suas opiniões e ações, no entanto, mostram que ela atua como peça do lobby sionista no Brasil, mesmo integrando a assessoria do presidente Lula.”

Cid Benjamin não atribuiu a Ant qualquer cargo oficial no Estado sionista. A expressão “representante extraoficial” refere-se à sua atuação como interlocutora das organizações que defendem “Israel” junto ao governo federal. Trata-se de uma crítica política dirigida a uma funcionária pública, cuja atividade dentro do Palácio do Planalto pode e deve ser debatida publicamente.

Clara Ant, porém, preferiu levar o jornalista à polícia e à Justiça. Em vez de explicar sua relação com as entidades sionistas ou contestar politicamente a acusação, tenta tratar como delito uma denúncia sobre seu trabalho no governo.

A queixa-crime não pode ser separada da atividade desempenhada por Ant nos últimos anos. Sob o pretexto de aproximar Lula da chamada comunidade judaica, a assessora tem aberto as portas do governo para organizações que são tentáculos do Estado de “Israel” e procuram se apresentar como representantes do conjunto dos judeus brasileiros.

Breno Altman destacou que esse comportamento contraria inclusive a posição oficial do PT diante do massacre na Faixa de Gaza. Segundo ele, Ant atua para proteger os interesses de entidades como a Confederação Israelita do Brasil (Conib), sempre em nome de “melhorar as relações da comunidade judaica com o governo”.

A Conib não representa todos os judeus do País. A entidade é uma das principais defensoras de “Israel” no Brasil e trabalha para proteger o regime sionista das denúncias sobre o genocídio palestino. Também procura apresentar a oposição ao sionismo como se fosse uma manifestação de ódio contra os judeus.

O favorecimento à Conib ficou particularmente claro no seminário “Enfrentamento ao Antissemitismo”, organizado pelo governo federal no Itamaraty, em 16 de abril. As três mesas do encontro foram ocupadas por representantes do campo sionista, com posição de destaque para a confederação e seu presidente, Cláudio Lottenberg.

Nenhum judeu contrário ao sionismo recebeu o direito de falar no seminário. Os coletivos Árabes e Judeus pela Paz, Articulação Judaica de Esquerda e Vozes Judaicas por Libertação acusaram Clara Ant de impedir sua participação no encontro. A denúncia foi publicada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.

As entidades integram o Grupo de Trabalho sobre Antissemitismo criado pelo próprio governo federal. Segundo os coletivos, foi solicitado um espaço de apenas dez minutos para que uma posição judaica antissionista pudesse ser apresentada. O Itamaraty teria aceitado o pedido, mas a intervenção teria sido barrada pela coordenação geral do seminário.

Os grupos decidiram, então, não participar do evento. Em carta enviada à Folha de S.Paulo, afirmaram que o encontro havia sido preparado “sem uma real pluralidade” e que concedia espaço apenas às organizações comprometidas com a defesa de “Israel”.

Débora Abramant, da Articulação Judaica de Esquerda, denunciou a tentativa de apagar o setor da população judaica que se solidariza com a Palestina. Os únicos convidados com direito à palavra defendiam o sionismo e a existência de “Israel” como um Estado exclusivamente judeu sobre o território palestino.

A exclusão dessas organizações não foi um detalhe da preparação do evento. Sem a presença dos judeus antissionistas, os dirigentes da Conib puderam apresentar seus próprios interesses como se fossem a opinião de toda a população judaica.

Essa seleção também serviu para sustentar a equiparação fraudulenta entre antissionismo e antissemitismo. O antissemitismo é o racismo contra os judeus. O antissionismo é a oposição a uma corrente política colonial criada pelo imperialismo, responsável pela expulsão dos palestinos e pela formação de um Estado de supremacia judaica.

A presença de organizações judaicas que combatem o sionismo destrói a alegação de que criticar “Israel” seria atacar os judeus. Por esse motivo, esses setores foram afastados de um encontro oficial que deveria discutir justamente o combate ao antissemitismo.

O governo pretende ainda elaborar uma Estratégia Nacional de Enfrentamento ao Antissemitismo, com a participação de pelo menos oito ministérios. Caso essa política seja submetida às organizações sionistas (o que tudo indica que será), servirá para perseguir estudantes, jornalistas, professores e movimentos que denunciam os crimes de “Israel”.

Os coletivos também se manifestaram contra o projeto apresentado pela deputada Tabata Amaral (PSB), que pretende adotar no Brasil a definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto. A fórmula permite incluir determinadas críticas ao Estado sionista entre as manifestações de racismo antijudaico.

A ação movida contra Cid Benjamin mostra o uso que pode ser feito desse tipo de definição. Uma assessora presidencial apontada como responsável por privilegiar organizações sionistas em um seminário do Itamaraty tenta agora utilizar o aparelho judicial contra um jornalista que denunciou sua atuação.

A atividade de Clara Ant também entra em choque com as declarações públicas do presidente Lula. Em fevereiro de 2024, o presidente comparou o massacre promovido pelo governo de Benjamim Netaniahu contra os palestinos ao extermínio dos judeus pelo regime nazista. Enquanto Lula denunciava o genocídio, sua assessora tratava as entidades defensoras de “Israel” como interlocutoras privilegiadas do governo.

O Itamaraty não realizou um seminário semelhante para tratar do genocídio palestino ou da perseguição contra árabes e muçulmanos. No Dia Nacional da Lembrança do Holocausto, entregou as mesas do evento a organizações que procuram usar a memória dos judeus assassinados pelo nazismo para defender o Estado responsável pela carnificina em Gaza.

Ao denunciar a queixa-crime, Breno Altman apontou o conteúdo repressivo da iniciativa de Clara Ant:

“Ao apelar à polícia e à Justiça, ela também expõe a face autoritária do sionismo: pretende criminalizar a crítica ao Estado genocida de Israel, posar de vítima e mobilizar o aparato repressivo contra quem se levanta pela causa palestina.”

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