Lula anunciou que não pretende ir aos debates promovidos pela Rede Globo, e Flávio Bolsonaro aparentemente também declinou do convite. Com os dois protagonistas da disputa fora do elenco, os espetáculos prometem ser ainda mais enfadonhos. A emissora corre o risco de ser atropelada pela internet mais uma vez, como ocorreu na Copa. Todo o investimento na estrutura dos debates, anunciados como momentos decisivos da campanha, invariavelmente seguidos de pesquisas, análises, recortes e manchetes de jornal, desta vez será destinado a um convescote da direita, com Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos. Os partidos menores de esquerda nunca foram convidados para o festim e nada indica que os defensores da democracia vão mudar de ideia, mesmo com a sobra de cadeiras no palco.
Já vai longe o tempo em que debate podia decidir eleição com truques de edição e manipulação, como ocorreu quando Lula perdeu para Fernando Collor, o candidato da Globo. De lá para cá, as coisas mudaram graças à internet e às redes sociais, que tanto incomodam a imprensa da burguesia. Dos debates da última eleição para a prefeitura, o eleitor se lembrará, no máximo, de José Luís Datena, irritado, dando uma cadeirada em Pablo Marçal. De resto, a chatice de sempre.
Quem terá saudade da lista de temas organizada pelo jornalismo da Globo para direcionar o debate? E do sorteio feito pelo apresentador diante das câmeras, que, à maneira de um prestidigitador, garante a lisura do processo, mas sempre tira uma pergunta incômoda para o candidato da esquerda e uma pergunta fácil para o da direita? Qualquer semelhança com o sorteio de juízes do STF para assumir relatoria de processos será mera coincidência.
Como as perguntas têm a cara da Rede Globo, os candidatos costumam ensaiar as respostas em sessões de “media training”. Os jornalistas ficam torcendo por um escorregão, que lhes dê a manchete do dia seguinte, mas o debate é tão engessado com seus milhares de regrinhas – um minuto para pergunta, dois para resposta, 30 segundos para a réplica, 10 para a tréplica – que o que mais acontece é uma frase ficar sem conclusão, pois, se o candidato insiste em terminá-la, a direção corta o som do microfone. O candidato ofendido por outro pode solicitar um direito de resposta, que será concedido ou negado de acordo com a conveniência de quem arbitra o jogo. Instaura-se um minitribunal para julgar se houve ofensa e definir quantos segundos serão dados para a resposta. O mais emocionante acaba sendo acompanhar o cronômetro para ver se o candidato consegue concluir o raciocínio. Aliás, isso é treinado também porque, em condições normais, ninguém conseguiria.
O clima policialesco é assumido pelos jornalistas, que, à maneira de bedéis de colégio interno, disciplinam os candidatos, chamando a atenção quando alguém sai do tom monocórdico da conversa e mesmo quando a plateia levada pelos candidatos se manifesta com aplausos, vaias, frases ou qualquer ruído. Nada pode. Tudo tem de ser frio, sem espaço para emoções. Hoje, o formato de podcasts, com espontaneidade e pouco limite de tempo, tem atraído muito mais a audiência.
O esquema da Globo reflete o modo como o próprio sistema judicial vê os candidatos, ou seja, como potenciais “bandidos”, gente desonesta ou insignificante, exceto os da burguesia, sempre bem aprumadinhos e conhecedores dos códigos de classe. Tanto a emissora como o Judiciário se dizem defensores da democracia, mas suas regras sempre dificultam a campanha dos partidos pequenos de esquerda. Para a TV, nunca são convidados, sob a alegação de que não têm parlamentares eleitos. Num perverso círculo vicioso, permanecem escondidos do público porque não são conhecidos do público e não são conhecidos do público porque permanecem escondidos do público. Até das pesquisas eleitorais podem ser alijados, como vimos há pouco, quando a Qauest omitiu o candidato do PCO à Presidência, o companheiro Rui Costa Pimenta, que, no entanto, já pontuava nas primeiras pesquisas do Datafolha. Aliás, na pesquisa divulgada ontem à noite na Globo, o mesmo instituto citou todos os candidatos, inclusive os que não pontuaram, à exceção de Rui Costa Pimenta, que nem sequer teve seu nome lido no teleprompter.
O TSE, por sua vez, tem a prerrogativa de inventar regras a cada eleição. Já estamos sabendo que carros de aplicativo estão proibidos de ostentar adesivo de candidato. É estranho, já que o carro é do próprio motorista, não da empresa – e a proibição partiu do tribunal, não das empresas de aplicativo. Coisas desse tipo poderiam muito bem ser decididas pelo dono do carro se não fossem apenas mais um meio de controlar a eleição.
Os tribunais seguem punindo “crimes de palavra” sob a alegação de que alguém se sentiu ofendido. O Casimiro, da Cazé TV, foi processado por um ator, numa ação que pede indenização de R$ 120 mil, por ter dito que o rapaz “é um cara esquisito”. O ator afirmou ser homossexual, o que faria de “cara esquisito” uma injúria homofóbica, que, segundo o STF, se equipara à injúria racial. Mal saberá esse ator que “esquisito” já foi sinônimo de precioso, fino. Os identitários não são caçadores de etimologias perdidas?
Se a coisa está nesse nível, imaginemos como será na campanha eleitoral, quando é normal que os ânimos se acirrem, que o eleitorado se envolva no processo e que a linguagem seja expressiva, hiperbólica, cáustica. Ao punirem formas de expressão e figuras de linguagem, os tribunais querem que todo o mundo se comporte como se estivesse no debate da Rede Globo – sem emoção, sem envolvimento, sem paixão. Quanto mais fria a eleição, mais fácil empurrar goela abaixo um candidato sem sal, algum tecnocrata picolé de chuchu. Vamos ver se vai dar certo. O debate da Globo corre o risco de ser um fiasco.





